“Como você está sentindo?”: o poder de saber nomear as emoções

Falar sobre sentimentos na infância ajuda a construir saúde mental, mas famílias brasileiras ainda fazem isso menos que em outros países

Vanessa Fajardo Publicado em 18.05.2026

Resumo

Ajudar as crianças a nomear os sentimentos desde a primeira infância traz ganhos para a vida toda. No Brasil, mais da metade das famílias têm o hábito de perguntar como seus filhos se sentem, mas a média é menor do que em outros países.

“Como vocês estão se sentindo hoje?” É assim que a professora Raissa Silva Santos inicia as atividades com a turma de crianças de 2 e 3 anos da CEI Baroneza de Lima, na Zona Sul de São Paulo. As respostas não vêm apenas em palavras: as crianças também identificam e nomeiam seus sentimentos ao depositarem tampinhas coloridas em potes transparentes — cada cor representa uma emoção. Vermelho para raiva, verde para calma, amarelo para alegria, preto para medo e azul para tristeza.

“Sentamos em roda e eles vão identificando as emoções, chamamos de emocionômetro”, explica Raissa. Ela reforça para as crianças que é natural sentir medo, tristeza ou raiva e é importante conseguir nomear os sentimentos para entender o que os provocam e como lidar com eles.

A colega de Raissa, a professora Andressa Alyne Bueno Silveira, que atua na mesma escola também investe em experiências para o autoconhecimento e desenvolvimento de competências socioemocionais com a turma de 2 a 4 anos. As atividades incluem técnicas de meditação guiada e relaxamento, auxiliando as crianças a perceberem sinais físicos como a respiração e os batimentos cardíacos.

Boneca Alice e meditação

Na sala de Andressa foi criado o “espaço da calma” com recursos lúdicos como garrafinhas sensoriais, músicas e a boneca Alice, que possui expressões faciais trocáveis para ajudar na resolução coletiva de conflitos. Como resultado, as educadoras identificaram que as mordidas e os conflitos por brinquedos comuns nesta faixa etária foram substituídos pela verbalização dos sentimentos, promovendo o autoconhecimento desde a primeira infância.

“Se você sabe o que está sentindo vai conduzir melhor o momento. Tem criança que fica brava, mas já entende que precisa respirar, se acalmar. Se ela não conhece essa emoção, é mais difícil lidar com ela”, explica Andressa.

Professoras da escola Baroneza de Limeira com a boneca Alice. Foto: reportagem.

As atividades conduzidas por Andressa e Raissa podem parecer simples, mas tocam em uma dimensão que ainda recebe pouca atenção no cotidiano de muitas crianças brasileiras: a conversa sobre emoções. Um estudo desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) trouxe dados inéditos sobre o desenvolvimento de crianças brasileiras de 5 anos matriculadas na pré-escola.

Entre os itens abordados, o IELS mediu justamente algo que raramente aparece em pesquisas: com que frequência os responsáveis conversam com as crianças sobre como elas se sentem. No Brasil, 56% das famílias fazem isso de 3 a 7 vezes por semana, enquanto a média internacional chega a 76%.

A diferença de 20 pontos percentuais revela uma lacuna emocional com impactos concretos no desenvolvimento infantil — e reforça a importância de criar, desde cedo, espaços de escuta e acolhimento tanto em casa quanto na escola.

O que é o IELS?

O Brasil foi o único país da América Latina a participar da pesquisa, viabilizado por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O estudo foi realizado nos estados do Ceará, Pará e São Paulo. 

A pesquisa olha para três áreas de desenvolvimento: aprendizagens fundamentais (literacia e numeracia emergentes), funções executivas (memória de trabalho, flexibilidade mental e controle inibitório) e habilidades socioemocionais (empatia, confiança e comportamento). 

Um dos resultados diz respeito ao uso de telas: responsáveis e cuidadores relatam que 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais em casa todos os dias e os resultados indicam que a prática está associada a níveis mais baixos de aprendizagem, especialmente em literacia e numeracia emergentes. 

Outros dados são sobre a leitura de livros: apenas 14% dos responsáveis brasileiros realizam essa atividade entre 3 e 7 vezes por semana (a média internacional é de 54%); e sobre a realização de atividades ao ar livre, que é frequente para apenas 37% das famílias, abaixo da média de 46% nos países participantes do IELS.

‘Negligência à importância da saúde mental’

Gustavo Estanislau, membro do Instituto Ame sua Mente, que atua pela em saúde mental nas escolas públicas, diz que o dado mostra que, no Brasil, o desenvolvimento das competências socioemocionais ainda é negligenciado em favor do desenvolvimento físico e pedagógico.

“Estamos fechando os olhos para a importância desse conjunto de questões que acabam sendo a base para nossa saúde mental, que nos ajudam a nos conectar com as pessoas, lidar com os problemas e desenvolver perseverança”, afirma Gustavo.

Ele explica que essa dificuldade em lidar com o sentir é transgeracional, fruto de uma cultura onde muitos adultos foram ensinados a “engolir o choro.” Quando os pais não falam sobre suas próprias emoções de forma concreta — por exemplo, explicando que estão tristes porque brigaram com alguém e que esse sentimento logo passará —, as crianças deixam de desenvolver o repertório necessário para identificar o que sentem em si mesmas e nos outros.

“Ao falarmos sobre as nossas emoções, fazemos com que as crianças desenvolvam repertório e consigam identificar essas emoções em si mesmas e nos outros.”

Gustavo Estanislau. Foto: arquivo pessoal

O maior erro cometido pelos adultos, segundo Gustavo, é não estar presente ou fechar as portas para a troca emocional ao invalidar o que a criança sente. Ele defende a importância da “validação emocional”, que consiste em permitir que a criança se expresse do seu jeito, ganhando autonomia sobre seus sentimentos. Outro equívoco é acreditar que haja respostas prontas para todas as dúvidas.

“O repertório emocional vai acontecendo com experiências, quanto mais troca, mais ele vai se lapidando. Não é numa pergunta, numa situação específica que o repertório emocional é construído.”

Para fortalecer esse vínculo em casa, o especialista sugere estratégias simples, como utilizar filmes, livros e jogos que abordem o tema, além de criar espaços seguros e exclusivos para que a criança possa falar de suas emoções. Durante um trajeto dentro do carro ou até naquele momento clássico antes de dormir. “São momentos em que elas sentem que podem falar sem ser expostas.”

Dicas para praticar a alfabetização emocional em casa

Nomeie e compartilhe suas próprias emoções: o aprendizado começa com o exemplo do adulto. Em vez de esconder o que sente, explique de forma concreta: “O papai está triste porque aconteceu tal coisa no trabalho.” Isso ajuda a criança a desenvolver repertório e a identificar essas mesmas sensações nela mesma;

Pratique a validação emocional: evite frases que silenciem o sentimento, como o clássico “engole o choro.” Acolha o que a criança traz, dizendo algo como: “Eu entendo que isso te deixou triste.”;

Crie momentos de segurança e escuta: aproveite situações de exclusividade, como o tempo dentro do carro ou o momento antes de dormir, para conversar sobre o dia. Nesses espaços, a criança se sente segura para falar sem ser exposta ou invalidada por outras pessoas;

Use referências lúdicas: utilize recursos externos para facilitar o diálogo, como filmes e livros. Perguntar “como você acha que aquele personagem está se sentindo?” durante um filme ou observar o comportamento de outras pessoas no dia a dia ajuda a construir empatia e compreensão emocional;

Incentive a técnica da “cheira a florzinha, assopra a velinha”: quando a criança estiver brava ou agitada, incentive-a a respirar fundo para que a calma retorne. Uma técnica lúdica é pedir para que ela repita os movimentos como se fosse “cheirar uma florzinha” (inspiração) e “assoprar uma velinha” (expiração). Esse é um hábito que ajuda a substituir reações físicas como gritos ou birras pela autorregulação.

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Emocionário: Diga o que você sente

Um dicionário ilustrado de 80 emoções — das mais conhecidas às mais difíceis de nomear, como “melancolia”, “ambivalência” ou “euforia”. Para cada sentimento, uma definição sensível, uma ilustração e uma pergunta que convida à reflexão. A proposta é simples e poderosa: quando a criança consegue nomear o que sente, ela deixa de ser dominada por aquilo que não entende. É uma ferramenta de vocabulário emocional que serve tanto para leitura compartilhada quanto para consulta nos momentos em que as palavras faltam.

Autores: Cristina Núñez Pereira e Rafael R. Valcárcel
Editora Sextante

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O monstro das cores

O Monstro acorda com os sentimentos todos misturados — alegria, tristeza, raiva, medo e calma embaralhados sem sentido. Com a ajuda de uma amiga, ele aprende a separar cada emoção em um pote diferente, dando cor e nome ao que sente. O livro usa uma metáfora visual muito concreta — cada emoção tem uma cor — o que facilita imensamente a conversa com crianças pequenas, que ainda não têm vocabulário para descrever estados internos. Virou referência mundial em educação emocional na primeira infância.

Autora: Anna Llenas
Editora Aletria

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O Monstro das Cores vai à Escola

Continuação direta do primeiro livro, agora com o Monstro enfrentando um dos contextos mais carregados emocionalmente para qualquer criança: o primeiro dia de aula. A novidade, o medo do desconhecido, a saudade de casa e a descoberta de novas alegrias aparecem de forma acolhedora e sem julgamento. É especialmente útil para preparar crianças para transições escolares — seja a entrada na creche, na pré-escola ou numa turma nova — e abre espaço para que elas falem sobre o que sentem antes, durante e depois da experiência.

Autora: Anna Llenas
Editora Aletria

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