Aprenda estratégias para uma adaptação escolar tranquila. Saiba como preparar o bebê e os pais para a rotina no berçário e maternal com menos sofrimento.
O primeiro dia na escola é um marco emocionante, mas também pode gerar ansiedade. Entenda como funciona o processo de adaptação no berçário e maternal e confira dicas práticas para lidar com o choro e a insegurança, transformando a separação em um momento de confiança para você e seu bebê.
Deixar o filho no maternal pela primeira vez é um rito de passagem complexo. Enquanto eles inauguram as primeiras interações fora de casa, o coração dos pais aperta com as incertezas sobre o bem-estar da criança. É um misto de sensações: além de lidar com o choro dos filhos, os responsáveis enfrentam uma sensação de perda, como se o laço que os une estivesse sob tensão.
Para muitas famílias, o primeiro dia no maternal marca uma virada de rotina e também de identidade: nasce um novo jeito de maternar e paternar, agora com a escola como parceira. A decisão de deixar um bebê na creche ou no maternal costuma vir acompanhada de medo, culpa e dúvidas — sentimentos comuns, mas que nem sempre encontram espaço para serem ditos.
Mariza Lima, 35 anos, mãe solo e em dupla jornada, descreve esse aperto como algo físico. “Eu sei que é importante, eu sei que ele vai ficar bem, mas meu corpo não entende isso de primeira. Eu sinto como se eu estivesse deixando uma parte de mim ali”, conta. Na véspera, ela separou a troca de roupa, conferiu fraldas e mamadeira, mas foi o momento de fechar a mochila que apertou mais. “Eu fiquei me perguntando se eu estava fazendo a coisa certa. E, ao mesmo tempo, eu precisava trabalhar. Essa mistura dá um nó.”
No entanto, se essa transição não for cuidada, o sofrimento pode sobrecarregar a todos. Geralmente, o primeiro dia no maternal coincide com o fim da licença-maternidade, período em que a mãe precisa equilibrar a nova rotina com sentimentos de solidão e autocobrança. A volta ao trabalho desperta o medo da separação e, por vezes, a insegurança de confiar o cuidado do filho a terceiros.
Para mães como Mariza, o peso também aparece na logística: o tempo do deslocamento, as mensagens que demoram a chegar, o medo de a escola ligar no meio de uma reunião. “Eu penso: se ele chorar, quem vai acolher? Se ele não dormir, como vai ser à noite? Eu fico tentando prever tudo porque eu não tenho com quem dividir”, diz ela.
Então, como atravessar esse período com mais leveza? Conversamos com Beatriz Abuchaim, psicóloga e gerente de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e com a educadora parental Roseana Osvald, para entender como transformar a angústia em segurança.
Antes mesmo de olhar para a estrutura física, é fundamental analisar o projeto pedagógico e a qualidade da formação dos profissionais. O ambiente deve garantir segurança e acolhimento para que a criança cresça e adquira novas experiências.
“Muito antes do primeiro dia, é importante que a família estabeleça um vínculo com a escola. É preciso visitar o espaço, conhecer a organização, as rotinas e conversar abertamente sobre quem é o seu filho ou filha”, orienta Beatriz.
Essa troca deve ser mútua. Contar como o bebê se desenvolve em casa ajuda os educadores a prepararem uma recepção personalizada. “Para que os profissionais entendam como receber essa criança, a comunicação entre os adultos deve ser transparente e constante”, afirma a especialista.
Na prática, esse vínculo começa quando a família faz perguntas e também oferece informações. Mariza lembra que se sentiu melhor quando descreveu detalhes do dia a dia do bebê. “Quando eu falei como ele dorme, como ele gosta de colo e o que costuma acalmar, eu senti que eu estava entregando meu filho para pessoas que queriam conhecer ele de verdade, não só ‘cuidar’”, diz.
Roseane Osvald sugere que os responsáveis transformem a visita à escola em um checklist afetivo e prático. “Pergunte como a equipe acolhe o choro, como organiza a alimentação do bebê, como faz a troca e como comunica o dia. O pai e a mãe precisam entender o método, porque método dá segurança”, afirma. Ela também recomenda combinar desde o início qual será o canal de comunicação e em que momentos ele funciona melhor, especialmente para quem volta ao trabalho.
Saber que o filho está seguro é o primeiro passo para o sossego dos pais, mas nem sempre é o suficiente para aplacar a ansiedade. Por isso, a adaptação deve respeitar o tempo de todos, sem pressa.
“Não se deixa um bebê o dia inteiro na creche de uma vez. É preciso começar com períodos curtos. No primeiro dia, fica-se uma hora; se correr bem, no próximo aumenta-se um pouco, e assim por diante”, explica Beatriz.
Nesse início, a presença física dos pais nas dependências da escola (não necessariamente ao lado do bebê, mas por perto) funciona como um porto seguro. Se a criança chorar ou sentir falta, o suporte é imediato, o que fortalece a confiança no novo ambiente.
Já Roseane, destaca que a transição gradual também precisa incluir o adulto — e não só o bebê. “O responsável também se adapta. Por isso, o combinado da escola precisa ser realista: horários curtos no começo e uma despedida clara”, explica. Para ela, o “vai ficar tudo bem” ajuda pouco quando o corpo está em alerta. “O que ajuda é rotina: repetir o mesmo ritual de chegada e saída, com frases simples e consistentes.”
A jornada rumo ao maternal não precisa ser solitária. Ter uma rede de apoio — seja conversando com outros pais que já passaram por isso ou buscando ajuda profissional — é essencial para validar esses sentimentos.
Compartilhar a angústia ajuda a entender que essa fase tem um fim. É natural que, nos primeiros dias, o bebê estranhe a rotina, mude o padrão de sono ou não se alimente como de costume.
“Esses comportamentos costumam ser passageiros. Aos poucos, a criança se acostuma com o novo ambiente, com as pessoas e com o coletivo que compõe a educação infantil”, tranquiliza Beatriz. No fim das contas, a escola não vem para romper laços, mas para ampliar o mundo da criança e de sua família.
Como educadora parental, Roseane lembra que alguns sinais aparecem como “efeitos colaterais” do início: mais despertares noturnos, mudança de apetite e necessidade maior de colo ao voltar para casa. “O bebê descarrega com quem ele confia. Então, muitas vezes, ele segura no maternal e chora em casa. Isso não significa que a adaptação deu errado — significa que ele reconhece o adulto como base segura”, explica.
Mariza diz que ouvir isso deu um alívio imediato. “Eu estava com medo de ele ‘piorar’ em casa e eu pensei que a escola estava fazendo mal. Quando eu entendi que pode ser o contrário — que ele sente segurança comigo pra soltar — eu parei de me culpar tanto”, afirma.
Com o tempo, a rotina se organiza. A família entende melhor o funcionamento do maternal, e o bebê passa a reconhecer pessoas, cheiros e ritmos. A adaptação não apaga o vínculo: ela amplia o mundo da criança e também cria novas redes de cuidado para os responsáveis.
Além do que já foi combinado com a escola, algumas atitudes simples podem ajudar a reduzir a ansiedade do primeiro dia de creche ou maternal:
As famílias não precisam amar a separação para fazer essa escolha. Só precisam atravessar com estrutura, comunicação e gentileza com os cuidadores e os bebês.
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