Forma de violência que se caracteriza pela repetição nasce de uma dinâmica que envolve autor, vítima e espectador; é preciso nomeá-lo para que haja intervenção
O bullying na escola começa com apelidos e listas de ofensas que reforçam estereótipos. Entenda como identificar os sinais de humilhação, o impacto da nova lei no Brasil e por que o acolhimento é a melhor estratégia para interromper esse ciclo de violência.
Listas que ranqueiam meninas ou meninos da turma reforçando estereótipos e a criação de apelidos “inofensivos”, especialmente no início do ano letivo, podem ser o primeiro passo para humilhações públicas e episódios de violência e bullying. Mas como reconhecer os sinais e interromper esse ciclo antes que ele se agrave?
O bullying se caracteriza quando há repetição da humilhação e uso sistemático de estereótipos excludentes. Ou seja, ocorre quando uma forma de violência, como uma lista de ofensas, por exemplo, deixa de ser um evento único e passa a ser reiterada, seja por comportamentos físicos e verbais ou pela replicação no ambiente digital.
Para a doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), Luciene Tognetta, é importante que o bullying seja nomeado quando for o caso, porque as formas de intervenções são específicas, já que é um fenômeno que envolve autor, vítima e espectador.
“Os três têm problemas diferentes, eu não posso trabalhar com eles juntos. Para o agressor falta reconhecer o limite e os valores morais. Para a vítima falta se defender e nomear o que sente. E a testemunha? Falta a indignação”, diz a especialista.
Esses papéis são pré-definidos antes mesmo de as cenas acontecerem. As vítimas são “escolhidas” por sua dificuldade em conseguir se defender. Já os autores da violência não conseguiram priorizar valores como generosidade e tolerância ao diferente em detrimento à satisfação pessoal, como reforça Luciene. “Isso não quer dizer que sejam pessoas más, mas que na situação em que ocorreu o bullying, talvez por uma necessidade de parecer ter poder, de se sentir importante, não conseguiu hierarquizar os valores”, explica a professora.
O relatório da Unesco “Violência Escolar e Bullying” (2017) estimou que todos os anos 246 milhões de crianças e adolescentes sofram algum tipo de violência escolar e bullying. A prevalência entre estudantes lésbicas, gays, bissexuais ou transgêneros é de três a cinco vezes maior se comparada aos demais alunos.
A Lei 14.811/2024 tipificou o bullying e o cyberbullying como crimes no código penal brasileiro. Sancionada em 2024, ela prevê que a prática seja combatida com campanhas de educação, conscientização e informação.
Entretanto, um dos desafios do combate à prática, vem da dificuldade de identificá-la porque se trata de um fenômeno velado, ainda confundido com “brincadeira” e formas cotidianas de interação entre crianças e adolescentes, segundo Luciene. “Saberemos apenas depois pelos sintomas, quando ele estiver acontecendo. Por isso ele é tão perigoso e cruel, porque só chega para os adultos quando já está posto”, complementa.
Entre os principais sintomas manifestados pelas vítimas de bullying estão mudanças bruscas de comportamento, ou seja uma criança extrovertida que passa a ser tornar repentinamente calada e retraída; alterações na forma de se vestir, optando por peças que cobrem mais o corpo mesmo em dias quentes; além de automutilação e desenvolvimento de quadros de transtorno de ansiedade nos casos mais graves.
A deslegitimação do sofrimento da vítima tratando a reclamação de forma irrelevante, com frases do tipo “isso é mimimi” ou “deixa de bobagem”, pode desencadear quadros de depressão e ansiedade. “Os pais precisam ter uma convivência transparente e de acolhimento. Uma criança que é vítima de bullying pode desenvolver uma depressão”, afirma Alessandra Bartalini, supervisora de ensino da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP).
A própria Alessandra, que hoje é um dos pontos focais do Conviva, um programa de melhoria da convivência e proteção escolar presente na rede estadual de São Paulo, diz que foi vítima de bullying na infância, mas sempre contou com apoio e proteção dos pais. Por isso, ela critica a mentalidade e muitas vezes orientação das famílias do “bateu, levou” e se posiciona contra essa política do revide à violência.
“Hoje a gente tem um grande problema em relação a isso, porque os pais acham que ‘bateu, levou’. O bullying tem que ser tratado, cuidado porque a gente está criando uma geração de adolescentes, de futuros adultos sem limites, sem saber o poder da palavra não”, afirma.
O Conviva é um programa que opera em duas frentes principais: a promoção da convivência e o suporte de uma rede de psicólogos para ações de prevenção e acolhimento. Na prática, criou-se um protocolo de orientações para que as equipes gestoras das escolas, lideradas pelo vice-diretor, saibam como proceder em situações de bullying, vulnerabilidade ou conflitos, priorizando uma escuta ativa e imparcial sem julgamentos.
As ocorrências de todas as escolas localizadas no Estado de São Paulo devem obrigatoriamente ser registradas na Plataforma Conviva, onde se descreve o fato e os envolvidos para que o monitoramento e o atendimento individualizado pelos psicólogos sejam realizados, quando necessário. São cerca de 500 profissionais para atender 3,2 milhões de alunos que estão matriculados em mais de 5.000 escolas em todo Estado.
Além disso, o Conviva fomenta o protagonismo estudantil e a autonomia para que cada escola elabore seu próprio plano de melhoria da convivência, com ações de conscientização sobre bullying, cyberbullying e violência. A ideia é garantir que o aluno tenha voz ativa, se sinta pertencente à instituição e tenha liberdade para fazer propostas à gestão da escola que atenda aos interesses de sua turma.
Acolhimento e pertencimento estão no foco da estratégia que tem mudado a realidade do Centro de Ensino Médio (CEM), uma escola pública localizada no bairro Guará, em Brasília (DF). Os casos de bullying registrados na unidade diminuíram desde 2019, após a criação do projeto “Vem Comigo”, que forma professores para atuarem como mediadores em rodas de conversa e assembleias escolares. A iniciativa surgiu da necessidade de preparar o corpo docente a lidar com situações de violência escolar, após um episódio envolvendo uma arma branca.
Os professores formados pelo projeto também acompanham a Comunidade de Cuidado e Apoio (CCA), outra iniciativa que funciona na escola, e é um programa internacional coordenado no Brasil pelo Gepem, grupo ligado à Unicamp e à Unesp. O CCA aposta na mediação de conflitos e na criação de “espaços de fala”, em que sentimentos e tensões são discutidos em assembleias escolares. Um dos principais trunfos é o protagonismo dos estudantes, já que vítimas de bullying frequentemente se sentem mais à vontade para procurar colegas do que a própria gestão escolar.

A CCA treina de quatro a seis alunos por turma para atuar em uma “rede do bem”. Identificados por botons, esses estudantes seguem o lema de “acolher, escutar e ajudar”, praticando a escuta ativa e encaminhando os episódios para os professores do projeto. “Não sabíamos identificar esses casos com antecedência, agora conseguimos”, conta a professora Márcia Delgado Gomes, coordenadora do projeto. Ela reforça que o clima escolar depende de um trabalho perene de acolhimento e diálogo aberto que traz benefícios que vão além da convivência.
“O protagonismo muda tudo porque o aluno se sente envolvido com a escola, desperta o pertencimento. O aluno gosta de estar na escola, isso diminui a depredação, pichação, diversas formas de violência. A gente precisa de uma escola democrática até porque preparamos os alunos para a sociedade”, afirma a professora.
O desafio agora é aproximar as famílias e envolvê-las nas ações do projeto com a disseminação da comunicação não-violenta. Para isso, Márcia conta que a escola promove eventos esporádicos, em que são servidos caldos e cachorro-quentes, sempre no fim do dia, após o expediente comercial, justamente para aumentar as chances de as famílias comparecerem, mas nem sempre dá certo. “Mas não vamos desistir porque o trabalho só funciona com o tripé: escola, estudante e família.”

A aproximação entre famílias e escola impacta positivamente não só a convivência, mas também a aprendizagem. A Pesquisa Relação Família-Escola (2019), do Itaú Social e Todos Pela Educação, aponta que 85% das redes estaduais e 75% das municipais reconhecem que a participação familiar melhora o desempenho dos estudantes. Entretanto, estudos mostram que quanto mais o aluno cresce e avança o ano e as etapas escolares, mais distante as famílias ficam da escola.
Com as vítimas:
Com os autores:
Com os espectadores:
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