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  • Publicado em: 03.03.2022
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Quem nunca ouviu a frase “apanhei e não morri”? No Brasil, a palmada já foi vista como uma forma de educar as crianças. Não é estranho que pessoas digam coisas desse gênero ao lado de: “no meu tempo, criança sabia o seu lugar e não respondia” ou “hoje estão muito abusadas”. O que bater em criança nos diz sobre a nossa relação com o mundo?

As reflexões de Frantz Fanon nos ajudam a compreender que a violência é a linguagem colonial por excelência. Quando uma criança apanha e o amor surge como o sentimento que autoriza a violência, operamos uma injunção perigosa. Recordo uma lição da minha mãe, algo que ela diz até hoje, sobre não precisar chamar os mais velhos de “senhora” ou “senhor” em sinal de respeito. Por quê? Ora, senhor é o contrário do “não-senhor”, isto é, do servo e do escravizado. Não se trata de um pronome de tratamento apenas, mas de um papel social nas relações de poder verticais de controle e dominação. A colonização é uma estrutura social e política que produz modos de pensar, sentir e desejar. 

De volta à pergunta, bater em nome do cuidado é um paradoxo que confunde a nossa capacidade de amar. A socialização de uma criança através dos castigos físicos, de quaisquer teor, implica num aprendizado colonial: nós podemos ferir quem amamos e o uso da força dos mais fortes contra os mais fracos é legítimo.

De acordo com um artigo publicado em 2016, a sociedade considera que espancamento e leves pancadas corretivas têm natureza bastante distintas, mas um estudo realizado por 50 anos em parceria entre a Universidade do Texas e a Universidade de Michigan apontou inúmeros efeitos negativos em ambos os casos, como baixa estima e má gestão emocional, diferenciando-se apenas no grau. Apesar disso, uma pesquisa de 2021, realizada pelo instituto IPSOS, mostrou que 62% dos brasileiros ainda toleram a prática de bater em crianças como forma de correção.

Sem dúvida, muita gente interpreta a Lei Menino Bernardo ou Lei da Palmada, nomes informais da Lei nº 13.010/2014 que proíbe castigos físicos e tratamentos degradantes contra crianças e adolescentes, como um limite contra violência física extrema e tratamentos cruéis, relativizando tapinhas. De acordo com essa lei, uma palmada é um crime da mesma categoria que um espancamento. A legislação tem como fato político o assassinato do menino Bernardo Boldrini, em abril de 2014, por overdose de medicamentos, acusados do crime o pai, a madrasta e outros dois adultos.

Se, por um lado, a violência contra crianças e adolescentes demonstra um tipo de lógica social terrificante, por outro, tenho como hipótese o empobrecimento do repertório afetivo daquele que apanha, podendo acarretar inseguranças afetivas de várias ordens à vida adulta, como dificuldade de estabelecer laços de confiança. Com isso, fica difícil operar fora dos extremos: as medidas passam a ser amor incondicional e aprovação irrestrita e, portanto, merecido o castigo.

A psicóloga guarani Geni Núñez fala a respeito de afetos potáveis, tóxicos e escassez nutricional afetiva. Segundo ela, um adulto poder agredir uma criança em nome do amor e do cuidado endossa a criação de redes afetivas tóxicas. A criança cresce intoxicada afetivamente. 

Nós precisamos de afetos potáveis

Para o filósofo iorubá Orunmilá, os afetos são alimentos. Do mesmo modo que a saúde de quem escolher substituir água por refrigerante será prejudicada, a palmada corretiva intoxica emocionalmente e confunde os sentimentos de respeito e cuidado com dominação e controle, podendo produzir doenças crônicas. 

Numa atmosfera afetiva euro-cristã monoteísta, acabamos buscando pela perfeição e pelo amor alheio, empecilhos para a vivência afetiva saudável. A culpa passa a ser um sentimento regular que nos faz abrir mão das responsabilidades mútuas que devem orientar relações horizontais. Crianças e adolescentes devem ser estimulados a expor suas emoções e seus sentimentos ao invés de serem constrangidos a enquadrarem-se em modelos ideais e viverem como pedintes de aprovação. Daí, seguem as antigas confusões: reprimir ou libertá-los irrestritamente. Não se trata de uma coisa tampouco outra.

Numa sociedade cada vez mais intoxicada e pobre de repertórios afetivos, reafirmar “apanhei e não morri” também é um reforço aparentemente sutil ao sentimento do fascismo. Sim. Eu concordo com a formulação de Wilhelm Reich, na obra “Psicologia de massas do fascismo”: além de uma modulação política de relação autoritária com o poder, o fascismo é um sentimento. Ou seja, envolve percepção, avaliação da realidade e uma má relação com a raiva e com a frustração. Essa articulação entre o germe do fascismo e o ato da palmada está numa ideia simples: bater numa criança informa que ela deve obedecer quem está “acima” dela e exercer autoridade sobre quem está “abaixo”.  

Que tal trocar a frase ‘apanhei e não morri’ por ‘apanhei e isso não fez bem algum’?

Se não queremos alimentar o sentimento fascista em nossas crianças e fortalecê-lo em nós mesmos, fica óbvio que circunstância alguma nos autoriza a bater numa criança.

* O debate sobre a violência física como forma de educar as crianças ressurgiu com o relato de Pedro Scooby, participante do Big Brother Brasil, sobre ter batido no rosto de seu filho Dom, hoje com 9 anos, fruto de seu relacionamento com Luana Piovani. Segundo Scooby, o lábio do filho ficou inchado imediatamente. “Ele nunca mais me respondeu na vida”, comentou o brother.

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Resumo

Renato Noguera escreve sobre o fascismo por trás das palmadas corretivas: bater numa criança informa que ela deve obedecer quem está “acima”, evidenciando relações verticais de poder, controle e dominação que se aproximam do colonialismo.
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