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Agrofloresta: e se canteiros se tornassem salas de aula?

Projetos inspirados em agroflorestas buscam alfabetização ecológica e propõem outra forma de se relacionar com o planeta
Agrofloresta na escola Prefeitura de Paty do Alferes, projeto Agrofloresta na Escola
  • Publicado em: 08.11.2018
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“Plantar horta e colher floresta.” Essa afirmação soará absurda se você associa horta a pés de alface e floresta a jacarandás amazônicos. Talvez no começo também tenha soado estranha aos 112 alunos do Instituto de Educação Infantil e Juvenil (IEIJ) ao pisarem pela primeira vez nos canteiros de agrofloresta da fazenda Terra Planta, entre os municípios de Arapongas e Sabáudia, no norte do Paraná.

A única certeza eram os morangos, abundantes no mês de agosto de 2017, e as crianças puderam sentir o sabor daquela cozinha a céu aberto. Ao redor delas, carreiras de inhame plantado com cebola, hortaliças e outras variedades entre duas linhas de bananeiras, eucaliptos e árvores nativas em crescimento. Tudo muito matemático, planejado em detalhe, como casa de mãe. O porquê do cuidado as crianças só entenderiam nos seis meses seguintes.

“Uma das maiores riquezas trazidas pela agrofloresta é outra forma de se relacionar com o planeta”, explica Eduardo Carriça dos Santos, produtor agroflorestal na Fazenda Terra Planta. Do trabalho inspirado pela agricultura sintrópica – conceito desenvolvido pelo agricultor suíço, Ernst Götsch -, nasceu o projeto SAFE – Semeando Agrofloresta nas Escolas. A intenção é ensinar, desde cedo, às crianças que é possível conciliar uma alimentação sem veneno com o máximo de componentes nutricionais, sem esgotar o solo, a água e o ambiente local. Pelo contrário, mostrá-las que é possível devolver à natureza aquilo que se retira dela, plantando sementes que no futuro se tornarão floresta produtiva.

 

“Queremos mostrar que elas (crianças) podem mudar o futuro, sem repetir os nossos erros de agora”, diz Eduardo Carriça.

Eduardo relata que o projeto envolveu atividades de todo o tipo com crianças de cinco a quatorze anos, incluindo palestras com seus pais e professores, estudo de sementes, raízes, mudas, experimentação de técnicas de plantio e combinações de cultivos, até a apresentação do conceito de sintropia.

Sintropia? Pois é, quando o assunto é pouco divulgado, adulto desconfia. As próprias crianças decidiram se transformar em cientistas e trazer algumas respostas por meio da feira de ciências da escola, que elegeu “agricultura sintrópica” como tema. E os experimentos não mentiram: elas coletaram 17 minhocas e soltaram num aquário com quatro divisões, contendo terra da agrofloresta, do agronegócio, de fundo de vale e de terreno baldio.Também plantaram cinco sementes de feijão em cada um dos compartimentos para observar quais brotavam, quantas se desenvolviam e com qual força. Se você tiver alguma dúvida de que a terra da agrofloresta deu mais frutos, os alunos do IEIJ podem confirmar.

Agricultura sintrópica? O que é isso?  

A palavra “sintropia” é utilizada em oposição à entropia, termo associado à desorganização, degradação de sistemas e à perda de energia. A agricultura sintrópica, por sua vez, propõe reordenar e restaurar o ambiente natural das florestas, recuperando o solo, restituindo nascentes e o micro-clima regional.

(Produção: Agenda Götsch)

Do simples ao complexo

“Quais são os legumes e vegetais que tem aqui na escola?” Na Cidade Escola Ayni, em Guaporé, Rio Grande do Sul, as crianças têm de três a sete anos e ainda não sabem diferenciar as variedades de batata doce plantadas e nem dizer se é época de colher cenoura. Mas isso pouco importa, porque o que elas querem mesmo é comer sopa. E elas vão cozinhar com o alimento que estiver maduro naquele momento.

Para esse e outros interesses do dia a dia, elas têm à disposição um laboratório vivo, sem paredes ou portas, onde a única chave de entrada é a própria vontade. “Não faz sentido ensinar fórmula de báscara, pois cada criança tem um tempo de aprender. Da mesma forma não existe workshop de agrofloresta”, relata Erika Canton, técnica agrícola, “guardiã” e responsável pelo manejo da agrofloresta na escola. Com essa proposta de desenvolvimento, as crianças vão experimentando aquilo que é o segredo da própria sintropia: caminhar do simples para o complexo.

A Cidade Escola Ayni é resultado de uma pesquisa por mais de 40 projetos de educação alternativa e da troca de experiências com educadores de todas as partes do mundo. Ela se baseia na “educação viva e consciente”, que respeita a expressão da vontade das crianças e a busca autônoma por conhecimento, oferecendo apoio e toda a estrutura material e intelectual para que elas possam percorrer esse caminho.

“Ayni”, em Quechua (idioma dos Incas e até hoje o terceiro mais falado na América do Sul), significa cooperação e solidariedade. Para a escola que carrega estes princípios no nome, Ayni “é mais que uma palavra, mas uma forma de viver que se manifesta em relações sociais de ajuda mútua e reciprocidade.” É um pouco a metáfora da natureza, sintetizada na dinâmica das agroflorestas, onde cada elemento vivo desempenha uma função para o funcionamento inteligente do sistema.

“Queremos resgatar a educação mais natural possível, a alimentação mais natural possível, as construções mais naturais possíveis. Olhar para trás e reconhecer o que já existiu.

Os índios já faziam isso no Brasil há milhares de anos e só o que os portugueses relataram nas cartas foi que eles plantavam mandioca”, brinca Érika Canton.

Mas Pero Vaz de Caminha também registrou que, nesta terra, em se plantando, tudo dá. E há um motivo para isso, uma sabedoria ancestral que começa a ser resgatada e empregada nos processos educativos contemporâneos.

Matemática do mundo natural

Para professores, uma oportunidade de repensar o formato das aulas. Para crianças, uma mudança de percepção sobre a aprendizagem. Essa é a maneira como a professora de Ensino Fundamental Carolyn Nuttall enxerga a implementação das agroflorestas em escolas. A partir de suas experiências na Austrália, publicou livros, notas didáticas e manuais, pensando em como auxiliar e inspirar o desenvolvimento de projetos pedagógicos desse tipo no mundo todo.

Em Agrofloresta para Crianças: Uma Sala de Aula ao Ar Livre, de 1996, a autora conta a história de uma horta iniciada pelas crianças da Seville Road State School, uma escola pública da zona urbana de Brisbane que se transformou em playground, sala de aula e fonte de alimento para a comunidade e para os próprios animais. Enquanto as plantas iam crescendo e as paredes das salas de aula desaparecendo, os espaços verdes se tornavam um prato cheio de ideias para todas as disciplinas.

“Medições, por exemplo, tinham aplicação prática: as crianças mediam as alturas das árvores em crescimento, pesavam abóboras, cavavam buracos até determinadas profundidades, faziam pedidos de metros cúbicos de terra e mediam as temperaturas do composto. Elas aprendiam as habilidades relativas a orçamento e controle de finanças”, registrou Carolyn Nuttall.

Resultado: em um ano, 10m² de horta se transformaram em 1000m². Mas para Nuttall, as lições do mundo natural foram maiores que a extensão de qualquer canteiro. E para isso contou com a ajuda dos pilares da permacultura, desenvolvidos por Bill Mollison e David Holmgren. Segundo ela, cultivar alimentos criando abrigo para plantas e animais pode ser um foco importante de educação, pois traz oportunidade de desenvolvimento, experimentação, conhecimento do ambiente e participação ativa.

Respeito e diversidade

Mais de uma década e milhares de quilômetros separam a experiência piloto da professora Carolyn Nuttall, na Austrália, do trabalho do engenheiro ambiental Stephano Carvalho, no interior do Rio de Janeiro. A inspiração, no entanto, tem um denominador comum: semear nas crianças o prazer de cultivar os próprios alimentos e reconhecer o valor de serem produtoras. É a proposta do projeto Agrofloresta na Escola, uma iniciativa da Secretaria de Educação e Agricultura de Paty do Alferes, com turmas do 1º ao 5º ano na Escola Municipal José Pereira da Silva.

Desde fevereiro de 2018, o engenheiro ambiental, em parceria com a pedagoga Rosi Stumbo, desenvolvem com crianças ações que vão do plantio à mesa, passando pelo preparo do solo, adubação verde, colheita de hortaliças, legumes e verduras, até o despertar da criatividade nas oficinas de cozinha experimental.

“Nossa ideia é trabalhar além da parte física da agrofloresta, destacando os princípios básicos de sua grandeza, que são cooperação, respeito e diversidade. Os saberes tradicionais são respeitados, assim como a cultura indígena e nossas raízes africanas”, explica Stephano Carvalho.

A escola fica no bairro Capivara e, nas palavras de Stephano, é uma espécie de “oásis” cercado pela agricultura convencional, focada nos plantios de tomate e maracujá. Mas com terra fértil, comida diversificada e sem veneno, o projeto busca chegar a outras quatro escolas da região rural, oferecendo alfabetização ecológica às crianças e apresentando uma alternativa de produção às famílias.

O passo a passo do cultivo dos alimentos, além dos conceitos e princípios da agrofloresta são ensinados de forma lúdica e inspiram as atividades pedagógicas. É com práticas diárias e acesso à informação que o projeto pretende despertar um senso de preservação coletivo, trazendo a compreensão de que todos fazem parte de um único sistema. A natureza não pode ser apenas contemplativa, nem explorada sem limites, então a equação precisa ser equilibrada: retirar alimento e devolver vida ao solo. Ao mesmo tempo, balancear não significa uniformizar: o sucesso da agrofloresta é o respeito à (bio)diversidade, valor que também na convivência social se cultiva. Em vez da monocultura das cartilhas, uma ecologia de saberes a provar que é da horta que se faz, sim, uma floresta.

Resumo

“Plantar horta para colher floresta” tem sido o lema de projetos de alfabetização ecológica. Inspiradas pela agricultura sintrópica de Ernst Götsch, agroflorestas chegam às escolas e se tornam verdadeiros laboratórios verdes. Conheça algumas iniciativas.
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