Esta reportagem abre o especial de saúde mental do Lunetas em 2026, uma série que investiga o retrato da saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil. Ao longo das próximas reportagens, o portal parte do que ficou do período pandêmico para examinar o papel da escola, das famílias e das comunidades no cuidado com quem está nessa faixa etária.
Alice tinha acabado de completar 12 anos quando ouviu que ficaria duas semanas sem aula. Cumpriu quase todo o ensino fundamental II diante de uma tela, sem recreio, sem trabalho em grupo e sem os desentendimentos que costumam ocupar o intervalo. “Aos poucos, vi minha filha se apagar”, conta a mãe, a professora Aline Costa. “Ela era uma menina ativa, mas foi se fechando no quarto, parou de conversar com as amigas pelo celular, perdeu o apetite e a energia.”
A pandemia funciona nessa história como marco temporal, e não como explicação para tudo. O que interessa aos especialistas hoje é o que aconteceu com uma faixa etária muito específica no período: meninas e meninos que entraram no confinamento com 11, 12, 13 anos e saíram dele com 14, 15, 16. Essa é a janela em que uma pessoa costuma testar quem é fora de casa, e boa parte deste teste depende de estar junto a outras pessoas da mesma idade, longe da supervisão dos adultos.
A saúde mental de crianças e adolescentes entrou na pauta pública durante a crise sanitária, mas as consequências mais duradouras dizem respeito ao que a adolescência deixou de exercitar.
Onde a adolescência costuma acontecer
Discordar de um colega e resolver a briga sem um adulto por perto, perder a vez numa brincadeira, combinar um encontro e ser deixado esperando, ir sozinho até a esquina pela primeira vez. A psicóloga Lara d’Almeida, doutora em distúrbios do desenvolvimento, insiste que nada disso é tempo morto. “Recreio, fila, dividir brinquedo, discordar de um colega, tudo isso é treino de habilidade social”, afirma.
A escola concentra esse laboratório porque reúne, todos os dias e sem curadoria da família, gente da mesma idade com vontades diferentes. Quando ela fecha, some junto o principal território do convívio entre pares.
Uma revisão publicada em 2013 na Child Development, com 157 estudos de 32 países, chegou a esse mesmo ponto: o fechamento de creches e escolas restringiu de forma severa o acesso ao espaço onde se aprende empatia, resolução de conflitos e regulação emocional pelo contato com os pares.
Lara acrescenta um achado que costuma passar despercebido. Uma revisão anterior, focada em solidão, associou isolamento a sintomas depressivos em crianças e adolescentes, com um detalhe decisivo: a duração do isolamento se associou a piores prognósticos depois, independentemente da idade. Quanto mais longo o período sem convivência, maior a chance de o efeito aparecer mais tarde, o que ajuda a explicar por que os impactos da pandemia não se encerraram com a volta às aulas.
O treino que ficou faltando aparece na frustração
A conta desse intervalo chega ao consultório em cenas pequenas e reveladoras. “Vejo criança de 9, 10 anos que, ao perder uma disputa de bola no pátio ou não conseguir vez numa brincadeira, não sabe lidar com a frustração e para tudo, chora, desiste, às vezes fica agressiva, porque não teve os dois anos de prática que a idade dela pediria”, descreve Lara.
Entre os mais velhos, o mesmo mecanismo assume outra roupa: dificuldade de sustentar um desacordo sem romper a relação, desconforto com trabalho em grupo, cansaço diante de situações que exigem improviso social. A psicóloga faz questão de nomear o que enxerga ali: uma lacuna de repertório causada por ausência de oportunidade, e não uma característica da criança nem uma responsabilidade exclusiva de quem a criou.
A diferença entre os dois diagnósticos muda a conduta dentro de casa e dentro da sala de aula. Um adolescente descrito como difícil ou desinteressado tende a receber cobrança. Um adolescente descrito como alguém que não teve como desenvolver habiliades tende a receber oportunidades. Lara alerta ainda para o risco oposto, o de transformar em diagnóstico aquilo que é reação esperada.
Uma cartilha da Fiocruz produzida durante o período classificou medo, irritabilidade, tédio e insegurança como respostas previsíveis, e não como quadro clínico. O critério que importa envolve a duração e a função do sofrimento, não a presença dele.
Fazer amizade deixou de ser automático
Amizade na adolescência costuma nascer de proximidade repetida e sem propósito, do tipo que acontece na fila da cantina ou no ponto de ônibus. Dois anos sem esse acaso cobraram um preço que as famílias sentiram na volta.
Aline percebeu isso nas sessões de terapia da filha. “Entendi que o confinamento roubou das crianças uma fase crucial de sociabilização. Não adiantava apenas esperar a pandemia passar, eu precisava agir como uma ponte para o mundo lá fora.” A professora passou a organizar encontros, retomar contatos antigos e escutar sem julgar, um trabalho que ela descreve como reconstruir vínculo tijolo por tijolo.
A puberdade que aconteceu sem plateia
Enquanto o mundo social encolhia, os corpos seguiram o próprio calendário. Altura, pelos, voz, menstruação e acne chegaram para essa turma dentro de casa, com a câmera do celular funcionando como espelho principal e as redes como parâmetro de comparação. O efeito aparece na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar divulgada pelo IBGE em março de 2026: a satisfação dos estudantes com a própria imagem corporal caiu de 66,5%, em 2019, para 58% na edição feita em 2024. Entre as meninas, mais de um terço se disse insatisfeita com a aparência, contra menos de um quinto dos meninos, e 31% relataram tentar perder peso, embora apenas 21% se considerassem gordas. Falar de puberdade e de pressão estética com naturalidade deixou de ser assunto secundário nessa conversa.
O recorte de gênero atravessa todos os indicadores. Dados da mesma pesquisa analisados pelo Instituto Cactus mostraram que 29% das meninas de 13 a 15 anos avaliaram negativamente a própria saúde mental, contra 8,6% dos meninos. Entre os estudantes de 13 a 17 anos ouvidos em 2024, 41% das meninas se sentiam tristes sempre ou quase sempre, ante 16,7% dos meninos.
O levantamento do instituto encontrou ainda que nenhum dos cerca de 450 projetos de lei sobre saúde mental em tramitação no Congresso tratava especificamente de meninas, lacuna que mantém invisível um grupo que já chega à adolescência sob pressão maior e que raramente aparece como prioridade nas políticas voltadas a essa faixa etária.
A tela entrou como substituta e continuou lá
Durante o confinamento, o celular resolveu um problema real, porque manteve aula, conversa e vínculo funcionando quando não havia alternativa. O que ficou depois foi o hábito instalado numa idade em que ele costuma se fixar.
O psiquiatra Pedro Mario Pan, professor afiliado da Unifesp e membro do Instituto Ame Sua Mente, pede cautela com a explicação fácil. “As análises de grande escala encontram associações de magnitude muito pequena entre uso de tecnologia digital e bem-estar, mas o efeito parece realmente estar aí”, afirma, acrescentando que estabelecer causalidade ainda é difícil. Para ele, desigualdade, exposição à violência, privação de sono e insegurança quanto ao futuro pesam mais, e as plataformas atuam sobretudo como amplificadoras em quem já se encontra vulnerável, questão que reaparece hoje no debate sobre tempo de tela.
A ressalva serve de contrapeso a duas leituras apressadas, a que culpa o celular por tudo e a que trata o uso intenso como fase inofensiva.
Aline resume melhor o problema ao descrever a virada da filha: o grupo de dança deu a ela uma rotina saudável longe das “telas solitárias”. A palavra que importa ali é a segunda, porque separa o aparelho que aproxima daquele que ocupa o lugar da companhia, distinção que a discussão sobre vídeos curtos e hiperconexão costuma perder de vista.
Por que as marcas continuam aparecendo?
O Pedro Mario Pan faz uma segunda ressalva, dessa vez sobre o próprio recorte geracional. A mortalidade por suicídio entre adolescentes brasileiros cresce cerca de 7,7% ao ano, desde 2013, segundo estudo publicado na PLOS ONE em 2025.
“A pandemia acelerou um processo que já estava em curso”, resume. Ele observa também um movimento positivo no meio do caminho: o letramento sobre saúde mental cresceu, e o adolescente que chega hoje ao consultório tem vocabulário para nomear o que sente. As famílias procuram ajuda mais cedo, o que traz junto mais sofrimento leve e passageiro para dentro do atendimento.
O obstáculo maior continua sendo chegar ao cuidado. No recorte que Pan acompanha em São Paulo e Porto Alegre, 81% dos adolescentes com transtorno mental não recebiam tratamento algum. O percurso típico começa com um alerta da escola e passa por uma unidade básica que oferece encaminhamento, não acompanhamento. Vem a espera por avaliação especializada, a troca constante de profissionais e o reaparecimento do caso no pronto-socorro, já em crise. “A prescrição tende a recair justamente sobre a criança sem acesso a psicoterapia, porque é o recurso que o sistema consegue oferecer”, diz, apontando o remédio sem intervenção psicossocial associada como a configuração menos recomendável a um problema de políticas públicas, não a uma escolha individual.
A desigualdade decide quem é notado antes de decidir quem é tratado. Lara compara duas crianças da mesma idade e da mesma cidade durante o ensino remoto: uma com quarto próprio, conexão estável e uma mãe em casa para ajudar nas tarefas, outra dividindo um cômodo com mais quatro pessoas e usando o telefone da família quando ele estava livre. “As duas provavelmente sofreram, mas a segunda teve muito menos chance de ser notada por alguém”, diz.
A escola segue sendo o lugar onde essa percepção poderia acontecer, e a PeNSE mostra o tamanho da lacuna: menos da metade dos estudantes frequentava uma escola com algum tipo de suporte psicológico, proporção que cai para 45,8% na rede pública, enquanto 26,1% relataram sentir constantemente que ninguém se preocupava com eles. A falta de acesso a equipamento e internet de anos atrás encontrou a mesma desigualdade que segue definindo o cuidado hoje.
O que devolve repertório a essa geração?
A mesma literatura que mede o estrago aponta a saída, e ela é mais simples do que o tamanho do problema sugere. A revisão da Child Development destaca a plasticidade dessa faixa etária, e Lara vê o efeito no consultório: boa parte dos adolescentes com atraso de repertório social recupera terreno com exposição repetida ao convívio, em grupo, no esporte coletivo ou em atividades com mediação leve de um adulto, sem necessidade de acompanhamento clínico. A exceção fica para os casos em que o prejuízo social já vem acompanhado de sofrimento importante ou isolamento ativo, que pedem avaliação.
A psicóloga oferece um critério simples para as famílias distinguirem os dois cenários. Se o adolescente mantém algum vínculo funcionando, um colega que procura, uma atividade que ainda quer fazer, um adulto com quem conversa, o quadro costuma indicar um processo comum de reencontro com o mundo, mesmo que ele esteja mais lento e retraído do que antes. “O papel do adulto ali é sustentar e validar, não patologizar.” O alerta real aparece quando esse fio se rompe por tempo prolongado, e a terapia entra como recurso, ao lado da escuta cotidiana de quem convive.
Na casa de Alice, a reconstrução levou anos e teve mais de um ingrediente. A terapia deu à adolescente palavras para o que sentia. A mãe se ocupou de criar situações de encontro. A virada veio quando a menina reuniu coragem para entrar em um grupo de dança cover de K-pop na cidade onde mora, com ensaio marcado, coreografia para decorar e outras pessoas contando com ela. “O grupo de dança devolveu o brilho no olhar dela”, diz Aline. “Deu a ela senso de pertencimento, movimento do corpo e uma rotina saudável longe das telas solitárias”, além das amizades que sustentam a passagem para o ensino médio.
A recuperação de Alice não encurta a fila que separa milhares de adolescentes brasileiros de uma primeira consulta nem apaga o que a PeNSE mostrou sobre escolas sem apoio psicológico. Ela indica o que as pesquisas vêm repetindo em linguagem técnica e as famílias descobrem no dia a dia: essa faixa etária responde bem quando lhe devolvem o que faltou. Convívio frequente, adulto disponível, escola aberta e serviço público que funcione seguem sendo o cuidado mais eficiente disponível. “A saúde mental dos nossos filhos precisa de cuidado diário, escuta e, acima de tudo, de afeto compartilhado”, resume Aline.
Sinais de que um adolescente pode precisar de apoio emocional
Tristeza, medo, irritação e tédio diante de um período difícil são reações esperadas, segundo material da Fiocruz produzido para orientar famílias. O que acende o alerta é a duração e o quanto o sofrimento atrapalha a vida cotidiana. Com base nas entrevistas desta reportagem, alguns sinais merecem atenção:
- Os vínculos somem por semanas: nenhum colega procurado, nenhuma atividade desejada, nenhum adulto com quem conversar;
- O adolescente para de sair do quarto e recusa contato mesmo quando é convidado;
- Sono e alimentação mudam de forma consistente, com noites viradas ou perda de apetite;
- O desempenho escolar cai de forma abrupta e se mantém baixo sem explicação;
- Aparecem marcas de lesão autoprovocada ou falas sobre não querer estar vivo;
- Sintomas já superados voltam, como medo de dormir sozinho ou pesadelos frequentes;
- A insatisfação com o próprio corpo passa a organizar a rotina, com restrição alimentar ou exercício em excesso.
Diante desses sinais, famílias podem procurar a UBS (Unidade Básica de Saúde) mais próxima, que encaminha para o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) da região, além das clínicas-escola de universidades públicas. A escola também é porta legítima de entrada, já que costuma perceber a mudança primeiro. Para entender como funciona a terapia nessa idade e como puxar o assunto em casa, vale conhecer materiais que ajudam a falar de saúde mental com os filhos.
Adolescentes e responsáveis com pensamentos de acabar com a própria vida podem ligar gratuitamente para o Centro de Valorização da Vida (CVV), no 188, ou acessar cvv.org.br, com atendimento 24 horas por dia.
