Como o abandono digital favorece a radicalização de adolescentes

Entenda como o ambiente digital influencia o comportamento de jovens e o que pode ser feito para prevenir a violência

Ylanna Pires Publicado em 09.03.2026
Imagem mostra cena da série Adolescência, da Netflix. Eddir, um homem branco está sentado ao lado fo filho Jamie, um adolescentes branco que chora com a mão no rosto.

Resumo

A violência juvenil no Brasil mudou de forma. Hoje, ela alcança adolescentes pelas telas. Em fóruns como o Discord, o ódio é gamificado e a crueldade passa a valer como sinal de prestígio. Especialistas discutem como impedir que esse ambiente digital influencie comporta

Uma criança em casa, diante do celular ou do computador, pode dar a impressão de estar protegida. Para muitas famílias, essa cena também traz alívio: saber que ela está a poucos passos, e não sozinha na rua, transmite uma sensação de segurança. No entanto, esse ambiente não está isento de riscos. Entre telas, jogos, grupos e redes sociais, a exposição a discursos violentos é quase sempre imperceptível para quem observa de fora.

Foi nesse contexto que Mariana, mãe de Fernando (nomes fictícios), de 16 anos, recebeu a notícia de que o filho passaria a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo por suspeita de participar na produção e no compartilhamento de conteúdos em um grupo de cyberbullying no Discord, plataforma de comunicação por texto e voz bastante popular entre adolescentes. “Eu não sabia que toda a tecnologia a que ele tinha acesso era a ponte para um submundo que o transformou em outra pessoa”, diz. “Ele parou de me olhar nos olhos e começou a rir de vídeos que fariam qualquer um chorar. O meu filho foi recrutado dentro do próprio quarto.”

Por que meninos “privilegiados” estão cometendo crimes online?

A violência juvenil no Brasil não se restringe à vulnerabilidade econômica. Cada vez mais, chegam ao Judiciário casos de meninos com acesso a recursos e tecnologia de ponta, mas que vivem uma desconexão profunda com as próprias vidas. Isolados em quartos equipados com internet de alta velocidade, imersos em comunidades digitais que reforçam frustrações e ressentimentos, eles se inserem em dinâmicas de extrema violência on-line, muitas vezes sem mediação adulta capaz de nomear limites, emoções e responsabilidades.

A juíza Vanessa Cavalieri, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, observa que o que acontece hoje em plataformas como o Discord não é mais algo “escondido” na deep web. Acontece na superfície.” Até onde iríamos se não houvesse regra nem consequência?”, questiona. 

Vanessa Cavalieri – Juíza responsável pela Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro

Essa ausência de regulação é alimentada pelo que a promotora Gabriela Lusquiños chama de abandono digital. “Muitos pais acreditam que não devem acompanhar o filho para não invadir sua privacidade. Mas a internet é uma rua”, alerta. “E ninguém deixa uma criança circular sozinha na rua, sem qualquer orientação.”

Gabriela Lusquiños – Promotora de Justiça no Estado do Rio de Janeiro

Dados que acendem o alerta

O aumento da radicalização é traduzido também em números. Dados da TIC Kids Online Brasil 2024 mostram que 29% dos usuários de 9 a 17 anos relataram já ter vivido situações ofensivas na internet; 12% disseram ter sido alvo direto de tratamento ofensivo ou desagradável, e 42% afirmaram já ter visto alguém ser discriminado online.

A engrenagem do ódio: do meme a atos violentos

A radicalização não é um evento súbito, mas um processo pedagógico que começa com o humor. A educadora Sheylli Caleffi explica que páginas de “filosofia” muitas vezes servem de fachada para validar discursos de ódio. No Discord, a dinâmica é de validação: quem compartilha conteúdos mais extremos ganha reconhecimento. O caso do cachorro Orelha pode servir de exemplo para abrir a conversa sobre como essa dessensibilização pode escalar para o mundo físico.

Estágios da radicalização digital

Estágio O que acontece Objetivo do grupo
I. Infiltração Consumo de memes de “humor ácido” em redes abertas (TikTok/Instagram). Quebrar a barreira moral e dessensibilizar o jovem por meio do riso.
II. Isolamento Convite para servidores fechados. O jovem passa madrugadas inteiras online. Afastar o adolescente do convívio familiar e criar uma “bolha” de realidade única.
III. Hierarquia Desafios de crueldade e compartilhamento de conteúdos violentos. Transformar a violência em status.
IV. Ação Planejamento de crimes ou maus-tratos a animais para “provar valor”. Gerar choque social e subir na hierarquia do grupo.

O olhar da saúde mental

A psicóloga Joana Marinhos, que atua no acolhimento de famílias em crise, observa que o adolescente radicalizado vive uma crise de desumanização profunda. “O adolescente para de ver o ser vivo e passa a ver um objeto que gera engajamento”, explica. “Eles buscam no digital o que não encontram no mundo físico: a sensação de serem importantes, mesmo que através do terror.”

Para Joana, o comportamento é sempre uma forma de comunicação, e os sinais de alerta são técnicos e funcionais, muito antes de se tornarem ideológicos.

Sinais de alerta para pais e educadores

  • Isolamento social progressivo: abandono de hobbies, esportes e amizades físicas;
  • Alteração brusca no ciclo de sono: permanecer conectado durante a madrugada para evitar monitoramento;
  • Reatividade agressiva: demonstração de raiva física quando o tempo de tela é limitado;
  • Fascínio por conteúdos violentos: indiferença ou prazer diante de notícias de ataques ou sofrimento alheio;
  • Desprezo por figuras femininas: mudança no tratamento dado a mães, professoras e colegas meninas.

Caminhos para a mudança: regulação e rede de apoio

A superação desse cenário passa por responsabilização, mas também por prevenção. “A construção de um ambiente seguro depende de regulação eficaz, fiscalização ativa e sociedade informada”, reforça Gabriela Lusquiños. Em 17 de março, entra em vigor o ECA Digital, lei que que estabelece proteção por padrão e requer que os produtos digitais venham configurados ‘de fábrica’ para proteger crianças e adolescentes. Mais do que proibir condutas nocivas, o ECA Digital estabelece parâmetros, orienta boas práticas e responsabiliza violações.

Iniciativas como o Protocolo Eu Te Vejo, metodologia de escuta e acolhimento voltada para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade ou vítimas de violência, idealizada pela juíza Vanessa Cavalieri, surgem como guias para que as instituições saibam identificar esses sinais precocemente, integrando educação e investigação técnica. No entanto, quando a violência já se manifestou, o caminho de volta exige uma articulação direta entre as bases (família, escola, amigos) que cercam o adolescente.

Para o filho de Mariana, a mudança começou quando a rede de apoio foi ativada de forma integrada. Após a investigação, o jovem passou por um acompanhamento rigoroso envolvendo a escola, o Ministério Público e uma equipe especializada em saúde mental. Os pais também foram envolvidos no processo, aprendendo a reconstruir a autoridade e o vínculo perdidos para as telas. “Não foi um processo rápido”, conta Mariana. “A escola precisou entender que ele não podia ser apenas expulso, mas que precisava de um contorno que ele não tinha em casa.”

A juíza Vanessa Cavalieri defende que, como o cérebro do adolescente ainda está em formação, a transformação é possível por meio dessa intervenção multidisciplinar. “O cérebro tem uma neuroplasticidade, as funções cerebrais ainda são muito maleáveis. Temos casos de jovens que estavam radicalizados e, após esse atendimento conjunto, abandonaram esse comportamento.”

O passo a passo do cuidado: a visão clínica da desradicalização

A psicóloga Joana Marinhos detalha que o processo de afastar um jovem da radicalização exige etapas que priorizam a retomada da empatia:

  1. Interrupção do fluxo: o afastamento monitorado dos ambientes de ódio. Isso gera uma fase de desorientação, em que o suporte emocional da família é testado ao limite;
  2. Retomada do papel parental: a família aprende a sair da passividade e a oferecer o “contorno” — o limite que protege e dá segurança, permitindo que o adolescente saiba que existe alguém cuidando do que ele acessa;
  3. Humanização: adolescente participa de processos onde é confrontado com a humanidade das pessoas ou seres que ele atacava virtualmente, quebrando a fantasia do “mártir digital”;
  4. Investimento no real: o foco migra da destruição virtual para a construção real através de habilidades esportivas, artísticas ou comunitárias.

A educadora Sheylli Caleffi ressalta que “O jovem precisa de experiências que o tirem da bolha digital e tragam a sensação de que ele importa aqui fora”, portanto, a desradicalização envolve oferecer um novo pertencimento.

Sheylli Caleffi – Educadora e palestrante

Para o filho de Mariana, a retomada passou por um projeto de música e pelo olhar atento de educadores que deixaram de rotulá-lo como “o caso perdido”. A experiência corporificada — o suor do esporte, o ensaio de uma banda, o trabalho coletivo — gera conexões que o online não consegue replicar.
Superar a radicalização exige comunidades que não deixem seus jovens sozinhos diante das telas. Como ensinam as famílias que atravessaram esse processo: independentemente da gravidade, a resposta será sempre a construção de vínculos. É o único antídoto real para o isolamento que adoece.

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