Diferença às vezes pode ser ‘sutil’ e estar em um olhar, expressão ou toque que faz a mulher não se sentir bem cuidada, diz a médica Thais Travassos
O racismo faz da gestação e do parto uma experiência desigual às mulheres negras. Elas têm mais chance de passar por um pré-natal inadequado e receber procedimentos para aliviar a dor com menos frequência do que as brancas.
Mulheres negras no Brasil enfrentam mais barreiras no acesso à assistência obstétrica. Segundo a pesquisa “Nascer no Brasil” conduzida pela Fiocruz, elas têm 62% mais chance de passar por um pré-natal inadequado e 67% mais possibilidade de ficar sem acompanhante durante o parto do que mulheres brancas. Também recebem com menor frequência procedimentos para aliviar a dor, uma desigualdade que expõe os efeitos do racismo na assistência à saúde e de crenças discriminatórias, como o mito de que mulheres negras toleram mais a dor.
Essa realidade também influencia a escolha das mulheres sobre quem irá acompanhá-las durante a gestação e o parto. A ginecologista e obstetra Thais Travassos atende em consultório privado e conta que muitas mulheres negras a procuram especificamente por ela ser uma médica negra, buscando uma assistência respeitosa e impulsionadas pelo medo de sofrerem racismo obstétrico.

“Eu mesma muitas vezes não sou entendida como médica porque não tenho as características do que as pessoas esperam de ser uma médica. Já tive um colega que pediu para eu montar a sala para ele, deduzindo que eu fosse a técnica de enfermagem do plantão”, conta Thais.
A doula Karolayne Fernandhes diz sentir diferença no tratamento oferecido pelos profissionais de saúde às mulheres brancas e às mulheres pretas. “Infelizmente, em muitas maternidades, sejam públicas ou privadas, as pretas enfrentam situações de descaso e recebem níveis diferentes de atenção. A maneira de falar, o tom de voz, a escuta e a importância dada às suas queixas também podem mudar de acordo com a cor da pele.”

Ela conta que alguns dos comportamentos racistas que já presenciou no centro obstétrico brasileiro envolvem os cabelos afro, as tranças e os apliques. “Dependendo do penteado, algumas mulheres são orientadas a retirá-los sob a justificativa de que podem causar complicações, mesmo que não haja evidências científicas.”
O primeiro passo para mudança é admitir a existência do racismo, já que para Thais Travassos, muitas pessoas, inclusive que ocupam lugares de privilégio, ainda têm dificuldade de identificá-lo. “Às vezes é difícil expressar o que ele é porque pode ser um olhar, uma palavra, um toque, uma expressão. Demanda uma percepção que nem sempre é possível designar. Mas a pessoa consegue sentir que ela não é bem cuidada, bem vista ou bem quista naquele ambiente. Tem algo ali que está errado”, afirma a médica.
A consultora executiva de diversidade e inclusão Monique dos Anjos, de 45 anos, vivenciou essa realidade. Mãe de três crianças, ela teve os dois primeiros filhos de parto normal, em uma experiência acolhedora, no Panamá, país onde morava na época. Em 2020, de volta ao Brasil, durante a gestação da terceira filha, em Campinas, no interior de São Paulo, Monique procurou uma ginecologista e obstetra conhecida nas redes sociais para acompanhá-la no parto.

Fragilizada emocionalmente por conta da gravidez, ela relata que, desde as primeiras consultas, a médica fazia comentários sobre suas roupas e sua aparência, orientando-a a se vestir melhor para chegar ao hospital. Em outro momento disse que precisaria anestesiar Monique “por que com esse tamanhão vai bater em mim na hora do parto.” No final da gestação, quando Monique estava com 35 semanas – a partir da 38º o bebê não é mais considerado prematuro e já pode nascer com segurança -, a médica disse que iria viajar e que indicaria outra profissional caso ela desse à luz neste período em que estivesse fora.
“Estava em busca de uma referência para um parto humanizado, como foram os outros dois primeiros. Mas a médica falava do meu cabelo, das minhas roupas e não imaginava essa conversa com outras pacientes”, conta Monique. “Duas semanas antes do nascimento da minha filha, procurei outra médica que me acolheu para um parto normal que foi extraordinário”, complementa.
Monique, uma mulher negra de pele retinta, diz que sua consciência racial foi desenvolvida a partir de muito estudo. Mas que nem sempre foi assim, muitas situações de racismo que viveu acabou internalizando como se fosse uma “culpa sua.” “Não é um processo inerente a nós.” Ela acredita que na sociedade, mas especialmente na área médica, ainda persiste o estigma da mulher negra guerreira, imune à dor e ao cansaço. Embora abalada, ela não brigou ou discutiu com a primeira médica que a atendeu, muito menos cogitou alguma providência legal.
“Mulheres negras identificam o racismo, mas se posicionar é outra coisa. Como conseguimos fazer isso se há impunidade o tempo todo? Por mais que o racismo apareça na forma de um termo sutil ou velado, muitas vezes ele é brutal”, diz Monique. “Não dei um sermão na médica porque isso não traria minha paz de volta, mas queria ter sido tratada como como uma cidadã, com respeito, civilidade e empatia”, finaliza.