Em meio a preços altos e anúncios por todos os lados, a pedagoga e contadora de histórias Tatiane Santos mostra como transformar encontros simples em presentes
No Dia das Crianças, presentear não precisa significar comprar brinquedos. Passeios, brincadeiras, leitura e contação de histórias são alternativas para fortalecer vínculos e criar memórias afetivas em família, valorizando o tempo compartilhado e o consumo consciente.
Outubro chega e o calendário das famílias ganha uma tarefa a mais. Lojas de brinquedos, shoppings e vitrines virtuais disputam a atenção de quem quer presentear uma criança nesse mês. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou que a data movimentaria R$ 9,27 bilhões no varejo em 2026, com brinquedos e outros artigos de uso pessoal à frente das vendas.
A conta, porém, pesa no orçamento. Segundo a CNC, os produtos e serviços ligados ao Dia das Crianças ficaram 6,7% mais caros em relação a 2025, num momento em que 82% das famílias brasileiras estão endividadas, maior patamar da série iniciada em 2010. Os anúncios, por sua vez, alcançam meninos e meninas nas telas que fazem parte da rotina. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostra que 84% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos viram divulgação de produtos na internet. De acordo com os responsáveis, 51% pediram algum produto depois de ver um anúncio on-line.
Diante desse cenário, algumas famílias não conseguem comprar o presente pedido, apesar do bombardeio de propaganda. Outras questionam se a sequência de compras faz bem aos filhos. Para umas e outras, ampliar a ideia de presente abre caminhos que não passam pelo caixa, como leituras, passeios e momentos em família.
A pedagoga Tatiane Santos, a Pretinha Educadora, acompanha de perto o que as crianças valorizam. Especialista em Educação e Relações Étnico-Raciais, coordenadora pedagógica da Rede Municipal de Ensino de São Paulo e contadora de histórias, ela percebe que meninos e meninas dão à presença dos adultos um valor maior do que se costuma imaginar. “Muitas vezes estamos ao lado da criança, mas com a cabeça no celular, no trabalho, nas tarefas do dia. E ela percebe quando estamos disponíveis de verdade.”
Nas rodas de leitura, essa disponibilidade aparece nas perguntas, nas interrupções e na curiosidade sobre o destino de cada personagem. “Quando contamos uma história, oferecemos à criança a nossa atenção, e isso comunica amor, pertencimento e segurança. Nem sempre teremos horas livres, mas alguns minutos de presença verdadeira podem se transformar em uma memória que acompanha a criança pela vida toda”, afirma.
Ampliar o conceito de presente dispensa a guerra contra os brinquedos. “O brinquedo também traz alegria, criatividade e momentos importantes. Não precisamos colocar brinquedo e experiência em lados opostos. O que podemos fazer é ampliar o que entendemos por presentear e mostrar que o afeto não depende do preço de alguma coisa”, diz Tatiane.
Segundo a educadora, o desejo de ganhar algo da loja merece acolhimento, e não bronca. “Vivemos em uma sociedade que associa consumo à felicidade, e as crianças também são atravessadas por essa cultura. Elas não devem se sentir culpadas por querer um brinquedo. Cabe a nós apresentar outras possibilidades.”
O Código de Defesa do Consumidor considera abusiva a publicidade que se aproveita da falta de julgamento e de experiência da criança.
A Resolução 163, de 2014, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), detalha essa regra e classifica como abusiva a comunicação comercial dirigida ao público infantil, com recursos como personagens, músicas infantis, brindes e linguagem pensada para crianças.
Famílias que identificarem anúncios desse tipo podem registrar reclamação no Procon do seu estado.
Para Tatiane, a leitura compartilhada aproxima o mundo da criança e o do adulto e cria espaço para falar de sentimentos difíceis de nomear. “Às vezes a criança não consegue dizer que está com medo, com saudade ou passando por alguma dificuldade. Quando se identifica com um personagem, ela encontra um jeito de falar sobre isso. Muitas vezes, a conversa mais importante começa depois da última página.”
A escolha dos livros também pesa nesse encontro. Como educadora antirracista, Tatiane defende obras que apresentem diferentes identidades, culturas e famílias. “Quando uma criança negra se reconhece de forma positiva em uma personagem, isso fortalece a identidade dela e o sentimento de pertencimento. E as outras crianças, ao conhecerem realidades diferentes, ampliam o repertório e aprendem a respeitar a diversidade.”
Antes das dicas, a educadora faz um alerta para que a ideia não pese ainda mais sobre quem já vive com o orçamento apertado. “Uma família não precisa ter muito dinheiro para oferecer experiências significativas. Precisamos tomar cuidado para não transformar isso em mais uma cobrança sobre famílias que já enfrentam tantas dificuldades.”
1. Deixe a criança escolher. Tatiane sugere uma pergunta simples: “Se você pudesse escolher um momento especial para vivermos juntos, o que gostaria de fazer?”. A resposta pode ser esconde-esconde, uma brincadeira inventada ou apenas uma conversa sem pressa.
2. Entregue a experiência como presente. Um convite desenhado à mão, uma data marcada no calendário da cozinha e uma contagem regressiva ajudam a criança a perceber o passeio ou a tarde juntos como algo que ela ganhou.
3. Aproveite o que já existe em casa. Um piquenique com a comida da despensa, uma receita feita a quatro mãos, uma noite olhando as estrelas ou uma tarde de desenho e de músicas da família cabem em qualquer rotina.
4. Saia para a praça ou para a biblioteca. Espaços públicos e gratuitos, como praças, parques e bibliotecas, oferecem passeios que a criança pode ajudar a planejar.
5. Conte uma história, mesmo sem prática. “Não precisa ter voz de personagem, fazer teatro nem decorar texto. A criança não espera uma apresentação perfeita, ela quer dividir aquele momento com você”, diz Tatiane. Uma ida à padaria pode render uma aventura, e uma meia perdida pode protagonizar a narrativa da noite.
6. Chame a família para a roda. Avós, tios e outros parentes guardam lembranças de infância e saberes que fortalecem os vínculos entre gerações e ampliam a rede de apoio da criança.
7. Releia o livro favorito. Se a criança pedir a mesma história pela décima vez, vale observar as ilustrações, imaginar o que os personagens pensam e inventar novos finais juntos. As interrupções, segundo a educadora, fazem parte da leitura.
Tatiane lembra que o tempo das famílias divide espaço com o trabalho, o cansaço e as responsabilidades do dia a dia, e que nenhuma dessas ideias exige programação elaborada. “O significado está na chance de a criança participar das escolhas e sentir que foi ouvida”, resume. Para ela, o presente mais duradouro talvez seja outro: “A criança crescer sabendo que alguém dedicou tempo a ela, ouviu suas perguntas, acolheu suas ideias e construiu memórias ao seu lado.”