O que muda quando a escola investe em bem-estar?

Experiências mostram que promover saúde mental vai além do psicólogo, envolvendo cuidado, pertencimento e novas formas de aprender.

Camila Publicado em 14.08.2026 Atualizado em 14.08.2026
Imagem para capa de matéria sobre saúde mental nas escolas mostra uma menina negra, de moleton amarelo, sentada em uma carteira em uma sala de aula

Resumo

Escolas que colocam o bem-estar no centro mostram que promover saúde mental vai além do atendimento psicológico. Pertencimento, formação de professores e mudanças na cultura escolar ajudam crianças e adolescentes a aprender com mais segurança e autonomia.

Após mais de um ano afastado por dificuldades de relacionamento, Samuel, aos 14 anos, retornou à sala de aula, no Campus de Educação Pública Transformadora (CEPT) Professora Zilca Lopes da Fontoura, em Maricá, Rio de Janeiro. Em vez de repetir o modelo de advertências e cobranças por desempenho, a escola organizou uma rede de apoio para a sua readaptação. A postura passaria a ser outra: ouvir antes de punir.

“Percebemos que o estudante aprende muito mais quando se sente seguro, acolhido e pertencente à escola”, afirma a diretora geral, Karina Moraes.

Por isso, ainda que Samuel precisasse de mediação em algumas situações de convivência, ele passou a ter uma série de profissionais, incluindo psicólogos, dispostos a escutá-lo. Como resultado desse processo, o adolescente conseguiu construir relações mais saudáveis com colegas e professores.

“Hoje entendemos que comportamento é comunicação. Antes de enxergar um problema, buscamos compreender o que aquele aluno está tentando nos dizer”, relata Karina.

Diversas pesquisas e políticas públicas já mostram que investir em uma educação integral, que considera o estudante em suas dimensões intelectual, física, emocional, social e cultural, faz diferença na vida de crianças e adolescentes. Um levantamento realizado pelo Instituto Natura com egressos do Ensino Médio Integral (EMI) em Pernambuco mostra que para cada R$ 1 investido nessa proposta, R$ 3,49 retornam para a população local. Entre os benefícios mensurados está o aumento médio de R$ 172 na renda mensal e o crescimento de três pontos percentuais na taxa de empregabilidade.

Gisele Alves, psicóloga e gerente-executiva do eduLab21, laboratório de pesquisa em educação do Instituto Ayrton Senna, explica que o clima escolar é um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento integral dos estudantes. “Quando os estudantes se sentem pertencentes à escola e contam com recursos socioemocionais para lidar com dificuldades, eles tendem a apresentar melhores condições para aprender, participar das aulas e persistir diante dos desafios acadêmicos”, avalia.

De acordo com o estudo Avaliação do Futuro 2025, um estudo realizado pelo Instituto com cerca de 89 mil estudantes do Ensino Médio, em cinco estados do Brasil, ao qual o Lunetas teve acesso, o desenvolvimento de competências como engajamento com os outros e resiliência está diretamente relacionado ao desempenho em disciplinas como língua portuguesa e matemática. Nessa avaliação, estudantes com maiores níveis de autogestão, que é a capacidade de planejar, persistir e lidar com desafios, também apresentaram notas superiores e vínculos mais significativos com seus pares e adultos da escola. “Aprendizagem de qualidade e promoção do bem-estar caminham juntas”, resume Alves.

Ao mesmo tempo, os resultados do estudo evidenciaram um desafio importante para a promoção do pertencimento escolar: “Em algumas redes, quase metade dos estudantes relatou sentir-se pouco ou nada conectada aos seus professores”, acrescenta Alves. Outro mapeamento da organização, em parceria com a Secretaria de Educação de São Paulo (Seduc-SP), com mais de 40 mil docentes, apontou que eles próprios demandam apoio, especialmente para lidar com a regulação emocional.

Quem cuida de quem cuida?

Não é possível cobrar dos professores que ensinem algo que eles nunca aprenderam. Também não é justo esperar que promovam ambientes seguros se eles próprios não se sentem acolhidos. Essa é a opinião de Eduardo Pacífico, diretor da organização Gaia+, principal responsável por adaptar ao Brasil o programa SEE Learning, desenvolvido pela Universidade Emory, nos Estados Unidos. Renomeada Aprendizagem para Corações e Mentes, a iniciativa já formou gratuitamente mais de 5.000 professores da rede pública e de ONGs em competências como atenção, autorregulação, compaixão e segurança psicológica.

Homem de costas para a câmera fala para um grupo de adultos sentados em círculo em uma sala. Os participantes observam o palestrante, alguns com cadernos nas mãos.
Eduardo Pacífico explica a importância de criar um ambiente escolar seguro, onde estudantes possam aprender, errar e se sentir acolhidos.

“Enquanto professores, apoiamos as crianças no nível biológico, das sensações, oferecendo estratégias para que elas voltem a se sentir melhor”, diz Pacífico.

Mas para isso, ele afirma que o primeiro passo é os próprios professores vivenciarem essas práticas. E, segundo um relatório do programa, publicado pela Gaia+ a partir de uma autoavaliação dos participantes, mais de 90% dos participantes relatam que a formação os ajudou a lidar melhor com emoções difíceis e a desenvolver mais autocompaixão e compaixão pelos outros. Depois disso, “mostramos como eles podem levar esses aprendizados para a sala de aula e acolher os estudantes, criando esses espaços seguros”.

Auditório amplo e lotado, com centenas de pessoas sentadas em fileiras de cadeiras. Um homem de camiseta azul segura um microfone no centro do espaço, diante do público.
Bem-estar e cuidado também podem ser ensinados. Perguntas simples ajudam crianças a reconhecer estratégias para se sentirem melhor e, com o tempo, a usá-las de forma autônoma.

Essa também é uma percepção que chegou à rede de Maricá. Além do trabalho com os estudantes, o CEPT Professora Zilca Lopes da Fontoura passou a organizar momentos específicos de acolhimento para os profissionais. “Um professor sobrecarregado dificilmente consegue acolher um estudante da forma que ele precisa. Cuidar da equipe também é cuidar dos alunos”, diz a diretora Karina Moraes.

Ângela Soligo, docente sênior da Faculdade de Educação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e vice-presidente da ABEP (Associação Brasileira de Ensino de Psicologia), lembra que essa discussão vai muito além de práticas individuais de autocuidado. Envolve a garantia de um plano de carreira, salários, condições de trabalho, número de estudantes por turma e reconhecimento social da profissão. “Eu ouço muito a pergunta: quem cuida de quem cuida?”, reflete a professora.

Também não se trata de transformar professores em terapeutas, já que sua tarefa é educar, pondera Soligo. “Mas educar inclui reconhecer que uma criança que sofre racismo vive sob pressão constante, não se sente pertencente ou tem medo de errar pode estar fisicamente presente e, ainda assim, indisponível para aprender”, conclui.

Aprender sem medo

Ao contrário de exigências como alto desempenho em provas, controle de tarefas e uma agenda lotada de atividades extracurriculares que sobrecarregam o estudante, o espaço Ekoa, escola que organiza o currículo em torno da educação integral, no Butantã, em São Paulo, propôs um outro projeto para o cotidiano escolar. A instituição substituiu o conceito tradicional da ‘’lição de casa” por ações que dialogam melhor com a rotina da família, ressignificou as avaliações e criou a figura do professor-tutor, responsável por acompanhar a aprendizagem, funcionando como uma referência de escuta para crianças e adolescentes.

Para a assessora de práticas inclusivas da escola, Maria da Paz Castro, reforçar regras e cobranças pode significar colocar toda a responsabilidade sobre a criança, sem questionar o ambiente em que ela aprende.

A avaliação do Instituto Ayrton Senna com estudantes do Ensino Médio apontou que 8 em cada 10 estudantes brasileiros relatam um ou mais sintomas de ansiedade e depressão em nível alto. Entre os mais frequentes estão sentir-se esgotado ou sob pressão (38,9%), perder o sono por preocupação (33,9%) e sentir-se incapaz de superar dificuldades (22%).

E a neurociência ajuda a explicar por quê. Segundo o neuropediatra Antônio Carlos de Faria, do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, Paraná, apesar de o estresse ser uma resposta natural do organismo aos desafios, ele passa a ser um problema quando deixa de ser passageiro e se instala. Longas jornadas sem descanso, sono insuficiente, bullying persistente, excesso de telas e pressão constante por resultados mantêm o cérebro em estado de alerta. Nesse cenário, de acordo com Faria, a criança não deixa de aprender porque “não se esforçou”, mas porque parte de seus recursos está ocupada tentando responder à ameaça.

“Uma rotina escolar inadequada pode contribuir para o estresse crônico, prejudicando aprendizagem, memória, atenção e autorregulação”, afirma o médico.

Por outro lado, ele também pondera que vínculos seguros, previsibilidade, pausas, atividade física, brincar e relações de confiança favorecem o desenvolvimento cerebral e ampliam as condições para aprender. A pergunta, então, deixa de ser apenas “como melhorar o desempenho?” e passa a incluir “que tipo de ambiente estamos oferecendo para que esse desempenho seja possível?”

Crianças sentadas em círculo em um espaço externo arborizado, durante uma atividade ao ar livre. Algumas estão sentadas em brinquedos de metal, enquanto outras acompanham a atividade no chão. Ao fundo, há árvores, bancos, brinquedos e o prédio da escola.
Os espaços verdes, o brincar e o contato cotidiano com a natureza também fazem parte da proposta do espaço ekoa para promover a saúde mental na escola. Por isso, crianças e adolescentes têm, em boa parte do tempo, a oportunidade de aprender e conviver em espaços ao ar livre.

É por isso que Maria da Paz repensa o conceito de “bom aluno”, em prol do “bem do aluno”, já que o “desempenho escolar nos mostra poucos sobre eles”, diz. Na prática, ela orienta avaliar mais do que a capacidade de memorizar conteúdo ou responder a uma prova padronizada, passando a considerar o percurso, a participação, as diferentes maneiras de aprender, a convivência e a construção da autonomia da criança. Para ela, a escola não pode controlar tudo o que acontece na vida dos estudantes, mas pode decidir se as práticas institucionais irão produzir medo, comparação e silêncio ou segurança, pertencimento e participação.

Crianças e adultos participam de uma atividade ao ar livre no jardim de uma escola. As crianças estão sentadas sobre tecidos coloridos no gramado, enquanto adultos acompanham a atividade.
“O sentimento de não pertencimento é uma das causas do sofrimento. Só se aprende a respeitar sendo respeitado”, afirma a assessora. Por isso, o espaço ekoa adota protocolos contra racismo e bullying, além de uma gestão mais democrática e participativa.

O papel do psicólogo

Sancionada em dezembro de 2019, a Lei nº 13.935 deu às redes públicas de educação básica um ano para oferecer serviços de psicologia e serviço social. O prazo venceu em dezembro de 2020, mas, mais de cinco anos depois, a política ainda está longe de ser universalizada. Em levantamento realizado pela Undime em 2024, 2.469 municípios (44% do total do país) responderam sobre a implementação da lei. Entre eles, 1.770 (72%) afirmaram ter iniciado o processo. Onde psicólogos e assistentes sociais já atuavam, metade estava vinculada às secretarias de Educação por contratos temporários e 43,5% haviam ingressado por concurso público.

Para Ângela Soligo, a pandemia retardou os primeiros anos de implementação, mas não explica sozinha a demora. “Ainda faltam muitos estados e municípios para implantar efetivamente a lei”, diz ela, e o desafio não termina com a contratação. “O trabalho do psicólogo escolar é com as relações, com os processos de ensino e aprendizagem, com a convivência, com o enfrentamento da violência e dos preconceitos”, explica.

Isso significa que o psicólogo escolar não substitui o atendimento clínico quando ele é necessário. De acordo com a psicologia escolar, sua atuação está voltada à comunidade escolar e pode ajudar a compreender por que determinados conflitos, fracassos e sofrimentos se repetem e quais mudanças institucionais podem preveni-los. “Os psicólogos participam das discussões de casos, rodas de conversa, orientam professores, conversam com as famílias, ajudam na construção de estratégias para inclusão e prevenção e fortalecem toda a rede de proteção da criança e do adolescente. É um trabalho coletivo”, exemplifica Karina Moraes.

Foi assim com Samuel, no CEPT Zilca Lopes da Fontoura. Em vez de esperar que o psicólogo resolvesse individualmente as dificuldades do adolescente, a escola mobilizou direção, orientação educacional e equipe multidisciplinar para reconstruir vínculos e criar condições para seu retorno às aulas. A experiência traduz uma premissa defendida por Soligo: “Nem o sujeito é entendido isolado da escola, nem a escola é entendida isolada da sociedade”.

A docente da Unicamp avalia que a consolidação dessa política ainda enfrenta obstáculos como falta de orçamento próprio, alta rotatividade de profissionais e pouca articulação entre educação, saúde e assistência social. E que, no fundo, ampliar essas equipes pode significar incorporar o acolhimento à própria maneira de educar. Como resume Maria da Paz Castro, do Espaço Ekoa: “Cuidar das crianças não é algo separado da educação, é a própria essência”.

Comunicar erro
Comentários 1 Comentários Mostrar comentários
REPORTAGENS RELACIONADAS