Minuto Lunetas: quando a infância não vê rio nem estrelas

Sem contato com a natureza, o repertório simbólico das crianças se estreita. A ativista indígena Márcia Kambeba reflete sobre imaginação, território e bem-viver

Fernanda Martinez Publicado em 02.02.2026

Resumo

Crescer longe de rios e céus estrelados pode influenciar a forma como crianças imaginam e se relacionam com o mundo. Márcia Kambeba reflete sobre a importância da conexão com a natureza.

Se uma criança fecha os olhos e é convidada a criar um mundo ideal, com imaginação, o que aparece primeiro? Natureza e um rio onde dá para ouvir histórias? Um céu que deixa as estrelas desenharem bichos? Ou apenas prédios, fios, muros e ruas que nunca dormem?

A imaginação infantil nasce do que se vê, do que se sente e, principalmente, do que se vive. Por isso, o Minuto Lunetas deste mês investiga o que acontece quando crianças crescem sem rio limpo e céu estrelado. 

Como se constrói a imaginação das crianças que nunca viram a natureza nas suas cidades? Quem nos ajuda a pensar sobre isso é a educadora e escritora Márcia Kambeba, ativista indígena do povo Omágua/Kambeba. Veja a resposta completa no vídeo acima.

Histórias que habitam a infância

Márcia exalta a relação profunda entre imaginação e natureza. Sua ausência pode enfraquecer o repertório imaginativo e a forma como a criança aprende a se relacionar com o mundo.

Para os povos indígenas, o rio nunca foi apenas um recurso natural ou um amontoado de águas. Ele é um ancião, um tataravô que guarda histórias e transmite saberes.

“Desde cedo, as crianças são levadas ao rio não só para nadar, mas para ouvi-lo. Enquanto pescam, se conectam com as águas”, relata a ativista. “Isso fortalece o imaginário e a formação como pessoa.”

Saberes que brilham no escuro

O mesmo acontece quando se olha para o céu. Márcia explica que as estrelas não formam apenas constelações, mas imagens carregadas de sentido. “Animais que permanecem em outro plano, mas cuja energia continua presente.”

“A gente consegue olhar para o céu e identificar não só o amontoado de estrelas, mas os animais que são formados a partir delas”, diz. Esse modo de ver amplia a imaginação e conecta as crianças a saberes ancestrais que falam de território, pertencimento e bem-viver.

Segundo a ativista, esse conhecimento precisa estar disponível a todas as crianças, inclusive às que crescem longe da floresta, do rio ou do mar.

A literatura indígena infantojuvenil é um dos caminhos para apresentar esses outros modos de ver o mundo, onde a natureza não é cenário, mas relação. Imaginar não é fugir da realidade, mas aprender a habitá-la de forma mais inteira.

Conheça alguns dos livros infantis escritos por Márcia Kambeba:

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“O curumim e o rio”, Márcia Kambeba e Rita Carelli (Espia Livros)

Por meio da história do curumim Wiratinga e de como ele vive na sua aldeia, o livro mostra a importância do rio para os povos indígenas de maneira lúdica e sensível.

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“O povo Kambeba e a gota d’água”, Márcia Kambeba e Cris Eich (Edebê Brasil)

A obra conta a visão do povo Omágua/Kambeba sobre sua origem. Eles acreditam ter nascido de uma gota de água, o que é motivo de alegria e honra para os que vivem na aldeia e na cidade.

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“Infância na Aldeia”, Márcia Kambeba e Cris Eich (Ciranda na Escola)

O livro mostra como as crianças se relacionam com a natureza: com respeito e cooperação. É um convite a conhecer e refletir sobre a beleza da diversidade e a importância de preservar as tradições que moldam a vida de cada povo. 

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