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‘Ter filhos, estando na universidade, te faz uma errante na vida’

Com políticas públicas insuficientes, grupos de acolhimento têm sido essenciais para o suporte de mães na universidade.
Mães na universidade Tuyuka Lara - Fotografia
  • Publicado em: 30.10.2017
  • Atualização: 24.05.2018
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Trabalhar fora de casa, trabalhar na manutenção da casa, estudar e cuidar de uma ou mais crianças. Se por um lado essa equação pode refletir a imagem admirada pela sociedade de uma super-mulher, o dia a dia mostra que, na realidade, esse fardo disfarçado de elogio só traz mesmo “super-cansaço” e um acúmulo de jornadas de trabalho.

“Sempre digo que dá para fazer até duas coisas direito. As quatro juntas são impossíveis, pois acontecem com baixíssima qualidade”, confessa Naiara Gomes*, de 33 anos, sobre sua rotina diária. Ela é mãe de uma menina de seis anos e estudante de pedagogia, na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A aluna, que depende de uma bolsa universitária de R$ 400, além dos trabalhos como freelancer, já abandonou o curso uma vez e, após prestar um novo vestibular, está tendo dificuldades para se formar. Seu marido, de 34 anos, está concluindo o mestrado e é servidor na mesma instituição.

Sem creche pública na UFPR e com a maior parte da demanda em relação à filha em sua responsabilidade, o que resta à Naiara é, frequentemente, levar a criança para as aulas. “Não é humano eu levar um bichinho e pedir que ela fique quieta no chão brincando”, desabafa.

“Vivemos um momento de invisibilização do fenômeno de ser mãe no ensino-superior. Quando há pesquisas que abordam o tema da evasão universitária, não se faz o recorte de gênero”.

Tuyuka Lara - Fotografia

Fotografia do projeto Mães Ruralinas: A Luta pela permanência na Universidade.

A Lei 6.202, de 1975, regulamenta o regime domiciliar para estudantes, garantindo um afastamento de três meses, a partir do oitavo mês de gravidez. O período de afastamento, no entanto, é determinado por atestado médico, apresentado à direção da escola. A licença-maternidade também não garante, por exemplo, abono de faltas.

“Super-mãe” é um mito

A batalha diária pelo cumprimento das inúmeras tarefas se soma ao constrangimento e às demais lacunas deixadas pela gestão pública e privada. Naiara conta que outras mães, também do curso de pedagogia, têm sido vítimas de bullying em sala de aula.

“A sociedade não está preparada para aceitar crianças em ambiente de adultos. E ter filhos, estando na universidade, te faz um caso à parte, uma errante na vida, dentro dessa composição linear que acham que a vida tem que ter”, declara.

Para Naiara, que conta apenas com o Espaço da Criança, uma sala de recreação oferecida pela universidade, outros serviços podem fazer a diferença para mães e estudantes, como um espaço noturno com cuidadores da própria instituição ou para as estudantes da pedagogia estagiarem.

“As mães deveriam ter apoio psicológico para poder enfrentar a situação, considerando que a escolha por estudar está diretamente ligada a uma mudança de perspectiva de vida, de carreira e de melhor renda financeira”, defende.

Apesar da escolaridade das mulheres ser mais alta, a jornada também é. De acordo com o estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), as mulheres trabalham, em média, 46,1 horas por semana, incluindo trabalho remunerado e não remunerado. São aproximadamente 7,5 horas a mais que os homens no mesmo período.

Demandas invisíveis

“Vivemos um momento de invisibilização do fenômeno de ser mãe no ensino-superior. Quando há pesquisas que abordam o tema da evasão universitária, não se faz o recorte de gênero”, afirma a advogada especializada em casos de família e doutoranda pela UFPR, Andressa Regina Bissolotti dos Santos.

Entre eles, a advogada aponta a situação de alunas que dependem das casas estudantis, onde não há espaço para mães ou que proíbem, em seu estatuto, a vivência dos filhos durante o período de residência de mães e pais no local.

De acordo com ela, que atualmente propõe um projeto de Iniciação Científica para estudar maternidade e direito à educação no ensino superior, a partir do caso da UFPR, muitas barreiras afastam as mães da universidade. “A vida acadêmica é extremamente acirrada, pensada para padrões masculinos, pessoas que estão concentradas na própria carreira”, diz.

Desde maio de 2017, uma portaria do Ministério da Educação garantiu o direito à amamentação nas escolas, universidades e outras instituições federais de ensino, mesmo se não houver equipamentos ou ambientes exclusivos para esse fim.

Problema social

As dificuldades enfrentadas no contexto da universidade só reforçam um problema social mais amplo. Uma pesquisa do Instituto Unibanco revelou que a gravidez é um dos principais fatores de evasão escolar de meninas no Brasil. Os dados de 2016 apontam que apenas 2% das adolescentes que engravidaram deram sequência aos estudos.

Das 414.105 meninas de 15 a 17 anos com pelo menos um filho, 309.374 estão fora da escola. Dentro desta faixa etária, as mães adolescentes que não trabalham nem estudam apresentam os piores índices de escolaridade, com menos perspectiva de ascensão social. [FONTE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)]

“Ou seja, essas mulheres têm chances muito pequenas de chegar à universidade. Se conseguirem completar um supletivo, passar pelo vestibular e ter acesso às cotas, terão o problema de onde deixar seus filhos”, avalia Andressa Bissolotti.

No Paraná, por exemplo, a população estimada de crianças entre 0 e 3 anos é de 594.923. Deste número, apenas 167.686 estão matriculadas em creches. O déficit é de 71,81%, de acordo com o levantamento do Ministério Público do Paraná, de 2013.

Além disso, existe uma sobreposição de desigualdades, se agravando a partir do recorte territorial e de cor. “As mulheres da classe-média, brancas, tendem a ter filhos mais tarde, pensando em estar bem colocadas no mercado de trabalho. Para as mulheres de classes mais baixas que têm filhos e que não podem pagar uma babá, por exemplo, como fica?”, questiona a advogada.

Na cidade de São Paulo, uma pesquisa divulgada pela Rede Nossa São Paulo, mostra que as mulheres negras, menos favorecidas, vivem nas regiões periféricas da cidade e sem acesso aos principais serviços públicos. Na adolescência, a incidência de gravidez de mulheres negras é três vezes superior a da gravidez de mulheres brancas.

Na adolescência, a incidência de gravidez de mulheres negras é três vezes superior a da gravidez de mulheres brancas.

Auto-organização

Apesar de algumas leis tratarem do tema e parte do auxílio estar prevista nos regimentos internos de cada universidade ou instituição de ensino, muito do suporte encontrado pelas estudantes que são mães está na auto-organização. É nesse contexto que surge a rede de apoio Mães no ENEM, de São Paulo.

Para Fernanda Vicente, mãe e fundadora do coletivo, a sociedade romantiza a maternidade.

“Só que depois que se tem um bebê, não há políticas públicas ou espaços de acolhimentos para as mulheres”

O projeto, com mais de um ano, oferece aulas de redação online para as mães que não têm condições de pagar um cursinho pré-vestibular.

Após o Mães no ENEM, Fernanda e outras mulheres, iniciaram o Mães na Universidade. O grupo conta com voluntárias e envolve todo o tipo de ajuda: da carona solidária até formatar um trabalho da faculdade ou cuidar de alguma criança. Durante todo o ano, também disponibiliza apoio psicológico gratuito. São cerca de 10 a 15 mulheres atendidas todo o mês.

“Uma mãe que não consegue frequentar uma escola, concluir o ensino médio ou a graduação acaba sendo segregada de importantes espaços sociais e tendo alguns direitos negados”. Ela reforça que é essencial debater o espaço das mulheres negras, quilombolas, ribeirinhas, sem teto, indígenas, ou com alguma necessidade específica, que têm ainda mais dificuldade de acesso à educação.

A plataforma Cientista que Virou Mãe é espaço em que mulheres escrevem sobre sua experiências, demandas e são remuneradas por meio do financiamento de leitores.

O Coletivo de Pais e Mães (Copama) da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)  surgiu no ano de 2014, logo após surgir a notícia da possível expulsão das mães universitárias dos alojamentos. Desde então, o coletivo reivindica o direito à permanência estudantil para discentes pais e mães na UFRRJ. Graças a articulação do coletivo, hoje as mães podem continuar nos alojamentos.

“O perfil cada vez mais frequente de mulher, universitária e mãe na UFRRJ demanda uma construção de política de permanência estudantil para permitir o acesso pleno ao ensino. Infelizmente muitas mães ruralinas não encontram o suporte necessário para continuar na universidade”.

Uma das estratégias criadas pelo Copama é o revezamento de cuidados das crianças que não estão na creche municipal para que as mães universitárias possam assistir às aulas sem precisar levar seu/sua filho(a) à sala de aula. A creche parental provisória é uma estratégia criadas por mães do COPAMA para que elas possam estudar, fazendo o rodízio para cuidado dos pequenos no quarto de uma das mães.

Foi olhando para todas essas questões que surgiu o projeto fotográfico “Mães ruralinas: a luta pela permanência na universidade, criado pela estudante Graziele Balieiro e pelo fotógrafo Tuyuka Lara com a finalidade de apresentar à comunidade acadêmica a rotina de luta diária dessas mulheres na UFRRJ. “É de extrema importância que sejam criadas políticas públicas específicas para que a mãe universitária possa ter acesso à educação, seja a universitária que engravidou ou a mulher mãe que ainda não teve a oportunidade de iniciar uma graduação. A construção de assistência estudantil e de creche universitária evitaria a evasão escolar e ampliaria o acesso ao ensino superior”, explica a Graziele.

*A estudante preferiu não ter o nome revelado para preservar sua convivência na universidade.

 

Resumo

“A sociedade não está preparada para aceitar crianças em ambiente de adultos. E ter filhos, estando na universidade uma errante na vida, dentro dessa composição linear que acham que a vida tem que ter”, declara Naiara Gomes, mãe e estudante da UFPR.
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