Desde que a médica Ana Murgel deixou o apartamento em São Paulo, no início deste ano, para morar em uma casa de um bairro rural de Botucatu, no interior, a rotina da filha Elena, de 5 anos, mudou radicalmente. Ela trocou as brincadeiras dentro da escola, nas áreas comuns do prédio e as idas esporádicas aos parques por um quintal com árvores, jardim, grama, tanque de areia e balanço sempre à disposição.
“Mudou muito a quantidade de sol que ela recebe por dia e o estímulo motor até para fazer alguma atividade que a natureza exige, como ultrapassar um obstáculo”, conta Ana. “Existe toda uma interação com o ambiente que não existia na nossa outra realidade, que era mais monótona.”
Inez, a irmã de Helena, de 1 ano, deu os primeiros passos na nova cidade e hoje até já anda descalça sobre as pedras. “Brincar fora de casa, andar de bicicleta, fazer caminhadas ao ar livre fazem parte da rotina diária delas”, conta a mãe.
O dia a dia de Elena e Inez é exceção se comparado ao das demais famílias brasileiras. Segundo o IELS (Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com crianças de 5 anos, a realização de atividades ao ar livre, como caminhadas, brincadeiras livres e outras opções de lazer importantes para o desenvolvimento infantil, é frequente para apenas 37% das famílias. A média dos outros países participantes do estudo é de 46%.
Entre as famílias brasileiras, 29% afirmam nunca realizar esse tipo de atividade ou fazê-la menos de 1 vez por semana. Outros 34% responderam que fazem isso somente entre 1 e 2 dias da semana.
Empobrecimento da infância
Para Ana Claudia Leite, gerente de Educação do Alana, o dado revela um “empobrecimento das experiências na infância.” Violência, sensação de insegurança e planejamentos urbanos que não priorizam a circulação de crianças e pedestres e, sim, a de carros, têm distanciado as famílias da convivência comunitária de seus territórios.
“As crianças diminuíram a sua relação com o espaço público e isso traz implicações para sua relação com a natureza, com a convivência comunitária e impacta tanto o pertencimento quanto sua maneira de brincar livremente”, diz Ana Claudia.
Ela reforça que o fato de as crianças estarem vivendo de forma mais “fechada” fazem com que percam a oportunidade de desenvolver sua criatividade, motricidade e habilidades socioemocionais, que são potencializadas pelo brincar livre na natureza.
Além disso, esse afastamento prejudica a criação de um vínculo afetivo com o meio ambiente, fundamental para o cuidado com a natureza e o enfrentamento de emergências climáticas.
‘Emparedamento digital’
O tempo excessivo em frente às telas, se tornou uma alternativa de entretenimento tanto para crianças quanto para famílias, substituindo o contato direto com a natureza e com o território.
Ana Claudia vê um “deslocamento” da relação intensa que a criança tinha brincando livremente na natureza, na rua e nas praças para um “emparedamento digital” por estarem muito mais tempo dentro de casa em frente à TV, ao computador ou ao celular.
O IELS também traz dados sobre o uso dos eletrônicos entre as crianças. Os responsáveis e cuidadores relataram que 50,4% delas utilizam dispositivos digitais em casa todos os dias. O estudo ainda relacionou, pela primeira vez, que o uso diário de tela está associado a níveis mais baixos de aprendizagem.
No quintal de Elena e Inez, a natureza ajuda a ocupar o lugar que muitas vezes seria das telas. Os pais, que desde cedo decidiram não oferecer dispositivos eletrônicos às filhas, dizem que o ambiente favorece a escolha. “É muito mais fácil porque tem muito mais possibilidade de brincadeira e estímulos da natureza e elas não se entendiam facilmente. Há mais espaço físico para criar as brincadeiras”, diz Ana.
O que pode ser feito?
Quem não tem o privilégio de desfrutar de um quintal próprio ou fazer uma mudança brusca de vida em busca de qualidade de vida pode apostar em caminhadas curtas para atividades do dia a dia, como ir à padaria, passear com o cachorro ou coletar sementes pelo bairro, como sugere Ana Claudia.
Entretanto, mais do que isso, é fundamental cobrar políticas públicas que criem e promovam melhorias nos espaços públicos, especialmente aqueles destinados às crianças que garantem a convivência intergeracional. “É preciso aproveitar que estamos em ano de eleição para olhar as propostas dos candidatos sobre o que eles pensado para crianças e adolescentes dentro de seus planos de governo.”
