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Páscoa: ‘alegria de criança não precisa de nota fiscal’

Será possível ressignificar tudo isso, deixando os brindes, excesso de açúcar e gordura hidrogenada de lado, e focar no que interessa?
Consumismo Istock
  • Publicado em: 18.04.2019
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O Carnaval nem termina e já nos deparamos com os túneis de ovos de chocolate nos supermercados e lojas de departamento. Grandes ou pequenos, sempre coloridos, os ovos ali pendurados nos convidam ao consumo um mês antes do grande dia de domingo de páscoa. Nós, adultos, sabemos o que nos espera. As crianças estão contando com os ovos e eles custam bem mais que a mesma quantidade de chocolate em qualquer outro formato tradicional. Não faz nenhum sentido, mas abrimos exceção pelas crianças. É por elas que vivemos, nos sacrificamos e nos alegramos.

Nossas crianças são nosso mundo, nossa esperança, nosso amor em forma de gente pequena. Sabendo disso, alguns fabricantes resolveram inventar de colocar “brindes” dentro das caixas de ovos, transformando o símbolo da Páscoa em mero apêndice de algo que a criança passará a desejar. Bonecos, pulseiras, carros de personagens licenciados.

Que ovo de chocolate, que nada. Páscoa virou desculpa para o consumismo.

Sou capaz de imaginar o pobre coelho de orelhas torcidas se perguntando: “Mas, e a celebração com seu significado de renovação? Serão trocados pelos brindes meia boca?”

Independente da questão religiosa, assim como o Natal, a Páscoa é um momento de família e de reflexão. Um momento em que estamos juntos e queremos celebrar momentos preciosos estando junto de quem amamos. Será possível ressignificar tudo isso, deixando os brindes, excesso de açúcar e gordura hidrogenada de lado, e focar no que interessa que são os momentos felizes e construção de memórias cheias de afeto para as crianças? Nós, do Milc (Movimento Infância Livre de Consumismo), achamos que sim.

Quem já viveu, em criança, o momento da caça aos ovos num domingo preguiçoso de Páscoa sabe que é algo que não se esquece nunca. Momentos assim são tão bons para os pequenos que sou capaz de apostar que o tamanho ou origem dos ovos pouco importará aos caçadores mirins, contanto que a brincadeira seja divertida. Ovo com brinde, alguém pode dizer, é até muito legal, mas criança gosta mesmo é da farra. É grande a emoção de encontrar bem escondido no jardim ou atrás do sofá um ovo de páscoa da loja parcelado em três vezes, da chocolateira do bairro com preço justo ou feito em casa pela mamãe e embrulhado com celofane. Não vai ter muita diferença.

A brincadeira de caça a ovos de galinha coloridos também empolga – e olha que nem chocolate tem. Pegadinhas dos coelhos feitas com adesivos prontos fazem o mesmo efeito e não ganham, em nada, dos dedos do papai marcando o chão com talco pra fazer de conta que o coelho acabou de passar por ali. O que importa para a criança é a vivência. Vivência feliz e em família ganha de goleada de qualquer brinde sem graça, criado para acabar numa gaveta ou caixa empoeirada repleta de tralhas iguais. Já a memória da Páscoa, cheia de significado, nos acompanha por anos.

Vivência feliz e em família ganha de goleada de qualquer brinde sem graça

Neste meio tempo a gente inevitavelmente cresce – exceto o Peter Pan e os meninos perdidos. Quando a gente cresce, vira mãe, vira pai e, através dos filhos, continua lembrando como era bom ser criança, revivendo tudo através deles e imaginando o coelho travesso correndo e se escondendo. Virando adulto com filho, chega a hora de brincar de criar a cena e amar as caras de surpresa e os gritos nervosos e triunfantes. Neste ciclo de vida reside o espírito da Páscoa. Deste resgate da criança que fomos através de nossos filhos brota em nós a esperança de dias melhores. E se existe uma coisa absolutamente desnecessária para viver um dia mágico como este é um ovo industrializado de um personagem infantil licenciado. Alegria de criança não precisa de nota fiscal.

Vanessa Anacleto é mãe do Ernesto, escritora, licenciada em Letras e co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo.

Resumo

Uma Páscoa sem consumismo é possível! Ovo com brinde, alguém pode dizer, é até muito legal, mas criança gosta mesmo é da farra. Confira a reflexão de Vanessa Anacleto, cofundadora do Milc (Movimento Infância Livre de Consumismo).
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