Arquivo Nacional/Arte Lunetas
  • Publicado em: 09.09.2021

“Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”, bradava Carolina Maria de Jesus em “Diário de Bitita”, obra póstuma de 1977. Do nascimento na pequena cidade mineira de Sacramento em 1914 até o fim de seus dias em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, Carolina mostrou que mulheres negras, pobres e faveladas também eram dignas nas prosas e poesias, subvertendo uma trajetória onde racismo, sexismo e desigualdade social pareciam ser as únicas possibilidades para corpos como o seu.

Autora de dez livros, sendo seis deles póstumos, é em “Quarto de despejo: Diário de uma favelada” (1960) que Carolina teve sua obra reconhecida pelo mundo. Vendendo mais de 1 milhão de exemplares desde sua publicação, o livro contém trechos de diários de Carolina escritos entre 1955 e 1960, com versos nascidos nos encontros com a fome, no cotidiano de catar papel nas ruas de São Paulo e na sobrevivência na extinta favela do Canindé, zona norte da capital.

Com uma vasta obra cheia de recursos para a valorização de trajetórias e vivências negras no país, o trabalho de Carolina Maria de Jesus também dialoga com a Lei nº 10.639, que institui a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil. Para a professora Jamile Menezes da Silva, educadora do 4º ano do Ensino Fundamental na EMEF Professor Darcy Ribeiro em Serra (ES), “o movimento de trazer mulheres negras para a sala de aula surge para a sociedade entender que a história do povo preto sempre existiu e tem muito a ensinar”, diz. Jamile levou a biografia de Carolina e um pouco da obra “Quarto de despejo” para estudar com sua turma, visto que ao refletir sobre o percurso, a relevância da escritora se faz presente no cotidiano por “existirem muitas Carolinas em nossas famílias”.

Inspirado pelo trabalho pedagógico de Jamile, nosso parceiro Centro de Referências em Educação Integral preparou uma metodologia para inspirar mais educadores a levarem a obra de Carolina Maria de Jesus para as salas de aula. A proposta pode ser adaptada de acordo com o perfil das turmas, o contexto local e o objetivo do docente.

Explicar a proposta do trabalho

Para começar, a sugestão é redigir uma mensagem com a importância de estudar a escritora e os objetivos da proposta, para que as famílias também possam participar das atividades e conhecer Carolina. Depois, faça um convite para a turma, como incentivo a produzir seus próprios escritos através das múltiplas perspectivas que a obra da escritora oferece.

Apresentar a biografia de Carolina Maria de Jesus

Para aproximar os alunos da vida da autora, conte sua história, a partir de textos, fotografias, capas dos livros publicados e ilustrações. Uma sugestão de material de apoio é “Carolina Maria de Jesus” (2019), da Editora Mostarda, que conta a história de Carolina com ilustrações voltadas para crianças e adolescentes.

Ler juntos trechos de “Quarto de Despejo”

Com a turma reunida, é hora de contar um pouco sobre a obra “Quarto de despejo” e ler passagens do livro. Em seguida, pergunte à turma o que acharam do trecho e permita que falem livremente.

“Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.”

“Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

A comida no estômago é como o combustível nas máquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei a andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida”

Fonte: Trechos do livro “Quarto de despejo: Diário de uma favelada”, de Maria Carolina de Jesus, publicado em 1960 (Editora Ática)

Desenvolver o tema de forma interdisciplinar

Convide a turma a se aprofundar nos estudos sobre a vida e a obra de Carolina. Promova debates sobre as condições de vida da escritora e permita que os discentes formulem hipóteses acerca das causas da desigualdade racial e social no Brasil. Também é possível abordar o êxodo rural, a infraestrutura e o saneamento básico das cidades e o surgimento das favelas.

O estudo abre espaço para falar sobre projetos de vida e sonhos que as crianças têm para seu futuro, assim como olhar para o passado, a partir das trajetórias pessoais e familiares. A obra também permite trabalhar o gênero diário, a interpretação de texto, os conteúdos de gramática e a variação linguística.

Convidar estudantes a produzirem seus próprios diários

Para finalizar os trabalhos, peça que os estudantes falem um pouco sobre a atividade. Convide-os a escreverem seus próprios diários, sem exigir uma entrega, visto que o objetivo é se expressar livremente através da escrita. Outra possibilidade é sugerir que as crianças entrevistem pessoas de suas famílias ou da comunidade e façam esse registro escrito de suas trajetórias de vida.

Se algum estudante quiser que o educador leia o diário, lembre-se da confidencialidade e de que o objetivo não é promover uma correção gramatical dos escritos, mas compartilhar vivências e sentimentos.

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Resumo

Conheça possibilidades para levar a obra de Carolina Maria de Jesus às salas de aula, a partir de metodologia criada pelo Centro de Referências em Educação Integral.
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