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O Rei Leão da Amazônia: em releitura, Timão dança carimbó

Nas ilustrações de Vilmar Rossi Júnior, Simba e Mufasa são onças-pintadas, Rafiki é um uacari, Timão é uma irara e Pumba é um cateto
O Rei Leão da Amazônia Reprodução/instagram.com/vilmarrossijunior
  • Publicado em: 12.08.2019
  • Atualização: 21.08.2019
da Redação

“E se O Rei Leão acontecesse na Amazônia?” Foi essa a pergunta que o ilustrador e designer gráfico Vilmar Rossi Júnior fez aos seus pouco mais de dois mil e duzentos seguidores no Instagram, no começo do mês de julho. A partir daí, nasceu a pesquisa que daria origem a uma série de ilustrações que ficou conhecida nas redes como O Rei Leão brasileiro, ou O Rei Leão da Amazônia. Na releitura de Rossi, as savanas africanas e os desfiladeiros característicos do filme dão lugar à mata fechada da maior floresta tropical do mundo.

Com a ajuda dos amigos e das pessoas que o acompanham nas redes, ele compôs um a um o elenco de animais amazônicos para substituir Simba, Mufasa, Rafiki, Timão, Pumba e toda a turma do original da Disney.

Na pesquisa, o autor descobriu quais são os animais típicos da região amazônica que mais se encaixam no perfil dos heróis do desenho. Foi aí que ele escolheu a estrelada fauna da Amazônia: a onça pintada fazendo o papel do leão Simba, o cateto no lugar do javali Pumba, uma irara (ou papa-mel) no lugar do simpático suricate Timão.

O artista procurou dar visibilidade a espécies pouco conhecidas, como o uacari que faz as vezes do babuíno Rafiki. Inicialmente, ele seria um mico-leão, mas os leitores problematizaram que o mico não é tão característico da Amazônia. Para cumprir o papel das hienas vilãs, Vilmar recorreu ao cachorro-do-mato-vinagre, também conhecido como janauí ou januara, um canídeo nativo da floresta amazônica.

Ao apresentar espécies tipicamente brasileiras que muitas vezes ficam fora dos livros de ciências e biologia, O Rei Leão da Amazônia se transforma em uma potente ferramenta pedagógica e cultural para os professores, as famílias e, claro, as crianças.

Conheça alguns animais amazônicos

  • Araçari-castanho – De nome científico Pteroglossus castanotis é uma ave da família Ramphastidae. Frequente da Colômbia ao Paraguai e no Brasil centro-meridional. A espécie mede cerca de 43 cm de comprimento, com um grande bico multicolor, bochechas, garganta e nuca castanhas, e uma barriga com faixa vermelha alargada dos lados.
  • Cateto – Semelhante ao javali ou porco-do-mato, este animal é um mamífero, e recebe muitos nomes, como patira, caitatu, pecari e tateto. Seu nome científico é Tayassu tacaju e sua ocorrência é na América do Sul.
  • Irara – É uma espécie tipicamente florestal, podendo ser encontrada desde do dossel de árvores até galerias de matas. O nome popular irara vem da junção dos termos tupis i’rá (mel) e rá (tomar). Já o nome científico da espécie (Eira) tem origem na língua guarani. No Brasil também é chamada de papa-mel, um dos seus alimentos preferidos.
  • Onça-pintada – De nome científico Panthera onca, é considerada o maior felino das Américas. No Brasil, ela é encontrada em todos os biomas, mas com grandes níveis de ameaça. A espécie é considerada uma das prioridades da Red List (Lista Vermelha) da IUCN (União Internacional de Conservação da Natureza).
  • Cachorros-do-mato-vinagre – Também conhecido como janauí ou januara na Amazônia e jaracambé ou aracambé no Brasil meridional, é um canídeo nativo da América do Sul. Segundo a IUCN, o cachorro-vinagre é uma espécie “quase ameaçada”. A espécie encontra-se nessas condições por conta do isolamento e da esparsa densidade das suas populações. Além disso, um outro fator agravante é a destruição do seu habitat

Fã de animação, Vilmar se inspirou para fazer sua criação na nova versão de O Rei Leão, em cartaz nos cinemas em live-action. A proposta de criar uma releitura amazônica do filme surgiu da intenção de despertar um olhar sensível das pessoas para a questão da preservação da floresta, uma das pautas nacionais de maior relevância geopolítica no país. O autor conta que a ideia que nasceu como brincadeira ganhou uma perspectiva ecológica e política que ultrapassa o filme.

“Comecei essa série como uma homenagem ao filme, mas ela ganhou uma importância diferente pra mim diante das violências recentes que a Amazônia vem sofrendo: tornou-se minha forma de protestar”

Assim, na releitura, o cenário deixa de ser só pano de fundo, e torna-se também conteúdo, pois nele estão subentendidas as temáticas que circundam a floresta amazônica, como o desmatamento, as queimadas, a questão dos madeireiros e latifundiários e a extinção de espécies. O ilustrador está trabalhando em sua criação. Até o momento, foram criadas cerca de oito cenas, entre elas a mais icônica do filme, a sequência de Hakuna Matata. No lugar de dançar a hula havaiana, Timão aparece vestido com flores na cabeça e uma saia de chita.

— Isca viva!
— Boa ideia. Ei!!? O que quer que eu faça? Me fantasie e dance carimbó?

No desenho original, a cena receberia uma roupagem estilo Michael Jackson, mas ficou mesmo a hula. No musical, porém, foi substituída por um Charleston. Na versão espanhola, virou uma dança andaluz.

“Poderia ser tanta coisa, pois temos uma infinidade de danças lindíssimas e que mereceriam uma representação. Pensei muito em colocar o Timão dançando o boi estilo parintins, ou uma chula do Rio Grande do Sul, ou mesmo alguma dança típica do Pará, de origem indígena, representando assim a cultura popular da região amazônica”, conta o autor em seu Instagram.

Mas, se na canção original o lema é “Os seus problemas você deve esquecer”, aqui, talvez, cabe arriscar que o envolvimento com a floresta convide para um outro olhar para os problemas que ameaçam sua existência. Para acompanhar a continuação das cenas que Vilmar Rossi ainda vai criar para o seu Rei Leão brasileiro, acesse o perfil do ilustrador no Instagram.

Confira a entrevista com o autor

Lunetas – Por se passarem em uma floresta ameaçada por desmatamento, queimadas e uma série de outras ações do homem, as suas ilustrações trazem à tona o caráter político da Amazônia. Pode falar um pouco sobre isso?

Vilmar Rossi Júnior – Inicialmente, as ilustrações não tinham esse propósito específico, mas, com a crescente violência que o atual governo vem direcionando à Floresta Amazônica, me senti na obrigação de me posicionar – e, especialmente, de utilizar a plataforma que estava se formando, para passar informação e questionar.

A maioria das espécies que retratei até agora estão em algum nível de perigo e fui mudando alguns cenários para mostrar as ameaças que agem sobre a floresta: o cemitério de elefantes virou uma zona de desmatamento; o estouro de gnus transformei em um estouro de boiada.

“Quando Mufasa mostra à Simba seu reino, vemos uma queimada ao longe. Só que eu não imaginava que aconteceria esse inferno de chamas que está assolando a nossa floresta”

As duas últimas ilustrações foram sobre isso: a luta de Simba e Scar sob o fogo e a clássica imagem das silhuetas de Simba, Timão e Pumba no nascer do sol, que virou uma fuga do incêndio que consome a floresta há mais de 15 dias e produziu um “rio de fumaça” que cobre os céus do país e parte da América do Sul (e pode ser vista do espaço).

Além de anestesiados pela enxurrada diária de absurdos, muitos estão com medo. O carinho com que a série foi recebida me deu a abertura para isso: usar o que sei fazer (que é desenhar) para protestar e discutir. Estamos num momento onde os dados científicos são condenados como heresia e onde a verdade é reescrita a todo momento.

“Trazer a tragédia que está acontecendo agora na Amazônia para a fantasia transformou essa releitura numa parábola distópica. Esperemos que o fim, no mundo real, seja como na ficção”

Além disso, coincidentemente, a história do Rei Leão também é bem representativa: um reino que é tomado à golpe por um tirano e seu séquito de hienas.

Lunetas – O material pode ser utilizado por professores, a fim de apresentar para as crianças espécies amazônicas e suscitar debates sobre preservação ambiental. Como você vê essa possibilidade pedagógica da sua arte?

Vilmar – Adoro! Fiquei muito feliz com a quantidade de professores e biólogos seguindo o trabalho; alguns, até, já pediram para usar em apresentações. Eu gostaria muito mesmo que esse material se transformasse em um livro, editado junto com alguma instituição de proteção, trazendo dados sobre a floresta, ecologia, nossa fauna e flora, misturando essa fábula ilustrada com fotos e desenhos dos animais retratados, e distribuir para a maior quantidade possível de escolas.

Lunetas – Na sua opinião, qual a maior contribuição de um desenho que seja representativo da realidade brasileira?

Vilmar – Representatividade importa. Esse mantra repetimos nos últimos anos na luta contra o racismo, o machismo, a homofobia. É preciso ocupar espaço, é preciso estar à vista, é preciso ser naturalizado para que as pessoas tragam isso para sua cultura, sua vida, seu dia-a-dia. Nos dias de hoje, é ir totalmente contra a maré: muitos sociólogos já falam que vivemos na pós-verdade (ou em uma “self true“), e essa “filosofia” quer que aquilo de que não gostam seja tirado das vistas.

É nossa obrigação fazer exatamente o contrário. Quanto mais replicarmos nossas produções culturais, mais divulgarmos nossas riquezas, mais expormos nossas mazelas, quanto mais nos apropriarmos disso tudo, melhor. Ilustrar é contar uma história. E contar histórias é a maior arma que desenvolvemos.

Lunetas – Como você acha que seria o Hakuta Matata brasileiro? Que questões seriam exaltadas na letra?

Vilmar – O Hakuna Matata de Timão e Pumba é uma ode à vida, que deve ser aproveitada sem se importar com os problemas. Olha, o tema também é bem praticado aqui, não? Mas as duas características que sempre são exaltadas nos brasileiros são a afabilidade e a capacidade de se adaptar. Acho que ambas se encaixariam bem numa versão brasileira: tenha empatia e enfrente os problemas de maneira criativa!

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Resumo

O Rei Leão da Amazônia é uma série de ilustrações do designer gráfico Vilmar Rossi Júnior que começou como uma homenagem ao filme, e ganhou proporções socioambientais ao chamar a atenção para a preservação das espécies da floresta amazônica. Conheça!
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