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O que você sente ao ver esta foto? Marina Clara / Instagram: @amarinaclara
  • Publicado em: 22.04.2019
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Pare por um tempo os seus dedos nervosos no celular, escorrendo as más notícias com o dedo que está cansado de guerra. Este é um convite para você fazer uma viagem, comigo, para um lugar que una, em você, a sensibilidade à surpresa, o encantamento com o inusitado, a beleza à ternura. Na semana passada, minha amiga Ana Cândida Zanesco me mandou uma foto, pedindo que eu a legendasse, em um texto curto para a rede social. Eu passei dias inebriado por ela, sem ter como escrever quase nada.

Deixei que a brisa dos sentimentos nobres me invadisse em tantos momentos impossíveis de palavrear sobre a imagem. Há cenas que fazem assim com a alma, deixam-na em silêncio para escutar o som do belo, o cheiro da doçura e a textura da felicidade autêntica. E, para isto, talvez não haja palavra suficiente, que baste para que o sentimento se sinta representado. A foto é esta aí de cima. Vou parar o texto por um tempo, e você se sinta à vontade para ficar de segundos, horas ou dias a fitá-la.

Toda foto é um segundo eternizado de uma história muito maior. A história desta foto (ou uma das histórias que se podem contar sobre ela, já que somos seres multihistoriados e podemos contar e recontar e recontar a vida eternamente) é a história do trabalho divino de Ana Cândida Zanesco, uma terapeuta de expressão corporal lá de Uberlândia, em Minas Gerais. Ana Cândida sempre foi apaixonada pelo movimento, sempre teve em seu corpo o vento soprando como uma flecha em direção à expansão. Ela sempre sentiu que corpo é pra se mexer, e sempre viu na dança uma forma de oração. Depois de muitos estudos em várias áreas do conhecimento, ela criou o método “Dance Mãe e Bebê”, que faz com que mulheres no puerpério possam dançar suas ambivalências, suas dores, seus fantasmas, mas também a conexão amorosa em construção, a vida transformada pela chegada do bebê e a nova identidade de mulher que se faz presente como um grande gerúndio nesta fase da vida. Nesta dança, as mulheres não somente dançam com seus bebês no sling. Naquele sling estão o bebê e todas as sensações de uma mulher que se torna mãe, tarefa sempre maiúscula independente de contexto ou nível de vulnerabilidade ou privilégio. E, depois de anos fazendo esta dança com as mães bailando seus bebês e sentimentos incontáveis com eles atados ao corpo através dos panos coloridos, eis que Ana Cândida resolveu fazer uma condução diferente. Ela sugeriu que as crianças, já mais crescidas, que tinham inclusive sido os bebês dançados pelas mães de outrora, agora pudessem dançar com suas bonecas a tiracolo. Assim, nasceu o “Dance Colinho”. E a foto que dá origem a este texto foi uma das cenas deste momento iniciático de dança, suspiro, ludicidade e esperança.

Mas voltemos à foto. Eu sugiro que você olhe para ela, sinta tudo em você reverberando: pode ser que você, ao mesmo tempo, encontre a beleza da candura da criança, mas também sinta algum estranhamento por um menino carregar uma boneca, ter as mãos suspensas como em uma cena congelada de balé, em atos tão femininos que possam mexer com suas crenças sobre gênero. Em uma sociedade tão machista quanto a nossa, é natural e previsível que os estranhamentos se apresentem em camadas, e que os preconceitos emerjam sorrateiros, num momento em que já nos acreditamos livres deles. Esta foto pode revelar muito de cada um de nós. Ela é um retrato do passado que queremos superar, do presente que estamos dançando enquanto o mundo parece andar para trás, e do futuro que se sonha com cada vez mais tintas de ousadia.

O garoto carrega uma boneca negra. O garoto carrega uma boneca negra. O garoto carrega uma boneca negra. São tantas camadas possíveis de leitura desta dimensão contida na foto, e eu em minha branquitude sou levado a apenas algumas delas. Espero que mais gente possa lê-la melhor do que eu, mas o que me fortalece nesta cena é ver um menino branco aprendendo a reconhecer e valorizar uma menina negra. A boneca escolhida é o reflexo de afetos que se constroem no brincar. Este menino já traz consigo a semente do mundo que queremos que exista, desde sempre, mas que recebe do racismo estrutural a força em oposição para que ele aconteça.

Repousar os olhos com delicadeza e cuidado, com reverência e compaixão, com reconhecimento e equidade para as pessoas negras é uma das tarefas mais adiadas de nossa cultura. E uma criança é mesmo aquela que nos dá as mãos e nos retorna ao que poderia ter sido, ao melhor de nós que foi se perdendo com o tempo. Sinto-me tomado pelas mãos dele no ar, chamado para bailar o reconhecimento da menina negra, de todas as meninas negras, da ascendência negra que ainda estamos grávidos por saudar dignamente enquanto nação. Uma dança pode ser uma forma poética de se viver a conexão com os povos que invisibilizamos, que não maternamos em nossos slings patriarcais.

Este garoto é um homem em formação. Esta cena é a antítese de tudo o que a masculinidade tradicional apregoa. Um homem que se movimenta também com a leveza. Um homem que dança. Um homem que fecha os olhos e sente. Um homem que sente, que consegue presentificar o belo da vida de olhos fechados, em estado meditativo. Um homem que faz do feminino o lugar do seu cuidado, não o objeto de seu escárnio ou humilhação. Um homem que fecha os olhos para a forma intoxicante de se fazer um homem, e que abre o coração para a reparação que a alma masculina pede há séculos. Um homem que fecha os olhos e faz silêncio. Que ao invés de ter certezas e tiranizar seu entorno com a fala imperativa, fecha os olhos para escutar o que o outro tem a lhe dizer. Um homem que sai do lugar de fala reativo e se sente cômodo para escutar e aprender. Um homem que fecha a porta das certezas e abre a janela da dúvida. Um homem que não quer ter certezas, porque entendeu que a dúvida é a mão suspensa no ar, esperando outra mão chegar para conversar. A mão no ar é a mão aberta, que não se cerra no punho esperando se transformar numa violência qualquer. A delicadeza desta cena é a soma de todas estas impressões, mais tantas outras que você quiser imaginar de mãos dadas comigo.

Uma foto é apenas um segundo de eternidade. A eternidade é o agora multiplicado pelo tamanho da esperança que podemos fazer brotar. Conte a história desta foto para si, para gente grande ou pequena. Promova em sua vida, na vida das crianças à sua volta, cenas que façam sua alma dançar, cantar, chorar o tratamento de alguma dor daquela esperança que anda ferida. A infância é a sala de estar de tudo o que deixou de ser possível num coração doído pela adultez. A infância é um convite a um regresso ao que nunca poderíamos ter deixado de ser. Agora me dê licença, porque eu vou ali dançar com meus filhos, pedindo a eles que me levem embora de mim, e que me alcem a algum lugar imaginário que encontre a paz que eu quero sendo embalada no sling por algum dos meus esquecimentos.

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Resumo

"Promova em sua vida, na vida das crianças à sua volta, cenas que façam sua alma dançar, cantar, chorar o tratamento de alguma dor daquela esperança que anda ferida". Confira mais um texto de Alexandre Coimbra Amaral.
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