O que a creche ideal precisa oferecer? 3 especialistas respondem

A resposta se aproxima de aspectos simples, como carinho, afeto e tempo para a criança poder brincar e explorar o mundo
  • Publicado em: 18.02.2017
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Como saber se uma creche é realmente boa, e oferece aquilo que o bebê – que ainda não fala, e é tão pequeno e frágil – precisa para se desenvolver? Para responder a essa pergunta, conversamos com especialistas dos campos da educação infantil, desenvolvimento da criança e primeira infância para oferecer subsídios para que famílias possam fazer uma escolha consciente e segura, munidos de informação para avaliar e cobrar – porque não?- a instituição escolhida.

A Educação Infantil é a primeira etapa da educação básica, oferecida em creches e pré-escolas, às quais se caracterizam como espaços institucionais não domésticos que constituem estabelecimentos educacionais públicos ou privados que educam e cuidam de crianças de zero a cinco anos de idade no período diurno, em jornada integral ou parcial, regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de ensino e submetidos a controle social. É dever do Estado garantir a oferta de Educação Infantil pública, gratuita e de qualidade, sem requisito de seleção. Fonte: Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil.

Afinal, o que faz de uma creche um bom espaço para uma criança?

A resposta para essa pergunta passa longe dos brinquedos industrializados, de um espaço físico que impressione pela modernidade, ou pelo design arrojado, ou da oferta de infraestrutura e tecnologia, e se aproxima de aspectos mais simples e humanos, como carinho, afeto e tempo para a criança poder brincar e explorar o mundo.

Muito mais importante do que as características do espaço -salas grandes ou pequenas, um jardim enorme, chão de borracha para a criança não se machucar, e oferta de brinquedos, por exemplo- é a forma como o local será aproveitado dentro do projeto pedagógico da instituição, a qualidade e a formação dos profissionais que trabalham no local e, principalmente, se o ambiente proporciona segurança e acolhimento para que a criança possa experimentar novas sensações.

O atendimento em creches e pré-escolas como direito social das crianças se afirma na Constituição de 1988, com o
reconhecimento da Educação Infantil como dever do Estado com a Educação. O processo que resultou nessa conquista teve ampla participação dos movimentos comunitários, dos movimentos de mulheres, dos movimentos de trabalhadores, dos movimentos de redemocratização do país, além, evidentemente, das lutas dos próprios profissionais da educação.

“Bebês precisam explorar objetos, experimentar o corpo, aventurar-se pelos espaços, brincar, comunicar-se com outras crianças e com os adultos e ampliar os seus saberes”, aponta Alice Junqueira, psicóloga e educadora do Cenpec – Educação Cultura e Ação Comunitária.

Para João Batista Araujo e Oliveira, Presidente do Instituto Alfa e Beto, uma creche é boa quando contribui para promover o desenvolvimento harmônico da criança.  “Para cumprir sua função,  precisa acolher as crianças com carinho, apresentar à elas estímulos adequados aos vários aspectos do seu desenvolvimento e trabalhar em sintonia com as famílias”, aponta.

De acordo com os especialistas, o que faz de uma creche uma “boa” creche está muito mais atrelado à qualidade das experiências que aquela instituição proporciona à criança, do que aos recursos materiais aos quais a criança tem acesso no local.

“Bebês precisam explorar objetos, experimentar o corpo, aventurar-se pelos espaços, brincar, comunicar-se com outras crianças e com os adultos e ampliar os seus saberes”

“Ambientes lúdicos são criados pelas crianças. O fundamental é ter espaço com alguns estímulos e liberdade para explorar”, afirma João Batista. De acordo com ele, o “segredo consiste na organização do espaço, do tempo, das atividades que nele ocorrem e nas interações, os desafios e limites apresentados à criança para que ela possa fazer o melhor proveito deles. As coisas – como os brinquedos em si – não são especialmente relevantes. O relevante é o que a criança possa fazer com elas e o estímulo e feedback que recebe para explorar e conhecer o mundo – liberando a sua curiosidade e sua imaginação”, completa o especialista.

Brincar: o modo de aprender das crianças

Muito mais do que uma forma de lazer e de passar o tempo, brincar é um direito da criança, e também uma atividade imprescindível ao seu desenvolvimento. “É a forma como as crianças se conectam ao mundo, é a sua forma de aprender sobre a linguagem, as pessoas, os fenômenos da natureza e da sociedade”, explica o presidente do IAB.

No dia a dia da educação infantil, de acordo com os especialistas, a brincadeira deve estar tão presente quanto os cuidados com o bem-estar físico da criança. “Na creche, cabe ao educador organizar o espaço físico e planejar ações intencionais que favoreçam um brincar de qualidade”, aponta a educadora Alice Junqueira. 

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“A brincadeira é a forma de a criança ser e estar no mundo. Ela usa os objetos com um sentido bem especial, primeiro ela quer saber o que é, e pega, põe  na boca, olha, cheira, chacoalha, bate, enfim , percebe todas as propriedades deste objeto seja ele qual for. Depois, quer saber para que aquele objeto é usado, para que ele serve. E por fim a criança transforma em algo novo, que ela imagina e cria”, diz Cisele Ortiz, psicóloga especialista em educação infantil.

E, ao contrário do que muitos podem pensar, quanto menos “pronto” for o brinquedo, melhor ele servirá ao propósito do brincar da criança. Nesse sentido, materiais simples como caixas de papelão, panos, sucatas, folhas, galhos, na creche, ganham o status de poderosas ferramentas pedagógicas. “Eles certamente os transformarão, por meio da imaginação, em brinquedos bem mais interessantes e divertidos dos que os industrializados”, afirma Alice Junqueira do Cenpec.

O contato com a leitura começa antes da alfabetização

A leitura tem grande importância na creche, pois coloca os bebês desde cedo em contato com a linguagem escrita. “Por meio dela, percebem que a fala do dia a dia é diferente daquela usada numa leitura em voz alta, notam que tem cadência, ritmo e emoção diferentes. Estar em contato com livros desde o berçário é um excelente caminho para despertar paixões pela leitura”, disse Alice Junqueira, do Cenpec.

Mas, a tarefa de educar e criar futuros leitores não deve ser exclusiva dos educadores. Livros e leituras assistidas devem permear a rotina das crianças na instituição de ensino, mas também as brincadeiras entre pais e filhos em casa. “Livros trazem em si o elemento mágico de compartilhar narrativas, melodias e fortalecer vínculos”, completa Cisele Ortiz, psicóloga especialista em educação infantil.

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“As crianças de zero a três anos estão aprendendo a todo o momento, seja nas atividades de cuidados físicos, como nos desafios proporcionados pelas outras crianças nas interações e compartilhamento de sentidos das experiências, como nos objetos, brinquedos, materiais que os professores colocam a disposição da criança para explorar, conhecer, criar”, comenta Alice Junqueira.

E as telas?

Na era da internet, as telas estão presentes na rotina das famílias. Mas será que atividades com tablets, filmes ou moimentos de televisão fazem sentido no ambiente da creche?

Os especialistas consultados vêm com muita cautela o uso das telas na rotina das crianças nas creches. “Esse tipo de atividade só tem sentido quando está relacionada a algum projeto ou proposta pedagógica”, aponta a psicóloga Alice Junqueira. 

Cisele Ortiz, que é coordenadora do GT de Educação Infantil de Rede Nacional Primeira Infância, sugere sessões de cinema na creche para as famílias como uma possibilidade de ampliação cultural para a comunidade escolar. “Deve-se ter em mente sempre que a ação da creche é complementar à ação da família, portando deve ir mais, ir além e não reproduzir o que a criança já tem”, afirma.

Os cuidados com o bem-estar do bebê e a rotina na creche

Cisele Ortiz, psicóloga especialista em educação infantil e coautora do livro “Ser professor de bebês: cuidar educar e brincar uma única ação”, destaca a importância da criança ter na creche uma rotina estável, e que seja centrada nas necessidades infantis e não nas necessidades institucionais e dos adultos. “A rotina é fundamental para as crianças como elemento de segurança que favorece a construção da identidade e da autonomia”, afirma.

O que é mais importante na estrutura física de uma creche?

Como já foi dito anteriormente, mais importante do que o espaço em si, para a criança, é o tipo o local é aproveitado e que tipo de atividade é desenvolvida ali. Sem rodeios, sobre essa questão, Cisele afirma: “Fundamental é termos: 1,80m² por criança no espaço interno tudo acessível e à altura dela, e que as paredes reflitam a cultura e a estética infantis, com espaços externos verdes, onde ela possa ter diversidade de cores, aromas, texturas, espécies, enfim, vida que pulsa”.

O contato com espaços mais verdes e naturais, sem dúvida, é muito importante para o desenvolvimento das crianças. “Desemparedadas”, as crianças podem experimentar o brincar de forma mais livre e imaginativa. Apesar disso, o pátio dos sonhos, repleto de árvores e verde, não é uma realidade para todas as instituições. “Sempre se pode possibilitar às crianças o contato com elementos naturais como água, terra, grama ou areia, sempre fontes de inesgotáveis experiências sensoriais, não sendo para isso necessário espaços tão incríveis e inovadores”, completa Alice Junqueira, do Cenpec.

As 32 escolas da rede de ensino de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, são um exemplo interessante nesse sentido. “A questão não está no tamanho do espaço e sim na riqueza que ele vai oferecer, em como organizá-lo. Entre as escolas de nossa rede, justamente, uma das escolas com menor tamanho de pátio, é uma das que tem maior diversidade de possibilidades para as crianças, com variedade de árvores frutíferas, horta, composteira, cisterna e diferentes recantos para a brincadeira. Materializar uma proposta de pátio está muito mais para a concepção do que para o tamanho do pátio ou para os recursos financeiros”, conta a bióloga Rita Jaqueline Morais, assessora pedagógica de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação do município.

Por fim, os especialistas fazem um alerta em relação a estruturas físicas que se assemelhem à instituições totalitárias como prisões, quartéis ou conventos. “A estrutura física muitas vezes tem esse poder de massificar e embotar o indivíduo assim como a rotina rígida. As crianças não podem ficar massificadas e confinadas”, aponta Cisele.

Não existe educação de qualidade sem bons educadores

A ciência já sinaliza os enormes benefícios dos investimentos em políticas para a primeira infância, e também para a importância dos primeiros seis anos de vida da criança para todo o seu desenvolvimento futuro. Apesar disso, no Brasil, a ampliação de vagas -com qualidade- nas creches ainda é um dos grandes desafios do país. Superar esse desafio passa pela valorização e qualificação dos professores da educação infantil.

A formação do educador é fundamental e sabemos que tem um impacto direto em sua prática. Nesse sentido, não basta a formação inicial. É muito importante que o professor participe de processos de formação continuada para que construa e aprofunde conhecimentos a partir da discussão e análise das próprias ações educativas.

“Sem salários adequados e equalizados com outras profissões do mesmo nível, sem que a lei do piso seja cumprida por todos os municípios , sem plano de carreira, sem formação continuada no cotidiano, (aquela que o supervisor, diretor e coordenador pedagógico são responsáveis ), que traga luz às práticas e reflexões aprofundadas , não tem como melhorar a qualidade. Se o professor de creche ainda é visto como um profissional inferior pelo Estado, não há por que a sociedade pensar diferente. Sem visão política e estratégica dificilmente a educação avança. A educação da criança pequena , infelizmente é vista como um problema privado, da família, em geral da mulher , e não como o nosso maior bem , nosso futuro sendo criado hoje”, finaliza Cisele.

Se o professor de creche ainda é visto como um profissional inferior pelo Estado, não há por que a sociedade pensar diferente

Resumo

Para responder a essa pergunta, conversamos com especialistas que ofereceram subsídios para que famílias possam fazer uma escolha consciente e segura.
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