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  • Publicado em: 21.11.2019
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Qualquer de nós consegue se ver nesta pele: um estudante cabisbaixo, temerário, a ansiedade comendo as vísceras aos poucos, aos muitos, a cada passo. Ele recebe a nota baixa da prova – aquela, a mais importante, a que definiria o corte entre passar direto ou ficar na recuperação. Não foi desta vez. É hora de segurar o choro na frente dos colegas, porque está todo mundo comentando quem ficou ou quem foi. A sala de aula, ambiente que poderia ser um espaço colaborativo, se mantém ainda como arena competitiva entre as notas dos colegas, como uma metáfora do pior que o mundo lhes reserva. O ambiente é de opressão, para quem não atingiu a média, e de alívio para quem está do outro lado do abismo. O professor olha para o estudante, às vezes empático com seu sofrimento, outras vezes dizendo frases que terminam por piorar o estado emocional daquele que segura a nota vermelha nas mãos. Alguns colegas dão o abraço no intervalo, o que termina por fazer as lágrimas reprimidas brotarem. Há culpa por todos os lados: pode cair nos ombros daquele que pretensamente estudou pouco, do déficit de atenção, da carrasca da professora, da família que não apoiou o estudante em sua jornada durante todo o ano.

A cena que quero retratar é a da chegada deste estudante à sua casa, com a notícia em vermelho, itálico e sublinhado. O seu olhar fugidio, a dor que estampa na ansiedade ou na ira incontida, a vontade de sumir. Não parece absurdo pensar que o desempenho de uma criança ou adolescente faça com que ele viva todas estas emoções desencontradas? Qual é o valor que atribuímos a uma boa nota, ainda, neste século XXI? Estaríamos nós, os adultos, reproduzindo o pior daquilo que vivemos quando estávamos com o boletim da discórdia nas mãos, pronto para ser entregue aos pais assombrados com a pífia performance?

Toda nota vermelha é o fim de uma história, que contém cenas que lhe antecedem. Não é uma foto, é um filme. Qual é o filme da história da nota vermelha do seu filho? Pode ser uma história de perda de motivação, por não acreditar em si, na sua capacidade de aprender, de construir saberes úteis a si e ao mundo. Pode ser uma história de desconexão com o ambiente escolar, com aquela instituição, com aquele professor. Educação é vínculo, é laço, é ponte entre o coração de quem aprende e o coração de quem ensina. Não é possível ensinar o desejo de saber, já dizia Freud (para saber mais sobre isto, leia “Freud Antipedagogo”, de Catherine Millot, um clássico eterno). Se há atravessadores bloqueando a fluidez do saber na ponte que liga o estudante a um educador, haverá resultados desencontrados no processo de aprender.

A nota vermelha pode ser o coração flamejando de amor por alguém que não corresponda a uma paixão juvenil. Também pode ser um problema familiar que tira a atenção do estudo. Pode ser que a mente da criança esteja tomada pelos jogos eletrônicos ou da conectividade ao celular, os maiores vilões do desempenho escolar da atualidade. A nota vermelha é um filme, com vários enredos possíveis, ganchos dramáticos e viradas surpreendentes – mas com este final amedrontador e carregado de medo de desamparo.

Por isso, como recebemos o filho na hora da nota vermelha é mais um dos momentos de inventarmos novos pais e mães. Fazer diferente daqueles que nos olharam de forma tão crítica, e que fizeram nos sentir péssimos, mais do que a própria nota aponta de um pretenso fracasso escolar. Ainda somos obedientes a um sistema que premia a nota, o resultado, a miséria de uma competitividade que constrói abismos entre as crianças? Ainda somos reféns de uma visão de educação que coloca os estudantes como cavalos num coliseu, onde o mundo se posta como a arquibancada que lhes cobra a nota, a nota e a nota? O que significou para você a nota que você tirou, seja ela uma nota alta ou baixa? O que ela dizia sobre a sua aptidão para viver, para escolher sua trajetória, para assumir os dissabores das escolhas e seguir em frente na imperfeição que não cansamos de ser? Lembremos do olhar que recebíamos dos pais, às vezes ainda mediados pelo horror do castigo físico, hoje reconhecido como violência contra a criança, mas que na época era sinônimo de limite e boa prática educativa (sim, avançamos nisso, sigamos). O que estes olhares repreensivos têm a ver com as dificuldades que sustentamos no enfrentamento dos desafios da vida?

Acolher um fracasso é uma das coisas que aprendemos a fazer com os filhos.

Há muito disso, sim. Acolher um fracasso é uma das coisas que aprendemos a fazer com os filhos. Quando um bebê cai, damos colo, acolhemos o choro. A nota baixa é uma queda no chão, às vezes do terceiro andar da alma. Há escoriações por alguns lados invisíveis de quem mais amamos, e este motivo já é suficiente para darmos atenção compassiva ao sentimento de fracassar. Mesmo que para nós seja importantíssimo ter uma nota alta. Mesmo que para nós ainda exista a crença na construção de uma biografia exitosa somente a partir do bom desempenho escolar. Ainda assim, naquele momento é hora de se dar um abraço, de corpo inteiro. Desenhar com o olhar o acalento à dor de não conseguir chegar ao que se imaginava o mínimo suficiente. Sim, somos humanos, e podemos ter raivas acumuladas que projetamos sobre eles, também nestas horas. Que haja, então, espaço posterior para a reparação do que poderia ter sido dito ou feito por nós.

Dar-lhes um abraço não significa ser permissivo, não significa fomentar a preguiça no futuro.

Significa amparar a dor de não conseguir, coisa que teremos como experiência a todo momento. Nossos filhos merecem acreditar que podem falhar, sobretudo na escola, este totem da cultura que transforma o mundo inteiro em seres que perguntam como está nossa vida ali. Falhar na escola não é menos grave do que falhar com um irmão, do que perder um jogo, do que sentir uma vergonha assombrosa. Tudo é um grande estágio para a vida adulta, esta entidade que se apresenta a todo momento como um bicho papão que terminará com os sonhos e a ludicidade da infância.

Está tudo errado, minha gente. A vida adulta não é o fim da doçura, não é o epílogo do abraço. Acolher as dores de existir de nossos filhos, quaisquer que elas sejam, é ofertar-lhes a esperança de que haja gente no mundo disposta a contribuir conosco, em todas as fases da existência. A nota não mede um futuro. Mas ela pode marcar um presente como uma cicatriz. E depende de nós, os adultos da relação, fazer do encontro de olhares amorosos o amparo que pode fazer o vermelho não virar memória em sangue, dolorosa, dilacerante. Lembremo-nos de nossas notas vermelhas, até hoje, na vida de todos os dias. Pode ser que não sejamos abraçados como merecíamos, e isso não quer dizer que necessariamente a vida deva ser assim. Podemos fazer do perímetro de um abraço a semente de uma forma mais bela de se existir, já que as falhas vão mesmo emoldurar todo o tempo da gente.

Resumo

Para nosso colunista Alexandre Coimbra Amaral, receber o filho na hora da nota vermelha é mais um dos momentos de inventarmos novos pais e mães. "Fazer diferente daqueles que nos olharam de forma tão crítica, e que fizeram nos sentir péssimos".
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