O educador defende que momentos sem telas, sem aulas e sem “ter o que fazer” são importantes para o descanso e para a criatividade das crianças
Crianças em casa, pais ocupados e muitas telas. Para fugir dessa regra, é preciso encarar o tédio como algo positivo. No Minuto Lunetas, o educador Nélio Spréa reforça que o tédio é importante e faz bem.
Crianças de férias precisam do tédio. Afinal, se estão justamente de férias, por que inventar atividades extras? Para o educador Nélio Spréa, é do “fazer nada” que podem surgir vários “tudos”. Ou seja, é do descanso, da falta e do ócio que a imaginação das crianças desperta.
Neste Minuto Lunetas, Nélio, que também dirige projetos de arte e educação para crianças, responde uma pergunta comum de famílias que estão com as crianças de férias em casa: por que as crianças precisam sentir tédio?
Ele cita dois pontos principais. O primeiro é que “sentindo tédio, a criança tem que lidar com isso e, então, pode aprender desde cedo que a vida não é só satisfação”. O segundo motivo é que o tédio é um “catalisador da criatividade humana”. Isto é, impulsiona descobertas, favorece aprendizagens e abre caminho para a socialização com outras crianças. “É uma socialização menos solitária do que ver as crianças sentadas, paradas, olhando para aquilo que passa numa tela por horas.”
Encarar o tédio é necessário para todas as crianças. Elas podem ficar irritadas no início, mas logo se inquietam, procuram algo para mexer, rabiscar, empilhar e vão incomodar quem estiver em volta. Para Nélio, esses sinais revelam que a cabeça está cheia de ideias. “Ela vai movimentar as coisas ao redor até encontrar um caminho de alívio. E é aí que surge algo novo. Isso não tem receita, porque tem que ser inventado a cada vez.”
Nesse movimento de ócio e ideias, aparecem novas brincadeiras, dancinhas, desenhos coloridos, músicas e diversão. Mas, para que isso aconteça, Nélio explica que é preciso “menos oferta de entretenimento guiado, industrializado e ultraprocessado”. Nesse ponto ele se refere ao excesso de telas com joguinhos sem interação e vídeos curtos infinitos. “É preciso mais liberdade para a criança criar o seu próprio entretenimento. Um entretenimento orgânico, vivo, original e, sempre que possível, coletivo.”
“Enfrentando o tédio, a criança terá a chance de compreender que a satisfação e alegria são sentimentos que não brotam do nada. Para que a gente se sinta bem, temos que pôr a mão na massa.” – Nélio Spréa, doutor em educação