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Professora cria ‘Máquina de Raio-X’ para ensinar igualdade

Como levar um conceito complexo como a igualdade para as crianças? A professora Marina Bittencourt resolveu mostrar como todos nós somos parecidos por dentro
Igualdade na escola
  • Publicado em: 16.05.2018
  • Atualização: 24.05.2018
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Igualdade. Eis uma palavra que muitos de nós pensamos conhecer, mas que pouco praticamos ou mesmo refletimos sobre o que ela significa. Quais abismos sociais, raciais, econômicos e tantos outros nos impedem de colocar esse conceito em prática? Quanto o assunto é educação infantil, como a igualdade na escola é praticada?

Estas e outras perguntas fazem parte de um pensamento que se pretenda crítico a respeito das práticas pedagógicas, e de como elas contribuem para formar sujeitos plenos de sua capacidade de agir no mundo, e também para transformar realidades precárias em direitos.

Foram também estas questões que nortearam a atividade criada por Marina Gomes Bittencourt, a “Máquina de Raio X da Igualdade”, que surgiu com o intuito de mostrar às crianças, a partir de um exemplo concreto, como todos os seres humanos são iguais e por isso têm direitos e valores.

Marina é professora da EMEI – Escola Municipal de Educação Infantil – Nelson Mandela – que fica no Limão, bairro da zona norte de São Paulo, que vem se destacando com seus projetos sobre cultura de paz – e conversou com o Lunetas sobre essa prática e como ela afetou o senso de humanidade das crianças.

Tudo começou com o eixo principal da escola neste ano, falar para os pequenos sobre a trajetória do patrono da instituição, o líder africano Nelson Mandela (1918-2013), que carinhosamente aparece na fala dos alunos e professores como “Vovô Madiba”.

No pátio da escola, dois meninos estão virados um de frente para o outro, segurando a Máquina de Raio-X criado pela professora. Trata-se de uma caixa de papelão de onde sai um grande papel retangular com o desenho de um corpo humano radiografado.
Arquivo EMEI Nelson Mandela

Igualdade na escola: “máquina de raio-x” ensina as crianças que por dentro somos todos iguais.

“O objetivo principal do nosso projeto neste ano é falar sobre a vida do nosso patrono, Nelson Mandela. A partir da leitura do livro “Madiba, o menino africano” (escrito por Rogério Andrade Barbosa e ilustrado por Renato Alarcão), algumas perguntas surgiram: “Por que Madiba lutava por liberdade e igualdade, professora?”, “O que é lutar por igualdade e liberdade?” . Percebi então que esse seria o disparador que me levaria à apresentação da história de vida de Nelson Mandela. Mas, para que isso acontecesse, seria preciso que as crianças entendessem o significado dessas duas palavras: igualdade e liberdade”, explica a professora.

Se nem um adulto bem instruído e preparado consegue definir em poucas palavras o que é uma coisa e outra, para uma criança, os conceitos podem se nublar ainda mais. É isso o que podemos pensar como adultos. Porém, engana-se quem acha que as crianças não têm facilidade de entender na prática como viver com igualdade e liberdade.

Marina conta que começou a conversa com os alunos, que têm entre quatro e seis anos, pela própria definição de dicionário de “igualdade”.

Igualdade Substantivo feminino 1. Qualidade de igual. 2. Relação entre coisas ou pessoas iguais. 3. Correspondência perfeita entre as partes de um todo. 4. Organização social em que não há privilégios de classes. 5. Equação. 6. Sinal aritmético de igualdade (=).

“Complexo para uma turma de Educação Infantil, não é mesmo? Então pensei: de que forma eu posso ensinar, provar a partir de uma experiência, o que de fato é igual em nós? Tive a ideia de mostrar a eles o esqueleto humano. Como é que podemos ver nosso esqueleto? Fazendo um raio-X! E assim criei o Raio-X da igualdade”, explica.

“Esse foi o ponto de partida para que eu conseguisse ensinar meus alunos sobre a igualdade que diz respeito à “Organização social em que não há privilégios de classes”, a real luta de Nelson Mandela”

Na hora de colocar a atividade em prática, a professora lançou mão da fantasia e do poder imaginativo das crianças, utilizando uma abordagem já conhecida pelos alunos da EMEI Nelson Mandela, que perpassa muitas práticas educativas, a Família Abayomi.

Família Abayomi

Entre as iniciativas da escola, está a criação da família Abayomi. São bonecos de pano em tamanho real que passaram a integrar a família escolar. Como tudo ali, eles tem sua história: Azizi Abayomi é um príncipe negro africano que vem ao Brasil e se casa com Sofia. Da união, nasce Dayó e Henrique. A família Abayomi é uma espécie de “mito criador” do debate racial com as crianças na escola. Como existe afeto em torno dos bonecos e das bonecas, cada passo da família (casamento, nascimento dos bebês, férias, etc.) abre espaço para atividades lúdicas e para debates sobre racismo, inclusão, resgate da ancestralidade, entre outros temas que incentivam o respeito às diferenças.

A brincadeira foi enviar para os alunos uma carta, assinada por Sofia Abayomi, em que ela diz que quer entender melhor o que é afinal essas tais de igualdade e liberdade, e pergunta se as crianças podem ajudá-la. Para isso, ela deixou a Máquina de Raio X como presente, instigando os pequenos a aprender como ela funciona e para que ela serve. Marina compartilhou a carta com a gente, que você pode ler abaixo:

“Olá, turma Marte (cada turma da escola tem o nome de um planeta)!

Ontem eu vi que vocês fizeram uma atividade muito legal. 
Vocês procuraram e acharam vários significados para as palavras Liberdade e Igualdade! Nossa, mas eu achei um pouco complicado entender essas duas palavrinhas, e vocês? Bom, resolvi ajudar e trouxe para vocês essa máquina, ela se chama Raio-X da Igualdade, a professora de vocês vai ensiná-los a usar.  Aproveitem!

Sofia Abayomi”

“Para a turma, o Raio-X da Igualdade foi um presente da Sofia, o que tornou a atividade muito mais interessante e especial”

“As crianças têm um carinho muito grande pela família Abayomi e quando eles estão presentes é a ludicidade que toma conta do ambiente, é um mundo fantástico que faz a turma viajar na imaginação. Receber um presente da Sofia os deixou felizes, curiosos e muito dispostos a aprender”

Infância e representatividade

Construir referências. É disso que se trata essa “brincadeira”, praticada com muita seriedade pelas crianças. A professora defende que, desde a educação infantil, é não só possível, mas necessário, propor ações pautadas pelo respeito das diferenças e pela valorização da identidade de cada um. Considerando a educação como ferramenta essencial para a desconstrução dos preconceitos que ainda imperam na sociedade, as crianças podem sim ser pensadas como protagonistas de práticas que promovam a igualdade.

“É a possibilidade de formar cidadãos que respeitem o próximo, entendam as diferenças entre as pessoas, compreendam que são elas que compõem a nossa vida em sociedade, e dar a oportunidade às crianças de construírem uma imagem positiva de si mesmas, participando de ações afirmativas sobre suas identidades étnicas”, afirma Marina.

“Que elas levem essa aprendizagem consigo para a vida toda e repassem às demais pessoas que façam parte do seu convívio”

A iniciativa da Máquina de Raio-X da Igualdade reforça a possibilidade de dar vazão a projetos que levem em conta o potencial educativo de ideias simples, mas carregam em si um germe de mudança de percepção por parte dos alunos.

“O que eu queria dizer é que tudo isso acontece numa escola pública e que é possível. Não é fácil – não mesmo –, mas é possível!”, conclui Marina

Como inspiração, deixamos uma galeria com as fotos das crianças conhecendo e aprendendo com a Máquina de Raio-X da Igualdade.

Resumo

Alteridade, respeito, empatia. Tudo isso é fundamental para o desenvolvimento de um sujeito apto a ser e estar no mundo. Mas como ensinar esses conceitos na educação infantil? Conversamos com a professora Marina Bittencourt, que criou a Máquina de Raio-X da Igualdade.
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