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  • Publicado em: 08.10.2019
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Normalmente, quando alguém é visto como uma pessoa “múltipla”, “multifacetada”, estamos pensando na capacidade dela de fazer coisas. Veja como isto é importante, porque já assinala que estamos em um mundo que cultua o que as pessoas fazem, e não exatamente o que elas são.

Reduzir uma pessoa ao que ela faz é um ato de invisibilidade que pode passar desapercebido até para quem sofre o efeito desta cegueira, porque um “like” sobre o que fizemos é, neste século, uma moeda potente de reconhecimento, ainda que tão volátil que, no segundo seguinte, estamos angustiados pelo próximo.

Não vale a mesma coisa ser visto pela multiplicidade do que se faz. A real força está em ser visto pelo que se é, pelas várias partes que nos compõem, sem deixar nenhuma de fora.

Esta é uma das mazelas de uma sociedade que rotula as pessoas: fazer com que elas sejam vistas apenas como uma parte de si, como um resumo injusto de toda a complexidade da qual somos compostos.

Aí está a potência do livro “Longe da Árvore”, que acaba de virar documentário. Para mim, este livro contém um potencial de transformação social, de corações e mentes por todos os cantos do planeta, que faz dele o livro mais importante publicado em Psicologia neste século. O mérito, maiúsculo como suas mil e cem páginas, está em fazer o leitor reaprender a ver a diferença humana.

Vivemos com olhos não de ver, mas de julgar.

Os olhos que julgam são os mesmos que subtraem potenciais daqueles que acham que enxergam. Ainda mais quando as pessoas a serem vistas carregam consigo alguma característica que é vista como doença ou distúrbio, congênito ou adquirido ao longo da vida, físico ou mental. Andrew Solomon foi escutar mais de trezentas famílias com filhos muito diferentes daqueles que desejavam ter. Ele deu tempo para escutar bem, coisa que a ansiedade acelerada destes tempos tantas vezes nos impede de viver. Foram oito anos escutando gentes que são maçãs que caíram longe da árvore, que foram sentidos como espanto, horror, dor, vergonha e medo. Ao escutar estas pessoas e seus familiares, Andrew nos mostra como todas as emoções são reais no processo de celebração da diferença. E que, no final, todos engrandeceram as almas, sentindo-se numa envergadura maior.

Quem faz esta travessia do túnel escuro, que nos leva do preconceito à celebração da existência de um outro absolutamente estranho, não faz bem só ao mundo. Não é só disso que Andrew diz em seu livro, e que a diretora Rachel Dtrezin, mostra nas histórias retratadas no documentário.

Quem troca a lente do julgamento pela da empatia passa a ter outros olhos não somente para o outro, mas para si mesmo.

Pode se enxergar com menos crueza, pode ser um caminho para se amar de formas menos tortas. Aceitar o outro é aceitar a si – mas se, e somente se, este caminho for trilhado por inteiro. Enquanto deixamos de ver o outro como estranho, passamos a acatar nossas estranhezas. Cada um de nós tem sempre partes não integradas, não aceitas, deixadas de lado.

Somos todos, em algum nível, pessoas longe da árvore.

As raízes destas árvores aparentemente estranhas têm conexões subterrâneas, invisíveis aos olhos mais superficiais.  Há motivos de todas as ordens para que as marquises de nossos preconceitos se expandam em direção ao asfalto da rua, onde estão as pessoas longe da árvore. Ao trazermos gentes diferentes para o lado, lembramo-nos de momentos em que fomos soterrados por olhares que nos diminuíram, que nos acabrunharam e que fizeram com que sentíssemos ser menores do que somos. E isto imaginando que somos adultos. Imagine o resultado benéfico para um mundo inteiro de crianças serem autorizadas a manter, na adultez, o olhar inclusivo que naturalmente têm ao ver quem é distinto delas.

Imagine o que pode acontecer em um planeta marcado por guerras, exílios forçados em forma de refúgio, preconceitos de toda sorte dizimando populações inteiras. Há saída para um planeta que se desfaz todos os dias. Uma das reconstruções possíveis é do laço entre aqueles que estão do lado de fora do cercadinho da aceitação, com aqueles que detêm o privilégio de serem vistos, legitimados, reverenciados. Há terra fértil para que se construa este abraço entre as raízes das árvores longínquas. É algo que se transmuta do lado de dentro e do lado de fora. Atentos a como desdenhamos ou desenhamos um futuro para quem não é aceito, podemos operar no mundo que parece perdido. O encontro é a saída. A resiliência nasce da ultrapassagem de toda e qualquer estranheza, fazendo dela a antessala do encantamento. Que a árvore distante em mim saúda a árvore distante em você.

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Resumo

Nosso colunista Alexandre Coimbra Amaral faz mais um convite para conhecer a obra "Longe da Árvore", sobre filhos que não nascem como o esperado.
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