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Inclusão: conviver com a diferença forma crianças mais empáticas

Educação inclusiva beneficia crianças sem deficiência, diz estudo
Inclusão Istock
  • Publicado em: 03.09.2019
  • Atualização: 04.09.2019
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É um dia de aula comum numa escola da rede municipal em São Paulo (SP) onde Júlio é estudante. Atualmente no sétimo ano do Ensino Fundamental e com 12 anos ele se relaciona muito bem com pessoas mais velhas, mas tem dificuldades para lidar com colegas da sua idade. Isso acaba sendo uma barreira para que realize, por exemplo, trabalhos em grupo.

“Uma das nossas maiores dificuldades é encontrar uma maneira de fazer com que ele participe e se aproprie do convívio escolar”, explica Amanda Santana, professora de Atendimento Educacional Especializado (AEE) da EMEF Infante Dom Henrique localizada na zona norte da capital paulista.

Júlio é diagnosticado com paralisia cerebral. E, especialmente neste dia, esses colegas estão empolgados por causa de um passeio que a escola fará nos próximos dias. Júlio, apesar de também animado, encontra-se com uma dificuldade cotidiana: não consegue trocar de camisa, se recolhe em uma sala de aula e pede a ajuda de uma educadora. Ela pede que ele espere um pouco enquanto resolve alguns problemas referentes ao passeio e o deixa com alguns colegas. Quando volta ao espaço se surpreende: os colegas sem deficiência já haviam resolvido o problema ajudando Júlio a trocar a roupa.

Relatos como este são frequentes em escolas que atendem estudantes com e sem deficiência juntos. Uma situação – que a princípio pode parecer banal- mostra como este convívio pode ser positivo não só para as crianças com deficiência, mas também pode potencializar o desenvolvimento dos alunos sem deficiência. A pesquisa “Os benefícios da educação inclusiva para crianças com e sem deficiência” feita em 2016 pela ABT Associates e pelo Instituto Alana, organização de impacto socioambiental que promove o direito e o desenvolvimento integral da criança, comprova esta tese e detalha os benefícios da Educação Inclusiva para todas as crianças. 

Para o estudo, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática de 280 artigos publicados em 25 países. O trabalho demonstra que pessoas sem deficiência que estudam em salas de aula inclusivas têm opiniões menos preconceituosas e são mais receptivas às diferenças.

Mas, Educação Inclusiva não se trata de falar apenas de casos como o de Júlio e seus colegas. Quando você, leitor ou leitora, pensa em uma escola de qualidade, você considera a diversidade ou a inclusão como um critério? Quem são as pessoas que fazem parte de uma sala de aula ideal? Nesta escola que você imagina, há pessoas com deficiência? Se há, elas estudam na mesma sala dos demais estudantes? Quantos alunos e educadores são negros ou negras? Quantas são meninas e quantos são meninos? 

Os benefícios da Educação Inclusiva / reprodução

A pesquisa descreve as experiências educacionais dos estudantes com deficiência utilizando estas quatro categorias.

Quando escolheu a escola para seu filho Ricardo Santos, de 11 anos, Thereza Atayde considerou a diversidade um critério fundamental de seleção. Quando estudante da Educação Básica, a mãe e atriz frequentou duas escolas de classe média no Rio de Janeiro (RJ) e sentia falta da convivência com realidades diferentes na sala de aula. “Não tinha nenhum colega com deficiência na minha escola. Uma amiga tinha uma irmã com deficiência, mas apesar de não ter nenhum comprometimento intelectual ou motor que a impedisse de estar em escola regular, ela não estava estudando”, lembra.

Números da educação inclusiva

Falando de inclusão a partir da perspectiva  de pessoas com deficiência, a matrícula em classes regulares (que são as com alunos com e sem deficiência estudando juntos), cresceu de 896.890, em 2017, para 1.014.661 em 2018. Enquanto isso, o número de alunos nas “classes especiais” (onde há apenas alunos com deficiência), vem caindo a cada ano. Em 2017, eram 169.637 alunos nessa condição. Já em 2018, esse número reduziu para 166.615. No geral, as matrículas de pessoas com deficiência crescem anualmente. Há 1.181.276.  A rede privada de ensino responde por apenas 14% das matrículas na educação básica no Brasil.  

Fonte: Sinopses Estatísticas da Educação Básica do Inep 2016/2017. 

A professora do departamento de Educação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Marian Dias, acredita que os números representam apenas uma das facetas da Educação Inclusiva: “provavelmente, as pessoas tendem a identificar o tema da inclusão apenas com a questão da deficiência pois esta costuma ser a que mais causa estranhamento. Há uma negação diante da fragilidade que as pessoas com deficiências costumam representar socialmente. A ideia dominante é a de sermos fortes e perfeitos e o convívio ou a simples ideia de encontro com alguém que representa o oposto disso é assustadora”, comenta.

De acordo com a pesquisa, há quatro grandes benefícios da educação inclusiva para todos os estudantes:

  • Redução do medo das diferenças humanas, acompanhada por um maior conforto e consciência (menos medo de pessoas com aparência ou comportamento diferentes);
  • Crescimento da cognição social (aumento da receptividade aos outros, comunicação mais
    eficaz com todos os colegas);
  • Melhorias no autoconceito (aumento da autoestima, do status percebido e da sensação de pertencimento);
  • Desenvolvimento de princípios morais e éticos pessoais (menos preconceito, maior capacidade de responder às necessidades dos outros).

A professora Marian acrescenta que há alguns aspectos pedagógicos interessantes que devem ser considerados no processo de inclusão de qualquer aluno:” o que é ensinado (conteúdo curricular), como é ensinado (metodologia) e como é avaliado”. E reforça: “quanto mais alunos considerados em situação de inclusão estiverem em classes regulares, mais esses aspectos pedagógicos poderão ser repensados para toda a classe. Do ponto de vista da socialização, o encontro entre alunos e suas diferenças também é benéfico para a construção da personalidade, especialmente em uma sociedade cada vez mais intolerante”.

“As crianças sem deficiência interagem melhor com as crianças com deficiência do que os adultos”. A afirmação é de Amanda Santana, que há três anos como professora na escola EMEF Infante Dom Henrique, vem encontrando caminhos para fazer a inclusão acontecer na prática.

“As crianças sem deficiência tinham muita curiosidade em acessar a sala de recursos, que é um espaço onde há muitos materiais coloridos”, conta. Para resolver este problema, Amanda criou um grupo de estudo que acontece às terças e quintas feiras. “Neste grupo, as pessoas com deficiência trazem o seu ‘par avançado’, para acompanhar e construir conjuntamente a sua orientação de estudo”, explicou ao Lunetas.

O “par avançado” é uma pessoa sem deficiência que forma com ela uma dupla. Esta prática valoriza o conceito do aprendizado coletivo, fortalecendo um modelo de colaboração que aumenta as possibilidades de vivência inclusiva.

“O mais comum é que pessoas com e sem deficiência trabalhem em conjunto nesse grupo”, afirma a educadora. Para Edjane de Oliveira, 30, mãe de uma aluna do terceiro ano do Ensino Fundamental da escola, é necessário apoiar o processo de inclusão no espaço, mesmo que a filha não tenha nenhuma deficiência. “Esse tipo de iniciativa ajuda a diminuir o preconceito e é fundamental que as crianças aprendam desde cedo a conviver com o diferente”, defende. Luisa , de nove anos, corrobora a opinião da mãe e se lembra de experiências positivas como, por exemplo, as vividas em festividades da escola. “As danças e coreografias são adaptadas para as crianças com deficiência poderem dançar”, explica a estudante.

A Educação Inclusiva vem se fortalecendo no Brasil desde 2008, com aprovação da política nacional de educação especial na perspectiva inclusiva. Segundo dados divulgados pelo MEC – Ministério da Educação – em 2017. Entre 2009, primeiro ano de vigência da política, e 2017, o percentual de pessoas com deficiência matriculadas em classes regulares cresceu de 60,5% para 84,1%

*Nomes alterados para preservar a identidade dos estudantes.

Resumo

Crianças sem deficiência que estudam em salas de aula inclusivas têm opiniões menos preconceituosas e são mais receptivas às diferenças. Confira as experiências!
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