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Educação inclusiva: sem pluralidade na escola, não há paz

Por que a lógica da exclusão ainda é comum em tantas escolas? "Um mundo em que poucos cabem é um mundo que não tolera a paz"
Educação inclusiva iStock/Arte Lunetas
  • Publicado em: 19.07.2019
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“A escola não pode parar”. Essa foi a justificativa para não promover a inclusão de uma criança com deficiência. A escola não pode parar. Repito a frase não por descuido ou ênfase, mas pela necessidade de entrarmos em contato com a afirmativa no lastro do espanto.

A crença que me parece vir a reboque da inclusão é a de que a escola vai precisar parar para rever todo o seu modelo de ensino, seu projeto político-pedagógico, seu currículo, seu espaço, suas relações, sua prática. Pois bem, se o fazer escolar foi construído a partir da exclusão, se seu modelo de trabalho – seja ele público ou privado – teve sucesso a partir da perpetuação do preconceito, se as vivências em sala de aula não valorizam a empatia como ferramenta para acessar a riqueza da diversidade humana, como seguir adiante?

“A igualdade de condições para acesso e permanência na escola é um direito que deve ser garantido a todos e a cada um”

Isso já é o bastante para repensar e refazer a experiência das crianças com deficiência neste ambiente. Mas ainda tem mais. Como queremos dar conta dos desafios do mundo contemporâneo, permeado por incertezas, ambiguidades e complexidades, se subtraímos da educação as diversas possibilidades de ser e estar no mundo, limitando, empobrecendo e reduzindo a convivência?

Quem alega não poder parar, em algum momento, atropela. Por vezes, mata. Mata a criatividade, a inovação, a flexibilidade, a conexão, o respeito. Mata presente e futuro. Deixa um corpo estendido na passarela de moda, porque o desfile não pode parar. Esta continuidade irresponsável de padrões e normas que oprimem milhares de existências em nome do exigido, do cobrado, do seguro, é a mesma que responde pelo aumento assombroso de suicídios entre crianças e adolescentes nos últimos anos.

“Um mundo em que poucos cabem é um mundo que não tolera a paz. Um mundo que fere, que dói”

Em que momento fomos autorizados a hierarquizar vidas, apontando as que importam e aquelas para as quais não podemos parar? Quando foi que decidimos pasteurizar, medicar ou tornar invisíveis as diferenças que nos fazem únicos? Por que o ‘basta’ ainda é um sussurro de poucos, se, direta ou indiretamente, todos colhemos as mazelas deste projeto de mundo excludente e adoecido?

As frases sobre compaixão nos murais da escola me soam vazias de sentido. O dia do índio, o dia da consciência negra, a celebração da paz, os projetos de combate ao bullying: nada disso me parece ter significado se não impregnarmos o cotidiano da escola de uma convivência diversa e plural. Compaixão, igualdade, justiça não como metas, como objetivos finais, mas como premissas, pontos de partida na perspectiva da educação. Como consequência, um currículo que acolhe individualidades, um projeto político-pedagógico em que todos cabem.

“Lembremos que somente haverá um outro mundo possível quando, passo a passo, existir em nós e entre nós, um outro ser humano possível”, diz o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão.

“Esse novo ensaio de humanidade nos pede que não desperdicemos nenhuma vida, nenhuma chance. Todas as vidas importam. Se não pararmos agora, quando?”

Resumo

Em seu novo texto, nossa colunista Mariana Rosa reflete sobre o modelo excludente que ainda é prática comum em muitas escolas. "Um mundo em que poucos cabem é um mundo que não tolera a paz. Um mundo que fere, que dói", problematiza Mariana.
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