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  • Publicado em: 15.05.2018
  • Atualização: 16.05.2018
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Outro dia me dei conta, percebendo a puberdade do meu primeiro filho já batendo à porta do seu corpo, que somos mesmo discípulos do tempo. Às vezes desobedientes, é fato; deixamos de aprender com ele a mais evidente das mensagens. O tempo não nos espera, ele vive como sempre, com as mesmas regras, e cabe a nós adequarmo-nos a elas.

Meu filho me olhava, incompreendido pelo encontro com o meu quase-assombro. Era um destes momentos em que a consciência parece chegar fazendo um parênteses em tudo, abrindo espaço para alguma pergunta indigesta que ficará na mente por algum tempo. Eu consegui compartilhar o suficiente da vida com ele, até aqui? Pude ter jovens tardes de domingo travestidas de almoços de quarta e livros na cama na quinta à noite? Terei realmente vivido a releitura de mim a partir do encontro com ele?

Eu consegui compartilhar o suficiente da vida com ele, até aqui?

Os filhos chegam a nós com uma ampulheta nas mãos. Algo acontece em nossas vidas de coelhos de Alice, sempre correndo atrás de alguma ilusão para ganhar outra, que nos cegamos para aquela areia escorrendo pelos dedos batatudos de nossos bebês, de nossas crianças ou adolescentes. Ao não vermos esta ampulheta, não vemos que não vemos. E esta dupla cegueira nos convida a intuirmos que sempre estaremos de mãos dadas com a infância deles. E que, portanto, eles serão sempre os portadores das fantasias e dos brinquedos de nossos lares. Uma mentira que nos contamos para sobrevivermos às nossas rotinas insalubres, que nos fazem estar muito menos com quem mais nos importa.

Ao ver nossos filhos crescendo, somos levados para o quanto carecemos de escutar as leis mais inabaláveis do tempo. Há, sim, um sentido de urgência na experiência parental. Nós só temos o agora, que daqui a pouco já não mais estará entre nós, para viver a melhor conexão com nossos pequenos. O mundo vai chamando-os cada vez em sons mais altos, eles tratando de compor a poesia de seus destinos. Deixam de ser “nossos” para ser deles mesmos. Para, no final, descobrirmos que a grande ilusão é chamá-los de “nossos”.

Nós só temos o agora, que daqui a pouco já não mais estará entre nós, para viver a melhor conexão com nossos pequenos

Enquanto os filhos crescem, nós temos a possibilidade de ofertar-lhes proximidade, afeto e confiança. Fazemos tudo isto como se fosse uma grande cartilha, mas a real é que nós, os adultos, somos os aprendizes e eles, os mestres. Eles nascem sabendo da ampulheta que trazem às mãos. Não se afobam, apenas não desperdiçam a oportunidade de viver cada momento. Com nossos filhos podemos reaprender a presentificar a vida. Eles param para contemplar o tempo da vida, a novidade que aparece no percurso da rotina acelerada. Uma lagarta de fogo chega para visitar a porta da casa na hora de ir para o compromisso inadiável, mas eles sabem que será só aquela vez. A lagarta nunca mais estará ali, e por isso eles se detêm a observá-la.

E nossos filhos são como estas lagartas, que a cada fase da vida vão aparecendo unicamente diante de nossas pressas. Às vezes paramos o fluxo das nossas outras responsabilidades para estarmos com eles; em outras, dizemos “estou com pressa” e nos roubamos o direito de fruir o momento que eles nos ofertam.

Claro, não precisamos (e talvez nem queiramos) estar com eles todo o tempo. Mas ao vê-los crescendo, deveríamos sentir mais alegria e menos angústia ao sentir que suas infâncias já são, inclusive para eles, uma memória, um pretérito. Esta angústia nos diz algo, esta dor que sentimos é uma convocação para que estejamos mais ao lado deles, inclusive sendo nós aqueles que os chamam para contemplar lagartas de fogo. Para que, ao final, o coração flameje mais de amor vivido do que de uma triste nostalgia de um futuro que não chegará.

Resumo

Alexandre Coimbra Amaral fala para o pais que estão vendo os filhos deixarem a infância: "Ao vê-los crescendo, deveríamos sentir mais alegria e menos angústia ao sentir que suas infâncias já são, inclusive para eles, uma memória, um pretérito".
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