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‘Criança também sofre, só mudam os gatilhos’, diz Elisama Santos

Foto de uma mulher abraçando um menino e acolhendo uma criança que sofre. Ambos têm cabelos escuros e usam roupas coloridas.

Nem sempre ser criança é sinônimo de felicidade. Ao revisitar o passado, é possível identificar emoções mais difíceis de lidar junto de memórias alegres, brincadeiras e nostalgia. Quando adultos esquecem da carga emocional da infância, podem surgir frases como: “Isso não é nada!”, “Para de chorar”, “Você não sabe o que é difícil de verdade”, “Chega de mimimi”. Apesar de bem-intencionadas, essas expressões são cruéis, pois ensinam que, no caso de certos sentimentos, é melhor não falar, deixar para lá. Mas será que criança não sofre?

“Nós, adultos, temos uma dificuldade gigantesca de escutar as crianças, pois não queremos enxergar que criança sofre e não sabemos o que fazer com o que o sofrimento dela desperta em nós. E aí a gente deixa a criança sozinha. Criamos a falácia social de que a criança está sempre bem, não entende as coisas. Assim, mentimos para nós mesmos, pois se não sabemos lidar com nossas emoções, imagina com as das crianças? Porém, o sofrimento delas, o que elas sentem, é muito similar às emoções dos adultos. O que muda são os gatilhos”, explica a escritora e psicanalista Elisama Santos.

A briga com um coleguinha na escola pode ser tão dolorida quanto o término de um relacionamento, de acordo com a especialista. “No entanto, a gente perde as proporções, pois acreditamos que apenas os problemas dos adultos são importantes, válidos e merecedores de atenção. Problema de criança é bobagem”, completa. O grande prejuízo de não se importar com o sofrimento infantil é que nesse período a criança treina o que fazer com a frustração, a angústia, o medo, o desamparo.

É no contato com todas essas emoções presentes desde os primeiros anos que se cria o repertório para lidar com o mundo interno, dali em diante

O bê-á-bá das emoções

As emoções são o resultado de um universo de estímulos, que geram sensações físicas e emocionais. “Cada pessoa sente a emoção de uma forma diferente e isso a faz reagir às situações de forma individual. A capacidade de identificar e lidar com as emoções, tanto as próprias quanto as de outras pessoas, é o que chamamos de inteligência emocional”, explica a educadora e coordenadora do curso de Psicologia da Estácio, Sônia Prado.

Já que as emoções são inerentes à condição humana, saber nomeá-las é fundamental para agir. E na infância existe um terreno rico para aprender sobre isso. “Saber dar nome às emoções as acomoda num lugar específico para cada uma delas, além de ajudar a criança e o adulto a conhecer e desenvolver habilidades e ferramentas para lidar com elas. Quando dou nome ao que sinto, percebo como aquela emoção funciona comigo, como e aonde ela chega, como escuto, o que me acalma. Isso é essencial para entender que a emoção não vem para nos prejudicar, mas para comunicar algo, inclusive a angústia, a tristeza, e outras emoções difíceis”, completa Santos.

Emocionalmente inteligente

A inteligência emocional pode ser dividida em dois tipos: a interpessoal, que é o comportamento social, a empatia, a habilidade de “ler” outras pessoas; e a intrapessoal, que representa a capacidade de entender a si mesmo e se controlar. “Nossa inteligência emocional está diretamente relacionada ao entendimento dos nossos comportamentos e da sociedade, cujos pilares são: perceber as emoções, usá-las, entender e saber gerenciá-las”, explica Prado.

A base para a criação de uma boa estrutura emocional chama diálogo. “A conversa sobre sentimentos das crianças e os nossos, assumir os próprios erros, limitações e dificuldades ensina muito no desenvolvimento da inteligência emocional. A escuta cria espaços para que a pessoa que fala ouça a própria voz e possa se organizar internamente. É o espaço da criança olhar para si, de olharmos para nós mesmos”, explica Santos. O incentivo à brincadeira também é um recurso essencial na infância, pois é no brincar que o desenvolvimento, o aprendizado e a estruturação emocional acontecem.

A nossa educação não é uma condenação, ela é o início do caminho. Embora traga consequências, ela não nos aprisiona. Estamos sempre aprendendo. Mesmo a criança que não aprendeu na infância, ainda pode, mais tarde, desenvolver habilidades emocionais para lidar com ela mesma e com os outros, com o potencial de se transformar em um adulto emocionalmente saudável”, emenda Santos. Já que sempre é possível aprender, os pais podem ajudar e melhorar seus próprios processos para auxiliar os filhos nessa busca. Mas como fazer isso?

Segurando a mão da criança que sofre

“Eu costumo deixar meus filhos expressarem o que sentem. Desde as boas emoções, até as que julgamos ruins, como o ódio, por exemplo”, conta Patrícia Pascual, mãe de Juan, 16, e Manuela, 12. Segundo ela, em sua casa, as crianças sempre puderam chorar livremente e vivenciar todas as emoções. “Elas estão ali, precisam ser vividas. Claro, sem deixar extrapolar para a força física. Mas tento não abafar, não deixar esses sentimentos negativos agirem no corpo como somatização. Ficar de frente para o sentimento pode trazer um entendimento”, resume.

O que Pascual faz, em casa, está muito alinhado ao que indicam os especialistas. A escuta é uma forma segura de acolher a criança e ajudá-la a expressar seus sentimentos. “Não é querer resolver, é simplesmente estar presente. É ouvir e dizer ‘eu entendo, também me sinto assim’. Esse é o acolhimento na prática, muito além das teorias. É quando eu me disponho a estar aberto para escutar e para que a criança viva o sentir dela na sua complexidade, na sua integralidade”, orienta a psicanalista. Frases como “passou, está tudo bem” ou calar os sentimentos não são aconselháveis. Elas precisam ter o direito de sentir as emoções.

Segundo Santos, é importante também não levar as emoções infantis para o lado pessoal. “Nós aprendemos que o comportamento da criança determina que tipo de pai ou mãe nós somos, sem lembrar que tais atitudes são demonstrações de alguém que não está sabendo demonstrar de outra forma. Essa emoção faz parte da vida. Um outro ponto importante é lembrar que ninguém nasce sabendo. A gente fala para a criança: ‘não pode bater’, e está certo, temos que falar, mas o que ela faz com o coração acelerado, com os músculos tensos, o nó na garganta que a raiva traz, o que ela faz com a corrente elétrica que percorre o corpo, nessa hora?”, indaga.

As crianças não vão conseguir concluir sozinhas sobre como devem lidar com seus mundos internos. É esse o papel do adulto: auxiliar, dar a mão e guiá-la nessa descoberta.

“Demonstrar para a criança que a emoção dela é válida, que a gente não escolhe como se sente, mas escolhe como agir com o que sente”, diz Santos.

Essas escolhas vão criando repertórios que são singulares: o que funciona para um pode não funcionar para o outro.

O potencial da literatura

Conheça alguns livros que tratam de emoções e que podem ajudar na conversa quando a criança sofre:

  • As 5 linguagens do amor das crianças, de Gary Chapman e Ross Campbell
  • Disciplina positiva, de Jane Nelsen
  • Emocionário, por Cristina Núñez Pereira e Rafael R. Valcárcel

Sônia explica que a criança expressa emoções e sentimentos desde o nascimento e os pais logo identificam e decifram cada uma delas, porém a sociedade, com suas regras do que é certo e errado, vai inibindo suas expressões. “Quando nossos filhos brigam com o colega pois não querem compartilhar um chocolate, achamos que erramos de alguma forma na educação dele e o obrigamos a compartilhar esse chocolate. Provavelmente, estamos contribuindo para um adulto que irá camuflar suas emoções e sentimentos”, analisa a educadora.

Observar a criança, compartilhar situações similares, sem julgamentos, usar linguagem simples e empática e pedir ajuda na solução da situação vivida podem ajudá-la a se sentir segura em expressar suas emoções, de acordo com a coordenadora. E essa orientação dos adultos também deve ocorrer no ambiente escolar.

A escola como aliada

É na escola que se intensificam as relações, é onde as crianças aprendem a compartilhar e flexibilizar as emoções, é onde passam boa parte do dia, fazem descobertas, constroem vínculos afetivos. Então, o ambiente escolar deve se preocupar também com o emocional dos alunos.

“Os educadores podem e devem auxiliar as crianças a lidarem com suas emoções, valorizando os relacionamentos positivos e oferecendo ferramentas para desenvolver maneiras mais saudáveis para reagir a sentimentos, pensamentos e estímulos. Tirando o foco dos sentimentos e emoções negativas. A criança que se vê num ambiente seguro e acolhedor, desenvolve atitudes positivas e proativas, pois se sente estimulada e com autonomia para seguir em frente”, diz a educadora.

Segundo ela, promover atividades de reflexão direcionadas por um professor podem ajudar as crianças a falarem sobre sentimentos e emoções em sala. Isso pode ajudá-las a pensar a respeito de questões diversas e entender como seria o comportamento delas diante do mundo. No caso de Pascual, ocorreu uma situação na escola que a levou a exercitar com o filho a construção de uma base emocionalmente saudável. “Meu filho era pequeno, teve uma dificuldade na aula de futebol e foi rude com o professor. Ele sofreu as penalidades disciplinares no colégio e, no outro dia, meu marido o acompanhou para pedir desculpas ao professor. Ele errou e aprendeu com esse erro”, diz.

Para onde vão as emoções silenciadas?

Não falar sobre as emoções ou minimizar as dores das crianças pode trazer prejuízos emocionais consideráveis para elas, especialmente consigo mesmas. “As emoções silenciadas não desaparecem. Elas não vão sumir, elas vão seguir ali, ganhar algum destino. Na psicanálise a gente fala que elas viram sintoma. Então, às vezes vai virar uma briga, uma culpa no outro, uma doença, um autoflagelo ou mesmo uma relação muito ruim consigo mesmo”, esclarece Santos.

Muitos adultos que não tiveram como aprender sobre as emoções quando crianças podem ver as consequências na prática, segundo a psicanalista. “Como aquela pessoa vai lidar com a tristeza, a discordância, quando as coisas derem errado, consigo mesmo. É nesse ponto que vão ficar as principais consequências, é algo sutil, mas que vai guiar as interações com o mundo e atravessar a existência em todos os pontos”, completa.

“Considero que toda emoção deva ser acolhida. Eu jamais ignorei um choro do meu filho. Aos meus olhos podem parecer sem motivo, mas para ele tem motivo, e não é sobre o que eu penso, é sobre as emoções dele. Ninguém ignora uma amiga quando chora, a gente consola. O mesmo respeito e consideração temos que ter pelas crianças. Hoje tenho um garotinho de 4 anos que, quando alguém fala ‘não precisa chorar’, ele responde ‘não tem problema nenhum chorar’”, conta Vanessa Lima, mãe do Benjamin.

“A gente não tem curiosidade sobre as crianças, a gente tem certezas. E essas certezas atrapalham nossa curiosidade de tentar entender por que as crianças agem desse ou daquele jeito, o que elas sentem, como enxergam o mundo e como podemos auxiliar. A gente quer respostas, mas precisamos nos abrir às perguntas, mudar nossas perguntas. Assim auxiliamos a criança na construção desse repertório e de uma boa inteligência emocional”, conclui Santos.

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