Como conversar com crianças sobre El Niño e emergência climática sem assustá-las

O primeiro passo é acolher medos e dúvidas; depois, vale explicar o fenômeno e apresentar ações coletivas de prevenção

Vanessa Fajardo Publicado em 27.10.2026 Atualizado em 27.10.2026
Imagem de capa para matéria sobre crise climática mostra dua smeninas de costas vestindo uniforme escolar, mochilas e uma delas segura um guarda-chuva. As duas atravessam uma ponte em uma rua de terra batida.

Resumo

Alagamentos, secas, chuvas em excesso e calor extremo já fazem parte da rotina de muitas crianças, e o El Niño e as mudanças climáticas podem intensificar esses eventos. Especialistas explicam como conversar sobre o tema sem mentir, mas também sem causar pânico.

Quando a chuva alaga as ruas, o calor extremo transforma a sala de aula em um forno ou o rio transborda, os efeitos das mudanças climáticas deixam de ser apenas notícias distantes e passam a fazer parte do cotidiano das crianças. Como conversar sobre esses fenômenos sem provocar medo, mas sem esconder a realidade?

O primeiro passo é oferecer acolhimento, mas sem deixar de trazer explicações. Para Livia Ribeiro, sócia-fundadora da Reconectta, organização que criou e coordena o movimento Escolas pelo Clima, se uma criança se assusta e tem dúvidas sobre os eventos climáticos e os adultos respondem algo como “não é nada disso”, ela aprende que o que sente não merece crédito e que não vale a pena falar sobre este assunto.

Livia Ribeiro, sócia-fundadora da Reconectta, sorri para a câmera. Ela tem cabelos cacheados, usa brincos coloridos e uma camisa preta.
Livia Ribeiro, da Reconectta, destaca a importância de acolher os medos das crianças ao conversar sobre as mudanças climáticas.

“Acolher vem antes de explicar. Depois vem a informação verdadeira, no tamanho da pergunta que a criança fez, não no tamanho do medo do adulto”, diz. “El Niño é um fenômeno conhecido, estudado, com padrões que a ciência acompanha e que podemos explicar, assim como seu agravamento e as relações com a emergência climática”, complementa.

O El Niño é um fenômeno natural marcado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação da atmosfera e modifica os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do Brasil. Essas mudanças podem aumentar a probabilidade de determinados eventos extremos em alguns locais. Em 2026, o fenômeno ganhou força. Segundo o Painel El Niño de setembro, elaborado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e parceiros, a chance de que ele alcance intensidade muito forte entre outubro e dezembro passa de 95%, com seca e maior risco de incêndios no centro-norte do país e chuvas acima da média, com possibilidade de cheias, no Sul. Há indícios de que o episódio fique entre os mais intensos desde 1950.

O El Niño é natural, mas acontece hoje em um planeta mais quente, e as mudanças climáticas influenciam a intensidade dos eventos extremos. As atividades humanas, sobretudo pela emissão de gases de efeito estufa, provocam o aquecimento global, que altera o funcionamento do sistema climático. Com o planeta mais quente, as ondas de calor ficam mais frequentes e intensas, e a atmosfera consegue reter mais vapor d’água, o que pode favorecer chuvas mais intensas.

Uma conversa para cada idade, longe da ideia de ‘fim do mundo’

Com as crianças menores, Livia avalia que o diálogo funciona melhor se fica no concreto e no que está próximo. “A chuva que alagou a rua, o calor que deixou a sala de aula insuportável, o que a família fez naquele dia”, afirma. “Dos sete aos dez, a criança já liga causa e efeito e quer saber por quê, então dados e comparações podem entrar bem. Com adolescentes, o que funciona é a honestidade: eles percebem quando estão sendo poupados, e isso os afasta. O que mobiliza é participar de verdade”, sugere.

Livia diz que o adulto costuma oscilar entre dois extremos ruins: tranquilizar demais e mentir. “Dizer que nada vai acontecer é um conforto de curto prazo que cobra caro depois, porque a criança percebe a inconsistência e perde a confiança justamente em quem poderia ajudá-la”. A saída, segundo ela, é dizer que existem adultos estudando, monitorando e se preparando, e que aquela criança tem um lugar nesse cuidado.

Carla Solano, orientadora educacional da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo, recomenda basear as conversas com as crianças menores na importância da água, dos recursos naturais e do clima para a vida, criando uma base para que, mais adiante, as ações de cuidado com o meio ambiente façam sentido. “Aos poucos, é possível ampliar a conversa para temas como prevenção e proteção. Em todas as idades, é importante reforçar que existem formas de cuidado e preparação diante desses eventos, ajudando a criança a compreender a situação sem desenvolver a ideia de que se trata do ‘fim do mundo’.”

À medida que as crianças crescem, Carla acredita que é possível aprofundar a reflexão sobre aspectos sociais e coletivos, abordando questões como o motivo de algumas populações sofrerem mais com determinados eventos climáticos, a importância das políticas públicas e das ações comunitárias de proteção.

Ações coletivas contra a ansiedade climática

Para mudar o “estado emocional da conversa”, Livia recomenda encerrá-la com algo que se possa fazer. “Um gesto concreto, contextualizado, de preferência de forma coletiva e colaborativa. Pode ser aprender mais sobre o assunto, falar sobre com alguém, plantar uma árvore, começar a compostar seus resíduos, fazer um passeio na natureza, assinar um abaixo-assinado ou até participar de alguma manifestação.”

As escolas têm se mostrado aliadas no enfrentamento da ansiedade climática ao propor ações concretas e coletivas. Segundo a Reconectta, mais de 1.600 escolas de todo o Brasil participam do Escolas pelo Clima, uma comunidade de educação e ação climática.

“Quando a escola mostra que já há turmas medindo a temperatura do pátio, cuidando de horta e agrofloresta, plantando árvores, reaproveitando água, o cálculo interno da criança muda. Ela deixa de estar sozinha diante de algo gigante e passa a ver um problema com solução, no qual tem um lugar”, afirma Livia.

Ela conta que há escolas que começaram com iniciativas como composteira e hoje têm horta, agrofloresta, podcast e projeto de sombra no pátio. “O que impressiona não é o caso excepcional, é o quanto isso se espalha quando existe rede, formação e troca entre educadores. A educação ambiental climática não se sustenta como tema de uma aula ou de uma semana, precisa estar no currículo, no pátio, na gestão, na relação com o território e nas políticas públicas, porque é nessa presença contínua que a criança encontra o lugar dela.”

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