‘Clara e o homem na janela’: o livro como mediador de uma amizade

Uma homenagem sensível e delicada à leitura e aos vínculos que os livros podem proporcionar entre as pessoas e a própria vida
Divulgação/arte Lunetas
  • Publicado em: 26.04.2021

Chegamos devagarinho à história, primeiro sobrevoando um pacato vilarejo, aconchegante, bucólico. A sensação de paz e alegria predomina. A cada página, o leitor vai chegando mais perto de uma casa onde há vida pulsando: uma mulher lava roupas, enquanto uma menina brinca no quintal. A menina é Clara. 

Clara recebe um pedido de sua mãe para entregar uma encomenda a um calado senhor de uma certa casa grande. Como ele não sai de casa e não pode ver a luz, a cesta de roupas limpas deve ser deixada na soleira da porta. Apesar de seus sapatinhos vermelhos e da cesta que leva consigo, ela não é Chapeuzinho Vermelho.

Ao explorar as ilustrações, acompanhamos como a menina é tocada pela paisagem que percorre: a beleza do campo, a luz que há no dia, os pássaros pelo caminho, as flores. Em contraposição, há a expectativa de chegada a um lugar escuro e apartado: a casa do homem na janela. Por que ele vive em tão profundo silêncio e afastamento?

“Clara e o homem na janela” Com texto de Maria Teresa Andruetto e ilustrações de Martina Trach, o livro “Clara e o homem na janela” (Amelì) percorre idas e voltas da escuridão para a luz, caminhos semelhantes aos quais a vida exige que a gente atravesse para chegar a algum lugar. O encontro de Clara e o homem na janela, mediado pelos livros, nos ensina sobre a importância da interação com as pessoas e como isso pode transformar vidas. 

O senhor mora entre os livros, mas só esse fato pode não bastar, se as leituras não o levam para fora de si mesmo. É a partir das trocas que a transformação é possível. Ao oferecer um livro à Clara, inaugura-se uma amizade. A menina passa a visitá-lo mais e mais vezes, deixando roupas limpas e levando livros. Aos poucos, ela vai povoando esse homem de vida, com sua ingenuidade e astúcia de criança, o que será capaz de arrancar um homem de sua infelicidade.

Os livros, esse entreposto mágico entre Clara e o homem na janela, ao dizer das histórias reais ou inventadas de outras pessoas, ajudam o leitor a entender a própria história. Os livros nos ajudam a falar da vida, do que se viveu e não viveu, da coragem ou falta dela, dos desejos e do medo de vivê-los, oferecendo acolhimento para abandonar as pobres e covardes identidades construídas ao longo de toda uma vida de frustrações e sofrimentos.

* Texto escrito a partir do original publicado por Ana Carolina Carvalho, no site do Avisa Lá.

Resumo

Uma relação de amizade mediada pelos livros. De um lado, uma menina que carrega luz. De outro, um homem que vive na escuridão.
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