Bobo Gaiato: a tradição mascareira do carnaval de Alagoas

Crianças do povoado Tatuamunha, no município alagoano de Porto de Pedras, mantêm viva a cultura dos bobos que atravessa gerações
Foto Celso Brandão/Arte Lunetas
  • Publicado em: 14.02.2022
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Roupas e máscaras de diversos tamanhos, cores e formas cobrem mãos e rostos ao ponto de tornar alguém irreconhecível. Os bobos, expressão popular tradicional em referência aos brincantes de carnaval, exploram barro, goma de mandioca, papel e tintas para criar fantasias inspiradas em animais e outras invenções criativas. 

Durante a festa, essas criaturas pitorescas transitam entre o real e o imaginário e alteram a paisagem de Tatuamunha, povoado do município de Porto de Pedras (AL), que promove o encontro do rio com o mar no litoral norte. Moradores saem à porta para acompanhar de perto a magia inconfundível aliada a gaiatices e traquinagens dos bobos que, na primeira oportunidade, pedem uma ajuda de qualquer valor para contribuir com a confraternização ao fim do trajeto. 

O cortejo de bobos mascarados pelas ruas de Tatuamunha encanta a pequena Milena, 7, com suas cores, danças e as roupas usadas pelos brincantes no Carnaval. “Eu moro aqui desde que nasci e vejo o povo saindo de máscara na rua”, conta a menina.

O contato com a brincadeira lúdica e a aproximação das crianças com o processo de criação das máscaras ajudam a forjar identidades e construir sentidos de pertenças, pontua Hellen Caetano, doutoranda em antropologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “As crianças podem trazer traços dessas manifestações que geralmente fazem parte da história dos pais ou de pessoas com quem convivem desde muito cedo, o que passa a influenciar o modo de vivenciarem o lugar onde nasceram”.

“A cultura mascareira faz parte de quem elas são e contribui para moldar suas percepções de mundo, bem como os sentidos que elas atribuem às experiências que vivem”

“As memórias das crianças são construídas a partir das experiências vividas, o que potencializa e agrega novidades ao momento presente”, acrescenta a antropóloga Hellen. Ao participar de uma oficina promovida pelo projeto Bobo Gaiato, um grupo de jovens entusiastas dedicados a preservar essa tradição cultural, Ítalo, 6, foi conquistado pela brincadeira. “É muito legal, muito divertido”, diz o pequeno. A mãe dele, Joselia Maria dos Santos, 32, reforça como as máscaras sempre fizeram parte do imaginário do povoado e reúnem os carnavalescos em torno da festividade.

De geração em geração

Ao longo dos anos, a manifestação cultural que envolvia os moradores de Porto de Pedras (AL) na confecção de suas próprias máscaras desde a década de 1970 foi perdendo adeptos. Até que, no final dos anos 1990, o Mestre Gilberto da Silva, do povoado Tatuamunha, retomou a feitura dos adereços e envolveu a família toda no processo de produção: a esposa ficava responsável por fazer a goma; a filha dava cores ao objeto e o filho ajudava a produzi-las desde os 12 anos.

Arquivo pessoal

Com máscaras e adereços, Luciano Flor e seu filho João Lucas seguem os passos do Mestre Gilberto da Silva nas festividades do Bobo Gaiato

Hoje, aos 32, Luciano Flor passa adiante o legado que herdou do pai e a tradição recupera a sua força com os novos membros da família. O filho João Lucas, 5, neto do Mestre, “já bota a mão no barro querendo ajudar, bota a mão na cola querendo cobrir as máscaras de Bobo”, conta Luciano.

“O trabalho do meu pai está sendo divulgado e eu quero mostrar para todos que essa tradição não vai morrer”

Bobo Gaiato: o resgate da tradição

Para manter viva a tradição e fazer esse resgate da cultura local, os filhos do Mestre Gilberto da Silva e entusiastas da brincadeira das máscaras se organizam em Tatuamunha.

À frente do projeto Bobo Gaiato desde 2018, Thiago Souza, 30, colocou o bloco de volta na rua. Em 2019, a ideia foi ganhando forma até o grande dia dos bobos saírem em cortejo pela comunidade. 

O projeto também promove oficinas de elaboração de máscaras para as crianças do povoado. “A dinâmica é bem interessante porque a gente aproveita o espaço não só para fazer a máscara. As crianças se deparam também com as máscaras prontas, o que desperta o interesse delas”, explica. “Depois, a gente chama a turma para mexer no barro, vai colocando água na argila, para criar aquela massa para modelar, e os ensinamos a pintar”, completa o oficineiro.

Além do contato com as máscaras, as crianças ficam conhecendo um pouco sobre a trajetória do Mestre Gilberto e o aspecto sócio-histórico do artefato, que é a marca do Carnaval da região. No final do dia, o grupo costuma montar um bloquinho de carnaval para meninos e meninas brincarem. “Para perpetuar essa tradição, só faz sentido se a gente envolver as crianças. Assim começa toda a brincadeira, a folia”, diz Thiago.

A falta de apoio aos mestres e também seus falecimentos fragilizam a expressão da cultura popular na região. Embora acredite apenas na reinvenção das tradições, e não em sua “morte”, Thiago sente essa perda no sentido de que novos moradores passariam a não conhecer mais algo que, por um tempo, marcou fortemente aquele espaço e tempo. Daí a necessidade de fomentar essas atividades e proporcionar o apoio necessário para sua manifestação e continuidade.

O papel das máscaras no imaginário brasileiro depende do lugar em que seu uso aparece, pontua a antropóloga Hellen Caetano. “No caso do povoado Tatuamunha, o artefato está vinculado especificamente a uma festividade, possibilitando às crianças vivenciarem a experiência cultural não só no momento da brincadeira, mas também na elaboração das próprias máscaras, deixando a criatividade fluir.”

Para fazer a sua máscara em casa

Materiais

  • Barro 
  • Papel (jornais, revistas, livros escolares)
  • Cola da goma da mandioca 
  • Tinta óleo 

Modo de preparo

Pegar o barro em um barreiro; peneirar o barro dentro de um balde; depois, montar um molde com o formato da máscara, que pode ser inspirado em algum animal da fauna brasileira ou criar livremente. 

O papel vai cobrir toda a forma, sendo fixado com uma cola feita com a goma de mandioca, ideal para a fabricação das máscaras. A goma de mandioca vai ao fogo em uma panela; adicione água e mexa com uma colher até criar uma espécie de “papa”; tire do fogo e deixe esfriar. Quando estiver morna, inicia-se o processo de colagem em camadas de papel. Depois, é preciso esperar de dois a três dias para o molde com os papéis secar exposto ao sol.

Para finalizar a máscara, é preciso aplicar tinta óleo sobre o papel. Após a aplicação da tinta, deixe-a secar. O último passo, o da pintura, só requer imaginação e criatividade.

O Carnaval de 2022, por conta do aumento dos casos da nova variante ômicron e a vacinação infantil ainda em andamento, será cancelado. O projeto  Bobo Gaiato pretende inaugurar o “Memorial Gilberto da Silva” no espaço do Centro Cultural Bobo Gaiato, onde haverá exposição das máscaras e oficinas para crianças e adolescentes, ainda sem data definida.

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Resumo

Expressa em diferentes cores e formas, a tradição mascareira do carnaval e o cortejo dos bobos fazem parte da cultura de Tatuamunha, povoado de Porto de Pedras (AL), há gerações. Oficinas do projeto Bobo Gaiato ajudam a manter viva a brincadeira entre as crianças.
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