Carregando...

‘Quanto mais a criança é controlada, menos autônoma ela é’

O especialista no tema autonomia infantil nas cidades contemporâneas Glauber Piva conversa com o Lunetas e alerta: "precisamos devolver a cidade às crianças"
Autonomia infantil iStock
  • Publicado em: 27.11.2018
  • Atualização: 10.12.2018
por

– Tio, o que você está fazendo?
– Estudando.
– Estudando o que? Matemática, ciências… essas coisas?
– Não. Estou estudando sobre a relação entre as cidades e as crianças.
– Cidade, tio? Mas cidade não existe. Cidade é um lugar muito perigoso, só tem violência e roubo

O diálogo acima aconteceu entre o pesquisador Glauber Piva e o pequeno João Pedro, de dez anos, amigo de seu filho. “A cidade não existe!”. Hoje, ele entende essa afirmação como a coisa mais violenta que ele já ouviu. Glauber é cientista social e mestre em Políticas Públicas e Formação Humana. Para ele, a visão de cidade que impera na sociedade em nossos tempos faz com que ela se esgote em seus índices de violência urbana, como se ela não fosse nada além de um espaço a ser evitado e temido.

Para discutir o impacto dessa realidade no desenvolvimento das crianças, Piva conversou com o Lunetas sobre o tema “Infâncias na cidade contemporânea”. Mas, afinal, o que isso quer dizer?

Antes de mais nada, é preciso refletir sobre o próprio conceito de infância, e na importância de conjugar essa palavra sempre no plural, uma vez que não existe uma só definição do que seja uma criança.

“São várias as infâncias. Pensar na autonomia infantil nesse contexto é pensar em várias autonomias, vários recortes de pluralidade”, defende.

O próximo passo dessa discussão é refletir sobre o conceito de autonomia infantil. Para o especialista, o termo não é claro na cabeça de muitas pessoas, e muitas vezes interpretado como algo que colocaria as crianças em risco.

“Existe uma fetichização do que seja a autonomia, ao mesmo tempo em que ela é bem diferente de deixar a criança completamente solta na cidade”, afirma. De acordo com o Glauber, o modelo de cidade em que se costuma viver nas grandes metrópoles constrange as infâncias, pois as cidades não incluem a criança no planejamento urbano e nem se coloca como um lugar convidativo para se estar. Basta pensar em quantas crianças caminhando sozinhas você costuma ver na rua, sobretudo se você mora em bairros centrais de cidades de grande ou médio porte. E por que isso acontece? Uma série de fatores ajuda a explicar esse cenário. O primeiro deles é a falta de políticas públicas pensadas para isso.

“A criança, embora esteja no orçamento público, não aparece como tema nas campanhas políticas, e nem na aplicação prática dessas políticas”, pontua o pesquisador. Glauber é mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), e pesquisa as relações entre as cidades e as formas de expressão das crianças. Pai de Theo, 9, e Nina, 5, atualmente ele se dedica a estudar a relação entre a cidade contemporânea e as infâncias.

O que é “ser contemporâneo”?

Contemporâneo. Eis uma palavra usada com muita frequência, para adjetivar diferentes aspectos da vida social. Porém, nem sempre refletimos sobre o que ela representa.

Para Glauber, hoje em dia a noção de contemporaneidade está diretamente associada ao desejo de “privatização da vida”. Ou seja, ao fato de que as pessoas buscam cada vez habitar espaços privados, em detrimento do público. Morar em condomínios, estudar em escolas privadas, frequentar locais como shoppings, lojas e espaços culturais atrelados a marcas: tudo isso faz parte de um estilo de vida pautado pela valorização do que é privado.

“Como as crianças que crescem em condomínios percebem a cidade e a esfera pública?”, questiona o pesquisador. “Muitas crianças veem as ruas e avenidas como meros conectores entre espaços privados, como a casa e a escola, e não como lugar para se estar”.

“Para muitas crianças, o espaço urbano não é uma experiência tátil, porque elas não sentem a cidade com a sola dos pés”

O problema disso, segundo o cientista político, é que a noção de cidadania desse indivíduo vai se formando prejudicada por essa falta de pertencimento e conexão com os espaços de convívio comum.

Autonomia infantil e desenvolvimento cidadão

“Como uma criança que só vê a cidade pela janela do carro vai poder interferir e atuar na vida pública?” Essa é uma das perguntas que norteia o trabalho de Glauber e daqueles que interessam em analisar como a vida na cidade afeta o desenvolvimento de uma criança.

Para explicar o que isso significa, Glauber propõe um exercício de imaginação. “Visualize a lembrança mais feliz da sua infância. Como ela é?”. A partir desses elementos – onde se situa essa lembrança, com quem estamos, o que estamos fazendo – temos muitas pistas sobre quais são os valores que uma criança dá para suas experiências de vida e como ela vê o espaço em que vive.

“Muitas das memórias mais felizes das pessoas está associada a uma vivência autônoma, de brincar ao ar livre, longe da supervisão dos adultos”, explica.

“É na completa autonomia que somos mais potentes e por isso mais felizes. Quanto mais a criança é controlada, menos autônoma ela é””

Portanto, uma vivência plena da cidade, entendendo suas qualidades, suas falhas e suas faltas, proporciona à criança construir repertório de diversidade e pensamento crítico em relação ao contexto social, considerando que os pequenos têm um olhar atento e sensível a tudo que as cerca. Por que há pessoas morando na rua? Por que há bairros com mais parques e praças que outros? Quem são os privilegiados da cidade, quais são seus pontos fortes e fracos? Todas essas interrogações podem povoar a percepção infantil conforme ela se desenvolve, e soma positivamente em sua formação como cidadã e sujeito de direitos. Então, por que isso não é valorizado?

De acordo com o Glauber, não podemos nos esquecer que a noção de criança como um indivíduo que interfere na cultura é muito recente. “Criança sempre houve, mas infância nem sempre. A concepção de infância ganha força a partir dos séculos XVII e XVIII, portanto, a partir da estruturação de outra lógica de produção e de fortalecimento das cidades como centro da vida em sociedade”. O pesquisador relembra também a etimologia da palavra “infância”, que quer dizer “aquele que não fala”, ou seja, aquele cuja voz não é reconhecida.

“Assim, se a criança não é alguém que tem a fala reconhecida, não é alguém que participa daquilo que funda a política, que é a retórica. Assim, automaticamente, em nossa sociedade, as crianças estão impedidas de participar do debate sobre as coisas públicas”.

De acordo com esse pensamento que imperou por muitas décadas, a criança não era alguém ativo no jogo democrático. Hoje, porém, apesar de estarmos coletivamente longe do cenário ideal, os direitos da criança são percebidos e garantidos em lei, por documentos como o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e a própria Constituição Federal. Segundo a legislação, a criança deve ser  considerada prioridade absoluta, conforme o artigo 227 do ECA.

A lei da Prioridade Absoluta

É uma regra constitucional prevista no artigo 227 da CF e também com previsão no artigo 4º. Da Lei 8.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Segundo o artigo, “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

Muitas infâncias = muitas cidades

Uma questão crucial na discussão sobre autonomia infantil na cidade é pensar que, se enxergarmos a infância no plural, isso nos impõe algumas questões: cada um experencia a cidade de acordo com suas possibilidades de poder.

O exemplo que Glauber fornece para esse pensamento crítico é do abismo que divide a criança acostuma a circular pelo espaço urbano de carro, com janelas fechadas, e a criança em situação de rua, ou aquela que é submetida ao trabalho infantil nos faróis, por exemplo. Para ele, é importante pensar como a criança vê as outras crianças na cidade.

“A criança que tateia a cidade pela janela de um carro vê a diversidade lá fora – ou seja, tudo o que é diferente dela – como algo perigoso, que deve ser temido”

Segundo Piva, há um pacto social em torno das infâncias: invisibilizamos algumas em detrimento de outras. Para perceber isso, basta observar a relação das crianças da periferia, por exemplo, com a cidade. Em muitos desses espaços longe dos grandes centros urbanos, de menor poder econômico e portanto de menos oportunidades de acesso, as crianças circulam sozinhas pela rua apesar da falência do planejamento urbano.

“Há uma negação do direito à cidade como possibilidade, porque a própria possibilidade é vista como algo muito perigoso”

“Monocultura”. É dessa forma que Glauber define o estilo de vida que a condominizalização da vida impõe às pessoas. Ou seja, uma cultura sem diversidade, em que se convive com quem pensa igual e portanto não se confronta com a complexidade do mundo como ele é. Esse dado contribui para a chamada “indústria do medo”, em que as pessoas cada vez buscam se blindar em seus espaços seguros distantes da realidade.  “Quem mora em condomínios é sempre mais ou menos parecido, de classe social e instrução intelectual praticamente idêntica”, pontua o cientista social.

“Negar à criança a experiência da vida pública é negar a diversidade da vida”

iStock

“É na completa autonomia que somos mais potentes”, defende o pesquisador Glauber Piva.

O papel das famílias

Como equilibrar a necessidade de as crianças viverem livres, com espaço para se movimentar e descobrir, com a violência das ruas? Essa é uma questão que salta à vista quando o assunto é falar sobre infâncias na cidade. Parece uma equação impossível de resolver, considerando também que muitas vezes o medo dos adultos de deixar as crianças em espaços públicos é perfeitamente justificável, dados os índices de violência urbana. Porém, o que Glauber destaca nessa questão é a importância de entender a criança como uma responsabilidade compartilhada de todos – Estado, famílias e sociedade civil. Além disso, o pesquisador chama atenção para o fato de que as crianças são como termômetros que indicam se um cidade é saudável ou não.

“Percebo que as crianças nas cidades são como os canários nas minas de carvão. Se algo vai mal para elas é sinal de que o entorno urbano tem problemas. Se não cuidarmos disso coletivamente, propondo o envolvimento dos movimentos sociais, o comprometimento das escolas públicas e privadas para o “desemparedamento” das infâncias, das famílias que precisam desencastelar suas crianças e aceitá-las em sua plenitude agora, não como vir-a-ser, e, principalmente, dos governos locais, dificilmente vamos avançar”, defende.

“Entendo que é preciso iluminar esse problema, mas também considerar que não é apenas uma questão de cada família, mas uma situação mais ampla e que tem a ver com os acordos tácitos que nossa sociedade faz em torno de suas infâncias”, diz Glauber.

“Precisamos de uma série de pactos para devolver as cidades às crianças”

O que fazer?

Tornar uma cidade mais acolhedora, segura e atrativa para as crianças é torná-la melhor para todos e todas. No Brasil e no mundo, há muitas iniciativas de projetos que levam as infâncias em consideração desde o planejamento urbano. A revisão do Plano Diretor das cidades, por exemplo, é um dos caminhos possíveis. Com isso, podem ser criadas rotas seguras ligando equipamentos públicos, como museus, centros culturais, praças e parques.

Como exemplo de projetos bem-sucedidos que contemplam a autonomia das crianças na cidade, Glauber cita iniciativas como o Movimento Boa Praça, em São Paulo. Na Argentina, programas de mobilidade sustentável em ambiente urbano e metropolitano é regulada por lei. No vídeo abaixo, “Caminho escolar – Passos para a autonomia infantil”, as crianças comentam como gostariam que não houvesse tantos carros na cidade, e que preferem ir a pé para a escola.

“A Prefeitura de Jundiaí está dando um passo importante ao se aproximar da rede de cidade das crianças, cuja experiência de Rosário, na Argentina, é muito exitosa. Há muitas iniciativas cidadãs, desde grupos de famílias que assumem a responsabilidade pelo cuidado de praças de bairros, oferecendo às crianças a oportunidade de frequentar o sistema de espaços livres da cidade. Lembro aqui do Movimento Boa Praça, em SP), e de movimentos sociais dos mais diversos, como o Movimento Sem-Terra, que pautou suas infâncias já há alguns anos, o Vila Cultural, em Brasília, que há mais de 40 anos faz um festival de brincadeiras na asa sul do DF e muitos outros”, conta o pesquisador.

“Infelizmente, a maioria é de iniciativas isoladas. Se houver mais articulação e escala, o impacto certamente será muito maior”

 

Resumo

"Como uma criança que só vê a cidade pela janela do carro vai poder interferir e atuar na vida pública?", questiona o cientista social Glauber Piva, especialista no assunto autonomia infantil nas cidades.
Ir para o início
Alguma dica ou sugestão? Encontrou um erro? Clique aqui e compartilhe com a gente!

Tenha Lunetas no seu e-mail ou WhatsApp