Cansaço, mau humor e comparações constantes. Como driblar o feed infinito e melhorar a saúde mental da nova geração.
Se as pesquisas indicam que o feed infinito afeta a saúde mental da nova geração, o que fazer para mudar o cenário, domar o algoritmo e mediar o uso das redes sociais por adolescentes?
Noites sem dormir e tristeza profunda foram alertas que João Marcos sentiu durante o isolamento na pandemia, em 2020. Na época, com 13 anos, ele não conseguia sair do celular. “Eu fiquei fascinado pelo Tik Tok, com aquele feed infinito de vídeos e jogava muitos jogos online”, conta.
Sem poder encontrar os colegas e passear nas praças de Arapiraca (AL), o adolescente ficou recluso e viu seus hábitos mudarem radicalmente. “Eu tinha pouco contato com a internet antes da pandemia. Na escola, conversava e brincava normalmente. Depois, tudo ao meu redor ficou tecnológico. Desde as aulas até a conversa entre os parentes”, lembra.
A rotina hiperconectada o levou a desenvolver ansiedade e depressão. Enquanto os algoritmos desenhavam um caminho que parecia conveniente, ele se acomodava. “Eu não tinha mais vontade de aprender assuntos complexos, como as matérias de matemática. Passava noites acordado jogando Roblox e me viciei nas redes sociais. As notificações indicavam conteúdos que chamavam minha atenção. Ficava ansioso para saber o que era.”
O que aconteceu com João Marcos pode ser um efeito da realidade atual: uma geração de jovens sugados por redes sociais, com algoritmos que conduzem a atenção para trends, jogos, apostas e consumo.
Tudo isso faz sentido para a tese do psicólogo estadunidense Jonathan Haidt, autor do livro “A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais” (Companhia das Letras).
O autor apresenta uma observação global de que a infância e a adolescência mudaram, já que meninos e meninas estão menos no mundo real e mais no mundo virtual. Essa transformação estaria diretamente ligada aos problemas de saúde mental.
Apesar da ideia de Haidt servir atualmente como base de decisões políticas e sociais para a saúde mental de crianças e adolescentes, existem contrapontos. Pesquisadores da área da psicologia e desenvolvimento infanto-juvenil, como a psicóloga canadense Candice Odgers, entendem a teoria como uma das faces de um problema maior. Segundo Odgers, existe uma correlação entre a hiperconexão e os casos de saúde mental entre adolescentes, mas isso não seria necessariamente uma causa isolada. Além disso, faltam estudos científicos suficientes para embasar a tese. Outra problemática é culpar apenas o excesso de telas para o sofrimento de jovens, deixando de lado fatores como desigualdades sociais, falta de cuidado com a infância e pouco acesso a políticas de saúde mental.
O psiquiatra Arthur Caye, gerente do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), explica que é necessário ampliar o olhar para a relação Internet versus Saúde mental. Ele diz que as pesquisas atuais apontam caminhos mais complexos. “Não se trata de simplesmente dizer que redes sociais causam depressão. A questão é ter base científica para entender e trabalhar em cima dos caminhos que essa ideia maior aponta.”
Diante disso, ele enfatiza que a dinâmica do uso de telas tem dois lados. Quando o adolescente acessa redes sociais, os algoritmos aprendem rápido onde o usuário para, comenta, assiste até o fim, salva e compartilha. Isso infla a linha do tempo de conteúdos parecidos e pode ser bom e ruim ao mesmo tempo.
“É ótimo para música, esporte, estudo e criatividade. No entanto, fica complicado quando o conteúdo é tristeza, corpo, comparação, raiva, medo, isolamento ou humilhação”, diz o psiquiatra, que é especialista em comportamento de crianças e adolescentes.
Nesse sentido, é possível entender que existem duas faces de um mesmo modus operandi. “A rede é útil e cansativa. Ela ajuda a manter amizades, expressar identidade e encontrar grupos. Mas também cria uma sensação de disponibilidade permanente e uma mistura emocional que não ajuda na regulação”, pontua Caye.
Assim, é comum os adolescentes se sentirem perdidos, porque, sem mediação adequada, é alto o risco de o algoritmo se especializar em conteúdos que distorcem a realidade. As consequências vão desde ansiedade a comparações constantes, como demonstra o Mapa da Felicidade Real no Brasil 2026. A pesquisa revela que 77% dos participantes de 16 a 24 anos já compararam suas vidas com a de outras pessoas nas redes sociais. Além disso, 71% da mesma faixa etária ficaram tristes ou infelizes ao consumir conteúdo nessas plataformas.
Foi o que ocorreu com João Marcos nas primeiras experiências com redes sociais. “Me comparava muito com outros jovens da mesma idade mas de outro padrão de vida”, lembra.
Arthur Caye explica que as comparações que surgem entre os adolescentes não são apenas estéticas. “Eles se questionam quem tem mais amigos, quem sai mais, quem parece mais feliz e quem tem uma rotina mais interessante. O adolescente compara a sua vida com a vida editada dos outros, o que é uma comparação injusta.”
Quando João Marcos entendeu como funcionava o ciclo do algoritmo, conseguiu dar uma guinada na rotina. “Doeu muito começar a regular o excesso de redes sociais, mas comecei a usar o algoritmo a meu favor”, conta. Ele estimulou a pesquisa por conteúdos sobre idiomas e programação. “Aprendi outras línguas e a programar. Isso ajudou nos meus projetos sociais sobre educação. Hoje, uso menos as redes e estou mais envolvido em outras atividades.”
Esse processo foi possível porque João Marcos teve acompanhamento adequado com psicólogos dentro e fora da escola. “Busquei ajuda quando percebi que meus sentimentos não eram normais. Muitas pessoas ao meu redor falavam que pedir ajuda a um psicólogo era sinal de fraqueza, mas eu sabia que precisava de apoio”, lembra.
Em Caxias do Sul (RS), a artista plástica Rosane Castilhos, também tenta driblar o algoritmo, só que de outra forma. Mãe de Raquel, 17 anos, e Enzo, 14, a estratégia que adotou foi o diálogo e a mediação constante. “Conversamos sobre como as plataformas são feitas para prender a atenção e fazer a pessoa querer ficar cada vez mais tempo conectada. Achamos importante que eles entendam que isso não acontece por acaso”, conta.
Para dar certo, a família segue dinâmicas diferentes. Enquanto o que funciona com Raquel são os combinados de horários e tempo de uso, já que ela tem celular próprio, com Enzo a observação é mais focada no sentido do conteúdo acessado. “Enzo é autista, então as telas também podem ser uma ferramenta de interesse, de comunicação e autorregulação”, explica Rosane. “Ele gosta e interage muito quando está no celular, por isso observamos mais a função que aquele uso tem para ele do que apenas o tempo de tela”, diz.
A mediação adaptada para cada filho é uma tarefa difícil, mas não impossível. “O ponto principal é entender que o celular está na rotina, porém, não pode tomar conta do dia inteiro. É um trabalho árduo e nem sempre acontece exatamente como desejamos”, revela.
Raquel ainda conta com a ajuda dos pais para sair das telas quando está em casa. “Uma coisa puxa a outra. Quando vejo, já passei muito tempo. Se estou em casa, meus pais me chamam para fazermos outras atividades”, diz.
Já Enzo não acessa redes sociais e tem o suporte de transformar o conteúdo das telas em atividades lúdicas na rotina. “Procuramos oferecer conteúdos que façam sentido para seus interesses, respeitando suas necessidades, muitas vezes trazemos isso para o dia a dia e nas atividades artísticas e pedagógicas”, conta Rosane.
Os interesses do menino variam de acordo com datas comemorativas ou eventos. “Na época da Copa do Mundo, ele pesquisava as bandeiras dos países participantes. Ampliamos o tema e estudamos as capitais, os idiomas, algumas comidas típicas e ouvíamos músicas desses países”, lembra. Aproveitamos para transformar esses interesses em oportunidades de aprendizagem e de brincadeiras.”
Outra questão importante é perceber como Enzo reage depois de acessar um conteúdo. “Tento observar se o que viu, leu ou ouviu o desorganizou. Então, procuramos fazer com que ele não tenha mais acesso, se trouxer coisas boas, seguimos.”
Na casa de Rosane, além das conversas e da mediação, existe a oportunidade de fazer outras atividades. Raquel e Enzo aprendem a tocar instrumentos musicais, praticam esportes, cuidam dos animais de estimação e fazem passeios em família. “Gosto muito de alguns jogos e de olhar imagens na internet, também gosto de fazer outras coisas, principalmente tocar bateria”, conta Enzo.
Outro ponto essencial é o exemplo. “Como pais, tentamos não ficar tanto tempo nas telas e não usamos o celular como um objeto de barganha, porque isso pode dar mais valor para quererem usar”, diz Rosane.
Portanto, ao mesmo tempo que os dois assistem vídeos sobre ciência, música e arte, acessam conteúdos que estão em alta. “Eles querem entender do que todo mundo está falando. Acho que faz parte da convivência social deles.”
O psiquiatra Arthur Caye também reforça caminhos que levam à reflexão da relação com as telas e as redes sociais. Ou seja, não basta adotar regras rígidas, mas transformar o adolescente em observador da própria experiência. “Pergunte a ele o que gosta de acessar, qual conteúdo faz bem e o que deixa mal, em qual aplicativo passa mais tempo, qual horário é mais difícil parar de usar”, diz. “A autorregulação não nasce de sermão, nasce de perceber padrão.”
Foi justamente a autorregulação e a mudança de foco as melhores estratégias para João Marcos. Este ano, ele ganhou o concurso “Bem na Rede: competição para o uso saudável da tecnologia”, organizado pelo Juntô, iniciativa brasileira de saúde mental de crianças e adolescentes. A vitória foi dada ao projeto Libélulas, criado e desenvolvido por ele mesmo.
“O intuito é que o jovem responda perguntas para se autoanalisar e tenha uma autocrítica sobre como está usando o celular e o ciclo das redes sociais”, explica.
O Libélulas consiste em um formulário digital de 34 perguntas que faz o participante refletir sobre o tempo e a qualidade do uso de telas. “Ao final, eles recebem uma cartilha com técnicas de inteligência emocional para ajudar nesse uso excessivo. Não é uma terapia e não substitui um acompanhamento especializado, mas é um começo”, ressalta João Marcos.
Na tese de Jonathan Haidt, existem quatro principais recomendações para cuidar da “geração ansiosa” e reprogramar a infância e adolescência em tempos de hiperconexão. Ele cita:
Essas ações passam pela responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas e governos. Atualmente, existe uma tendência global de decisões políticas que caminham na mesma direção das recomendações de Haidt. Um exemplo são as leis de vários países que proíbem o uso de celulares nas escolas.
No Brasil, isso acontece desde fevereiro de 2025 com a Lei nº 15.100. Um estudo do MEC em parceria com Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Instituto Alana, com cooperação da UNESCO, analisou o cenário nacional após um ano da implementação da lei. Os resultados apontam melhoras significativas na socialização e saúde mental dos estudantes, com 97% dos diretores das escolas afirmando que a lei ajudou a aumentar a participação dos alunos nas aulas e 86% associam a restrição à redução da ansiedade entre os estudantes.
Outra questão é a regulação das grandes empresas para que adotem medidas de proteção de crianças e adolescentes em suas plataformas digitais. Segundo Arthur Caye, estamos vivendo um contexto mundial que tira a responsabilidade exclusiva das famílias e confronta as bigs techs. “A família é importante, mas não dá para colocá-la sozinha para enfrentar empresas globais, algoritmos opacos e sistemas que mudam a toda hora”, defende o psiquiatra.
A Austrália é um caso mais visível até então. No país, as empresas precisam tomar medidas para impedir que menores de 16 anos criem contas em suas redes sociais. Além disso, a União Européia discute medidas legais para o uso saudável de redes sociais por adolescentes. O Reino Unido, por exemplo, tem a proposta de proibir que essas plataformas ofereçam serviços a menores de 16 anos, além de adotar uma espécie de “toque de recolher” entre meia-noite e seis da manhã, que dificulta o acesso das contas em redes sociais de adolescentes com 16 e 17 anos. A intenção é aprovar as propostas no Parlamento antes do natal para que entre em vigor no primeiro trimestre de 2027.
O relatório “Crescendo no Mundo Digital”, do Child Mind Institute, aponta que empresas como a Meta e o Tik Tok já seguem regras como a idade mínima para usar redes sociais em seis países. Outra informação é de que ao menos 35 países estão em fase de proposta, anúncio ou debate, incluindo o Brasil, recentemente com a publicação do ECA Digital.
“Regular ecossistemas digitais para crianças e adolescentes é reconhecer que um ambiente que coleta dados, molda relações sociais e interfere em sono e pertencimento precisa ter regra, como qualquer outra coisa com características similares”, conclui Arthur Caye.
Essas regras para o uso das redes sociais e seus algoritmos chegaram a João Marcos não pelo Governo, mas por um processo que envolveu terapia e autoconhecimento. “Compreendi que a tecnologia avança e faz parte da vida, mas é importante saber usá-la de maneira positiva. Entendi também que tenho inteligência emocional e posso usar o algoritmo para coisas boas.”