Mesmo que haja consciência sobre a experiência nos ambientes digitais, especialistas alertam para a desigualdade de poder entre usuários e criadores das platafo
Pesquisa do Alana retrata a relação dos adolescentes com a internet. O levantamento aponta que eles reconhecem os impactos negativos e anseiam por melhorias. Mas, ao mesmo tempo, não se sentem capazes de fazer mudanças.
Mesmo que haja consciência sobre a experiência nos ambientes digitais, especialistas alertam para a desigualdade de poder entre usuários e criadores das plataformas
Os adolescentes querem internet melhor e reconhecem o ambiente digital como espaço de felicidade e diversão. Mas também demonstram uma visão crítica sobre os efeitos negativos da internet. Por isso, defendem mudanças nesse ambiente.
O Alana encomendou a pesquisa Adolescência sem Filtro à Agência Koga, que ouviu adolescentes de 13 a 17 anos. O levantamento mostra que 7 em cada dez adolescentes brasileiros querem uma internet melhor no futuro. No entanto, apenas 19% acreditam ser capazes de contribuir para essa transformação.
Os dados ajudam a desconstruir a imagem do adolescente como alguém simplesmente “viciado” em redes sociais e alheio aos próprios limites. Ao contrário, revelam jovens capazes de reconhecer os benefícios e os problemas do ambiente digital. Ainda assim, eles nem sempre se sentem preparados ou têm os meios para transformá-lo.
Os adolescentes percebem quando passam dos limites e criam, de forma autônoma, suas próprias táticas de proteção. Entre eles, 44% bloqueiam contas ou conteúdos e 32% fazem pausas.
Gabriela Barbosa, especialista em planejamento estratégico de comunicação do Alana, lembra que há um “teto nesse autocuidado individual”.

“Quando o adolescente cria sua própria defesa sozinho contra um sistema de design pensado por equipes inteiras de produto para que o tempo de tela seja maximizado, fica desigual por natureza”, diz.
Diante disso, Gabriela defende que as plataformas redesenhem seu padrão e ofereçam pausas, limites de tempo e controle de conteúdo. Assim, a navegação não dependeria apenas do esforço individual dos adolescentes, que estão com o cérebro em formação.
“É importante que eles consigam receber esse apoio de forma coletiva e haja uma responsabilidade dividida”, afirma.
A pedagoga e professora do Instituto Federal de Brasília (IFB), Josiane Santana Ribeiro, reforça a “assimetria de poder existente entre quem usa a plataforma e quem define sua arquitetura”.
“Não podemos exigir que um adolescente seja individualmente responsável por resistir a sistemas que foram tecnicamente desenvolvidos para disputar e reter sua atenção e, ao mesmo tempo, mobilizar sua necessidade de pertencimento e validação”, diz.
Para ela, não se pode confundir autonomia com capacidade de se proteger sozinho. Um adolescente reconhecer que algo lhe faz mal é importante, mas não resolve um problema estrutural.
Josiane defende a criação de um plano de soberania digital. Entre as ações, ela propõe laboratórios de inovação e cultura digital nas escolas.
Nesses espaços, crianças e adolescentes poderiam experimentar programação e tecnologias abertas. Assim, atuariam não apenas como consumidores, mas também como produtores de tecnologia.
“É preciso construir uma outra forma de conceber a tecnologia, numa perspectiva crítica e criadora para conseguirmos visualizar mudanças futuras. Sem essa compreensão, continuaremos com esse sentimento de que não somos capazes de construir uma outra internet numa perspectiva humana”, finaliza.
Os adolescentes querem internet melhor, mas também convivem com um sentimento de impotência. Como resposta a essa ambivalência, o Alana lançou o Prêmio Criativos 2026.
A premiação incentiva estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio a desenvolver projetos. As propostas devem contribuir para tornar a internet um espaço mais seguro e inclusivo.
Nesta edição, o prêmio reconhecerá seis projetos. As iniciativas escolhidas receberão R$ 12 mil, mentoria para o desenvolvimento das ideias e uma viagem para Recife (PE).
Na cidade, os adolescentes conhecerão de perto iniciativas brasileiras de tecnologia e de produção audiovisual. O prazo das inscrições segue até 24 de setembro. Os interessados podem se inscrever neste link.
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