A decisão de ser mãe pela via da adoção sempre foi uma certeza para a terapeuta ocupacional Carolina Rachel Rabitto de Souza, que pela atuação profissional já conhecia de perto a realidade de crianças mais velhas à espera de uma família vivendo em situação de acolhimento institucional.
Quando ela iniciou o processo de habilitação, há cerca de dez anos, quase ninguém falava sobre adoção de crianças maiores. Seu filho chegou com 8 anos e Carolina descreve os primeiros meses como uma “travessia”, marcada por aproximações lentas e construção gradual de vínculo. “As pessoas imaginam algo mágico com sininhos tocando, mas muitas vezes é um encontro entre desconhecidos que vai transformar radicalmente a vida de todos”, afirma.
A adaptação da nova família levou um tempo. “É um encontro de histórias, de lutos e de dores que precisam ganhar novos significados.” Para ela, tornar-se mãe de uma criança maior também exige lidar com ambivalências mais explícitas, já que o filho chega carregando memórias, afetos e vínculos anteriores. Ao longo dessa trajetória, Carolina aprendeu que maternidade e filiação não se constroem apenas desde o nascimento. “Se não é um bebê que faz uma mãe, é um filho”, resume.
Recentemente esse tema ganhou visibilidade com Tia Milena, uma das participantes da edição 2026 do Big Brother Brasil, exibido pela TV Globo, que morou em um abrigo com sua irmã gêmea durante a infância. Ela aproveitou sua participação no programa Mais Você, da apresentadora Ana Maria Braga, para fazer um apelo: “Gente, vamos adotar crianças maiores, por favor. Vocês ficam na fila de adoção milhões de anos, eu sei que é difícil, mas se você adota, você vai amar, cuidar, é seu.”
O que dizem os números
Hoje, o Brasil possui 6.200 crianças e adolescentes aptos para adoção, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Desse total, apenas 824 têm até 4 anos de idade — enquanto a maior parte está concentrada nas faixas entre 12 e 16 anos. Do outro lado da fila, há 32.106 pretendentes habilitados à adoção.
Mitos e preconceitos ainda afastam muitas famílias da adoção de crianças maiores e adolescentes, contribuindo para o descompasso entre o perfil desejado pelos pretendentes e o das crianças disponíveis para adoção. Entre as ideias equivocadas mais comuns estão a de que bebês seriam uma “folha em branco”, mais fáceis de “moldar”, ou de que apenas crianças pequenas conseguiriam criar vínculos afetivos profundos com a nova família.
A psicóloga Mayra Aiello, pesquisadora da temática da adoção, observa, porém, uma mudança gradual nesse cenário. Segundo ela, os pretendentes têm flexibilizado mais o perfil desejado: se há cerca de dez anos a maioria aceitava crianças de até 2 ou 3 anos, hoje muitos já consideram a adoção de crianças de até 8 anos.
Mayra ressalta que todas as crianças — inclusive os bebês — possuem memórias, marcas e uma identidade própria que precisam ser respeitadas. A diferença é que as maiores conseguem expressar e narrar sua própria história. Sobre a criação de vínculos, ela reforça que esse processo acontece de forma gradual e cotidiana, assim como na parentalidade biológica, nas pequenas experiências compartilhadas do dia a dia, como brincar, fazer refeições juntos e construir uma rotina de afeto e confiança.
Crédito: Evelyn Angel
Ela critica a ideia de que há um “instinto natural” que garanta essa conexão, e acredita que os vínculos são construídos por um processo lento que exige disponibilidade emocional e tempo para se consolidar. Porém, é preciso criar essas conexões: “Somos programados biologicamente para nos vincularmos às pessoas. A gente precisa criar essas conexões”, diz.
‘Doulas de adoção’
Quebrar esses estereótipos é hoje parte do trabalho de Mayra, que criou em 2019 o Instituto Doulas de Adoção, logo após a adoção de sua filha Maria, de 9 meses. Ela atuava como psicóloga em um espaço de parto humanizado e quando decidiu adotar uma criança junto com o seu companheiro, percebeu que as doulas de parto com quem convivia não entendiam nada sobre adoção.
“Um nascimento respeitoso e um puerpério com acompanhamento é algo que sempre foi claro para mim na parentalidade biológica”, conta Mayra. “Mas vi que na maternidade por meio da adoção havia muitos medos e preconceitos”.
Enquanto ‘doula de adoção’, ela acompanha as famílias que estão no processo de adoção ou que já receberam seus filhos e filhas, acolhendo angústias e amparando as dúvidas. Um dos fantasmas das famílias adotivas é em relação à curiosidade por suas origens e sua ancestralidade, o que não pode ser negado, segundo ela. “Precisamos saber que a família biológica e a família adotiva vão coexistir na identidade, na fisionomia da criança. A criança adotada tem direito de saber a sua história.”
‘Adoção não é caridade, é via de parentalidade’
Pensar a adoção enquanto gesto de caridade é um dos preconceitos intrínsecos do processo. Um “gesto bonito” ou um ato heroico coloca a criança em uma posição de dívida, quando, na verdade, a “sorte” é dos pais por terem a oportunidade de exercer a maternidade ou paternidade, como reforça Mayra.
O sucesso das relações depende das famílias terem disponibilidade de construir o afeto entendendo que a criança vem com uma personalidade que não está “cravada em pedra.” “Acredito que ao longo da vida até o dia da nossa morte, estamos nos desenvolvendo, mudando, aprendendo e construindo. E a infância e a adolescência são janelas de oportunidades de mudança muito maravilhosas.”
‘Encontrar famílias para as crianças, e não o contrário’
Quem vive a experiência da adoção pelo olhar dos filhos adotivos defende que o tema seja tratado com menos romantização e mais cuidado, especialmente quando envolve crianças maiores e adolescentes. Larissa Alves da Silva, cofundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas, acredita que ainda que é preciso ampliar o debate sobre a prevenção das situações que levam à necessidade da adoção.
“Seria um modo de diminuir a fila das crianças disponíveis para a adoção. O foco dela, aliás, deveria ser o de encontrar famílias para as crianças, e não o contrário. Esse deslocamento da frase muda tudo.”
Crédito: Arquivo pessoal
Adotada ainda bebê, Larissa conta que sempre soube de sua história, mas o tema permanecia “velado” dentro de casa. “Tinha pouca referência sobre o que significava ser adotada”, afirma. Foi apenas na vida adulta, ao encontrar outras pessoas adotadas, que começou a perceber experiências e sentimentos em comum que resultaram na criação da associação.
Ela diz que a demora no processo da adoção é saudável porque precisa haver uma boa qualificação dos pretendentes. Larissa salienta que a criação dos vínculos não é instantânea, é preciso se lembrar disso especialmente nos casos de crianças maiores e adolescentes. “Essa construção não se dá só com bebês, assim como eu construo relações no geral. Por que com a criança crescida é um tabu?”, questiona. “Quem na nossa sociedade não passou por traumas, problemas e questões complexas?”
A proporção de casos de devolução de adotados é maior à medida em que se aumenta também a faixa etária, com destaque para devoluções de adolescentes com até 15 anos de idade, segundo o Diagnóstico sobre a devolução de crianças e adolescentes em estágio de convivência e adotadas do CNJ. Em 2019 foram identificadas 2.198 crianças e jovens com pelo menos um registro de devolução.
