Racismo e bullying na escola: os impactos e como combater a exclusão

Dados revelam que o racismo e o bullying afetam a maioria dos alunos; entenda como o letramento racial e o apoio jurídico podem proteger o direito à infância.

Ylanna Pires Publicado em 03.03.2026
Foto em preto e branco mostra criança sentada sozinha em uma gangorra.

Resumo

O racismo e o bullying atingem um em cada quatro adolescentes e 63% das crianças na primeira infância. Entenda como o silenciamento e a falta de representatividade barram o direito ao pertencimento e quais mecanismos legais as famílias devem acionar.

A escola é o primeiro grande ensaio para a vida em sociedade. É ali que as crianças descobrem como o mundo as enxerga e, muitas vezes, é onde sentem as primeiras dores da exclusão. Dados do levantamento “Panorama da Primeira Infância” (2025) revelam que o racismo é visto como um problema comum por 63% dos responsáveis, enquanto pesquisas da Opas/Unicef (2026) apontam que um em cada quatro adolescentes na América Latina sofre bullying sistemático.

Essas violências convergem para uma mesma ferida: a negação da identidade. Isabel Costa, que vive em Manaus, sentiu isso no silêncio da filha de 4 anos. “Eu demorei a entender por que ela começou a rejeitar o próprio cabelo”, conta. “Só quando percebi que os colegas se recusavam a dar a mão para ela nas brincadeiras é que o chão caiu. O mundo estava dizendo para a minha filha, antes de ela saber ler, que ela não pertencia àquele lugar.”

O racismo na primeira infância

O racismo na infância não se manifesta apenas em ofensas diretas, mas em silenciamento e ausências. Para Vivian Alboz, doutora em Educação e diretora pedagógica da Educação Infantil da Escola Lourenço Castanho, a escola reflete a sociedade e, sem um letramento racial ativo, os educadores naturalizam agressões. “Como a escola é o local que as crianças ocupam por excelência, elas trazem para dentro aquilo que presenciam em falas familiares, no campo de futebol ou na falta de representatividade. Se os educadores não tiverem letramento racial, irão olhar de forma natural para relações racistas, sem intervir para desconstruí-las”, explica Vivian.

Na prática da Educação Infantil, o racismo aparece de forma sutil: é o “ser feio” atribuído ao cabelo ou à pele, a recusa de sentar ao lado ou de compartilhar um brinquedo. Gabriela Kogachi, diretora pedagógica de Educação Infantil e Anos Iniciais — pós-graduada em Convivência Ética e Educação Inclusiva —, alerta para a importância da mediação imediata. “Um currículo que inclui referências negras e indígenas amplia o repertório social. Se a criança só vê pessoas negras em papéis de inferioridade, ela naturaliza isso. É preciso que ela se veja representada em obras de arte, na ciência e na literatura como um espelho transformador”, defende Gabriela.

A falta de profissionais negros e indígenas em cargos de diretoria e docência também cria um vácuo de mediação. “Quando os agentes educativos não são racializados, a vivência dos alunos negros acontece com pouca ou nenhuma mediação educativa quando ela se faz necessária”, reforça Kogachi.

A engrenagem do bullying: quando o grupo escolhe um alvo

Se o racismo atinge a identidade racial, o bullying encontra na diferença — física ou cognitiva — o alvo para a segregação. Em Natal (RN), Alberto Dantas viveu isso com o filho, uma criança com deficiência (PCD). “O bullying era o isolamento. Ele nunca era convidado para o futebol ou aniversários. As crianças reproduzem a exclusão que veem; se a escola não integra o aluno de verdade, o grupo entende que a diferença justifica o deboche”, relata o pai.

Celina Fernandes, coordenadora de apoio à vida escolar e psicanalista, explica que o bullying não é uma ação isolada. “Ele é uma ação repetida e tem um contexto de dinâmica de grupo. Geralmente é movido por um sentimento de alguém em relação a outra pessoa — inveja, raiva ou vontade de ser o outro — que leva um grupo a agir de forma sistemática no desrespeito”, analisa Celina.

Para a coordenadora, o bullying exige da escola um trabalho de investigação profunda. “Precisamos identificar quem está contra quem e quais dinâmicas de poder estão se dando ali. Muitas vezes, o estudante participa de uma situação de violência por medo de ser excluído do grupo. É preciso fortalecer a autonomia moral desse jovem para que ele consiga dizer ‘não’ ao que não condiz com seus valores”, completa Celina.

A “fobia escolar” e os sinais do corpo

A psicóloga escolar Andressa Belarmino, que atua na rede pública, destaca que as crianças nem sempre têm consciência do sofrimento, mas o corpo fala. “Vemos o que chamamos de queixas somáticas: dores de cabeça ou de estômago que aparecem apenas nos dias de aula. É o início de uma fobia escolar motivada pela exclusão”, explica.

Segundo Andressa, o acompanhamento deve ser integral: “Quando um adolescente radicaliza o comportamento ou se isola, precisamos investigar se ele está vivendo uma situação dolorosa na família ou em outros coletivos. O sofrimento se manifesta na mudança de comportamento: parar de querer ir à escola, ficar de cabeça baixa na sala ou deixar de interagir. O papel da psicóloga é ajudar esse aluno a tomar consciência do que sente para poder elaborar esse sofrimento.”

O caminho da reparação: por onde começar?

A mudança no ambiente escolar exige que as famílias ocupem seu espaço de direito, saindo da passividade e cobrando ações estruturais. No caso de Isabel, em Manaus, a transformação não veio apenas de uma conversa informal. Ela solicitou uma reunião com a diretoria e exigiu que o episódio de exclusão na brincadeira de roda fosse registrado em ata. Isabel passou a monitorar se o letramento racial da escola chegava à ponta: “Eu pedi para ver o cronograma de formação dos professores e funcionários, inclusive da portaria, porque o tratamento ali já era discriminatório”, conta.

Alberto, em Natal, percebeu que o isolamento do filho PCD exigia o suporte da rede de proteção. Ele buscou a mediação do Ministério Público para garantir que a escola cumprisse a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). O adolescente não mudou de escola, mas a escola precisou mudar sua postura sob supervisão técnica. “O meu papel foi mostrar que a escola estava sendo omissa. Quando a rede de apoio entrou com os círculos de justiça restaurativa, os colegas começaram a ver meu filho além da deficiência”, relata o pai.

Como as famílias podem agir e se proteger

Para além do acolhimento emocional em casa, existem mecanismos legais e passos administrativos que as famílias devem seguir para garantir a segurança dos filhos:

  • Documente tudo: em casos de racismo ou bullying, registre o relato da criança (pode ser um vídeo ou texto) e envie um comunicado formal à escola por e-mail, solicitando uma reunião presencial. Evite resolver apenas via WhatsApp; 
  • Exija o Plano de Ação: a escola tem o dever de apresentar quais medidas pedagógicas serão tomadas com o grupo agressor e como será o acolhimento da vítima. Não aceite o “já conversamos com eles” como solução final;
  • Solicite a Ata da reunião: toda conversa com a coordenação deve ser documentada em ata, assinada por todos os presentes, com cópia para a família;
  • Notifique as instâncias superiores: se a escola for omissa ou tentar minimizar o crime, a família deve procurar o Conselho Tutelar ou a Promotoria de Justiça da Infância e Juventude (Ministério Público) da sua cidade.

O direito de pertencer

Superar o racismo e o bullying exige que a escola se assuma como um espaço de convivência ética, onde a autonomia moral do estudante seja desenvolvida para que ele saiba identificar e rejeitar a violência. Como define Celina Fernandes, a resposta é a construção de um ambiente de confiança.

O trabalho conjunto entre família e escola é o que permite identificar dinâmicas de exclusão que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia. A escola que educa para as relações etnicorraciais e para a inclusão plena é aquela que fortalece a autoestima de quem é alvo e desenvolve a empatia do coletivo. Garantir que cada criança, independentemente de sua cor ou condição, tenha o direito fundamental de ser exatamente quem é, é o único caminho para uma infância segura e saudável.

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