Material Escolar 2026: estratégias para economizar na lista

Um guia para escolher melhor e entender os seus direitos

Ylanna Pires Publicado em 26.01.2026 Atualizado em 26.01.2026
Imagem de capa para matéria sobre reutilização de material escolar mostra uma sacola de papel com vários objetos de escola como lápis e canetas.

Resumo

Como os preços sobem mais rápido do que muita gente percebe, planejamento e informação fazem diferença. Entenda o que a escola pode (ou não) pedir e veja estratégias para economizar de verdade em 2026.

Imagine ser mãe de duas crianças, abrir a lista de material escolar e perceber que você vai gastar quase R$ 2 mil com itens que, na sua cabeça, sempre foram “do básico”. Foi exatamente assim que Elisa Souza, mãe e cabeleireira autônoma em Belo Horizonte (MG), descreveu o início de 2026.

Ela levou seus filhos Lucas, 9 anos, e Yasmin, 13, para comprar o material da volta às aulas. No corredor da papelaria, a conta cresceu sem pedir licença: um caderno aqui, uma caneta ali, um pacote de folhas acolá. No caixa, veio o choque.

“Quando a moça falou o total, eu travei. Deu quase mil reais para cada um. Eu saí da loja com a sensação de que eu tinha feito algo errado, mas eu só estava tentando garantir o básico”, conta Elisa.

Como mãe solo, ela faz escolhas o tempo todo — e, ainda assim, janeiro costuma apertar. “Se eu pago tudo de uma vez, eu atraso outras contas. Se eu parcelo, eu começo o ano devendo. E aí parece que eu corro atrás do prejuízo o ano inteiro”, desabafa.

No início do ano, muitas famílias vivem esse mesmo dilema, especialmente porque a lista de material costuma chegar junto com outras despesas típicas do mês de janeiro.

Por que janeiro pesa tanto?

A lista não chega sozinha. Ela costuma cair no mesmo período de impostos, contas acumuladas das festas e ajustes do começo do ano. Ou seja: mesmo quando a família se organiza, o volume de gastos de uma vez só dá a sensação de que a renda não acompanhou.

O economista Thiago Martins, especialista em microeconomia (a economia do dia a dia, dentro de casa), explica esse efeito: “O problema não é só o preço subir. É o preço subir e concentrar tudo no mesmo mês. Quando muitas contas aparecem juntas, a família perde fôlego e acaba escolhendo o ‘menos pior’ — às vezes com juros.”

Segundo ele, essa concentração cria um risco silencioso: “A pessoa parcela para caber hoje. Só que, lá na frente, as parcelas viram uma segunda conta fixa. E, quando chega o próximo aperto, ela já começa atrás.”

O que significa “inflação” — e por que o material escolar parece mais caro?

Quando a gente fala que “a inflação aumentou”, nos referimos a uma espécie de termômetro que tenta medir como os preços sobem, em média, no país. É esse índice de preços que determina como fica a vida no mercado, na farmácia, nos gastos das famílias brasileiras.

Agora, quando a cesta de “volta às aulas” sobe mais do que esse termômetro médio, famílias com crianças em idade escolar sentem uma pressão maior do que o restante da população percebe.

Um levantamento da consultoria Rico mostrou que a cesta de volta às aulas subiu 5,32% em 2025, enquanto a inflação média do país no mesmo período ficou em 4,26%. Em cinco anos (de 2021 a 2025), a diferença cresce: a cesta escolar acumulou 39,34%, enquanto a inflação geral somou 33,13%.

“Subiu mais do que a inflação”: o que isso quer dizer?

Se a inflação média do país sobe, por exemplo, 4%, significa que, em geral, as coisas ficam um pouco mais caras.
Se o material escolar sobe mais do que isso, a família sente um aperto extra — porque justamente um gasto essencial (a escola) cresce acima do “normal” do resto da economia.

“O orçamento precisa mandar na compra”, diz especialista

A planejadora financeira Jana Gomes defende um começo simples, mas firme: teto e lista — antes de qualquer compra.

“Hoje, com a facilidade do cartão de crédito, nos acostumamos a deixar as demandas pautarem o orçamento. Quando, na verdade, deveria ser o contrário: o orçamento é que precisa pautar o que é possível atender”, afirma.

Na prática, ela sugere dois passos:

  1. Definir um teto realista (quanto dá para gastar sem estragar o mês)
  2. Fazer uma lista de compras enxuta, sem “extras” no impulso

“Sabendo quanto tenho para gastar e o que preciso comprar, eu pesquiso, comparo preços e me apoio na lista, sem deixar que coisinhas aleatórias entrem no caminho”, diz.Elisa tentou fazer isso em casa. Ela separou o que já tinha, testou canetas, reaproveitou mochila e estojo. Ainda assim, dentro da loja, as tentações apareceram. E elas tinham nome, cor e personagem.

Levar ou não levar as crianças às compras?

Levar as crianças pode ajudar — e pode encarecer.

Elisa levou Lucas e Yasmin e viu os dois puxarem “necessidades” que não estavam no orçamento. “O Lucas queria caneta de tinta transparente. A Yasmin queria um caderno ‘igual ao da amiga’. E eu entendo. Eles querem pertencer. Só que eu preciso pagar as contas”, diz.

Para a professora de educação socioemocional e parentalidade Milena Araújo, existe um caminho do meio: nem transformar a compra em guerra, nem fingir que dinheiro não existe.

“Quando a gente esconde o assunto, a criança aprende pelo silêncio, o que costuma virar consumo por impulso”, afirma Milena. “Por outro lado, quando a família só diz ‘não pode’ sem explicar, a criança entende como punição. O ideal é trazer a criança para a conversa, com limites claros e escolhas pequenas.”

Ela recomenda um combinado prático:

  • Defina o teto com antecedência (“hoje é só o essencial”)
  • Escolha um ‘extra possível’ (um item fora da lista, se couber)
  • Mostre a troca (“se levar esse, a gente deixa aquele”)

E completa: “Autonomia não significa escolher tudo. Significa participar, entender prioridades e aprender a esperar.”

Elisa testou isso na prática. “Eu falei: ‘cada um escolhe um extra barato’. O Lucas escolheu adesivos. A Yasmin escolheu marca-texto. Assim, eles sentiram que também decidiram”, conta. Ainda assim, ela preferiu fazer a compra principal em dois dias, com mais calma.

O que a escola pode pedir — e o que passa do limite

Além de caro, o material pode vir com pedidos que não cabem na lista — e nem deveriam caber na responsabilidade das famílias.

O advogado Rodrigo Rolim, especialista em relação de consumo, explica que a regra principal está no uso:

“Itens de uso individual são aqueles que o aluno utiliza de forma exclusiva e leva para casa, tais como régua, borracha, lápis”, afirma. Já materiais de uso coletivo — como produtos de limpeza, papel para setor administrativo e tinta de impressora — não deveriam virar obrigação na lista.

Ele reforça: “Nenhum produto de uso coletivo pode ser exigido dos alunos. Se a escola quer pedir colaboração dos pais, deve ser facultativo e de forma alguma a ausência de colaboração pode ser fator desabonador ao estudante.”

Três práticas abusivas para ficar de olho

  1. Marca obrigatória sem justificativa
    “Não pode haver delimitação de marca”, diz Rodrigo, “exceto quando, de forma justificada, a marca for a mais adequada para a atividade escolar.”
  2. Kit pronto que tira sua chance de comparar preços
    “Não é permitido também a venda de kits prontos onde o consumidor não tem a oportunidade de escolher e comparar preços.”
  3. Pressão para comprar em um lugar só
    A recomendação forte ou “forçada” também pode ser abuso, porque limita a escolha e encarece a compra.

Quando a lista parece excessiva, ele orienta um caminho: conversar com a direção e pedir esclarecimentos. Se a resposta não vier — ou não convencer — o Procon pode ajudar.

Como economizar de verdade?

Economia, aqui, não significa “cortar por cortar”. Significa escolher melhor, comprar com calma e evitar juros.

A especialista em finanças sugere hierarquia antes da forma de pagamento: “Vale fazer um filtro claro entre o que é obrigatório, o que pode ser reaproveitado e o que pode ser comprado aos poucos.”

Passo 1 — Faça a triagem do que você já tem

Abra mochila e estojo do ano anterior. Teste tudo. Separe o que funciona. Só então escreva o que falta.

Elisa faz isso com os filhos. “A gente testa, limpa, organiza. Parece bobo, mas economiza”, diz.

Passo 2 — Divida a lista em duas colunas

  • Essencial agora: itens para a primeira semana (caderno, lápis, borracha, cola, etc.)
  • Reposição: itens que podem esperar e ser comprados aos poucos

Passo 3 — Decida como pagar sem criar uma bomba-relógio

Se der para pagar à vista, a compra costuma sair mais saudável para o mês. Se precisar parcelar, faça a pergunta-chave: essa parcela vai caber até o fim?

“Quando o parcelamento for necessário, o cuidado principal é garantir uma parcela que caiba e se sustente ao longo do tempo”, orienta Jana.

Já sobre reserva de emergência, ela faz um alerta: “A reserva financeira deve ser preservada para situações realmente emergenciais, como uma perda temporária de renda.”

Antes de comprar

  1. Defina um teto total para a compra (sem “depois eu vejo”).
  2. Faça a triagem do que sobrou do ano anterior.
  3. Marque itens duvidosos (coletivos, exagerados, sem explicação).
  4. Separe em 2 colunas: essencial / reposição.

Na hora da compra


5) Pesquise em 3 lugares (papelaria local + loja grande/atacado + online).
6) Compare preço por unidade (o “kit barato” às vezes sai caro).
7) Evite comprar no impulso: siga a lista, principalmente com criança junto.
8) Negocie e substitua: prefira itens equivalentes, sem marca obrigatória.

Estratégias que costumam funcionar


9) Combine compra coletiva com outras famílias quando fizer sentido.
10) Troque e reutilize: livros, uniformes e alguns materiais podem circular.
11) Guarde notas e a lista: isso ajuda se você precisar questionar abusos.
12) Fuja do crédito caro (rotativo e cheque especial): eles multiplicam a conta.

E se eu não me planejei no ano anterior?

Quando janeiro chega sem fôlego, dá para reduzir o estrago e começar um plano para o próximo ciclo. Os especialistas em finanças e economia ouvidos pelo Lunetas sugerem diluir compras ao longo do ano, quando a escola aceita, e reservar um valor mensal pequeno para não repetir o susto.

“O mais importante é olhar para frente e começar a se preparar para o próximo ano. Estimar o valor anual e provisioná-lo mês a mês faz diferença”, afirma Jana.

O economista Thiago Martins concorda e traduz: “Quando a família guarda um pouco por mês, ela compra com calma e com poder de escolha. E poder de escolha quase sempre vira economia.”

No fim, a volta às aulas continua exigindo compra. No entanto, ela não precisa exigir silêncio, culpa e dívida. Com conversa, informação e planejamento, a família retoma o controle — e a mochila segue completa, sem o bolso ficar vazio.

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