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Meu filho adolescente quer pular Carnaval sozinho: e agora?

Se seu filho ou filha que cresceu curtindo o Carnaval com fantasias fofas e lúdicas, entre confetes e serpentinas, agora já é um adolescente e quer sair sozinho? É hora de evitar o pânico e apostar em combinados práticos que fortalecem vínculo, confiança e autonomia.

Essa é a estratégia que tem funcionado entre o publicitário Fernando Mungioli e sua filha de 16 anos. Ambos gostam muito de Carnaval, sempre foram aos blocos, e hoje ainda vão juntos, embora, a filha também saía só com os amigos. Para que a garota se divirta com segurança, sempre há combinados entre eles, que inclui encontrar os amigos antes de chegar à folia para que ela não ande sozinha pela cidade, respeito aos horários de ir embora, além de manter o celular ligado. “Nessa idade eles têm maturidade e conhecimento, conhecem os riscos, mas ao mesmo tempo acham que não há risco nenhum”, diz Mungioli.

O publicitário não permite que a filha vá nos blocos muito grandes que reúnem multidões na cidade de São Paulo e sugere que ela frequente os menores que acontecem nos bairros. Há sempre diálogo e conversas sinceras sobre os perigos. “Nesses megablocos tenho uma preocupação com integridade física, roubos, é sobre perigo não é tabu ou puritanismo. Trabalho muito na educação, falando sobre os riscos de álcool e drogas também”, reforça.

Demonstrar preocupação legítima aproxima

Segundo Isabel Kahn Marin, psicanalista e professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP nas áreas de infância, família e juventude, esse é um bom caminho, tendo em vista que pais e mães não podem ter medo de serem “chatos ou pentelhos” ao mostrar que querem ter algum tipo de controle sobre a vida dos filhos, mas ao mesmo tempo, deve-se evitar discursos catastróficos.

“A ideia é mostrar por que os pais se preocupam com o fato de os filhos irem para os bloquinhos. Porque é legítimo, tem muita gente, pode haver roubos etc. Um discurso calcado no real mostrando que há confiança, mas tem um olhar de cuidado, de alerta para as coisas objetivas da vida”, diz a psicanalista. Para que esses momentos sejam mais tranquilos, vale a pena ter o cuidado prévio de conhecer o grupo de amigos na qual o adolescente faz parte e salvar o número de telefone daqueles que são mais próximos. Isabel lembra que na hora de reforçar cuidados, combinados e precauções, o adolescente tende a sempre dizer que “tudo é bobagem” e muitas vezes desafia os adultos com provocações. É necessário não se ofender, entendendo que essa é uma postura típica da idade, e impor os limites com firmeza.

Conversas e firmeza

“O adolescente não pode se sentir mais poderoso do que o pai ou mãe. É preciso que ele entenda que os adultos têm suas potências e limites, isso é tranquilizador. Por outro lado, confiar no filho é importante, mas também é poder ver que há situações que às vezes ele não vai conseguir controlar”, afirma.

Agora proibir as saídas, principalmente entre os adolescentes com mais de 14 anos, nem sempre é viável. Curtir a folia também ajuda a fortalecer o sentimento de pertencimento ao grupo, essencial nesse período da vida. “É fazer com que o adolescente deixe de viver algo que todo o grupo e a sociedade vivem. É preciso conversar, cada família tem sua história e medos, e deve conhecer o estilo do filho e o que é possível definir de combinados.”O “pós-balada” também é importante, momento para avaliar se o adolescente chegou em casa no horário combinado ou justificou o atraso, ou ainda, se ingeriu bebida alcoólica. Algumas dessas situações podem gerar conversas que ajudam a criar vínculos e conexões parentais.

Proteção e ambiente seguro

Em cenários de aglomeração extrema e fluxos turísticos intensos, como os eventos carnavalescos, a dinâmica de vigilância parental é naturalmente dificultada por fatores externos, como o barulho e a multidão, como lembra Itamar Batista, superintendente de Advocacy da Childhood Brasil, organização sem fins lucrativos, pioneira no enfrentamento de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes.

Entretanto, para Batista, mais do que uma questão logística, a “proteção integral é um dever constitucional compartilhado entre o Estado, a família e a sociedade”, já que “durante a folia, riscos como a exploração sexual, o trabalho infantil, o uso abusivo de álcool e drogas, a violência física e o desaparecimento tornam-se mais agudos.”

“O anonimato e a sensação de impunidade dos eventos de massa não podem servir de ‘cortina de fumaça’ para violações. Por isso, cada cidadão, comerciante ou agente público deve atuar como um nó dessa rede de cuidado, garantindo que o ambiente seja seguro para meninos e meninas”, afirma.

A importância do enfrentamento à violência

Para sensibilizar e conscientizar a população sobre a importância dessa proteção integral, como prevenção e no enfrentamento de violações de direitos, como o abuso, a exploração sexual, o trabalho infantil e outras situações de vulnerabilidade, o Ministério dos Direitos Humanos lançou mais uma edição da campanha nacional “Pule, Brinque e Cuide – Unidos pela proteção de crianças e adolescentes”.

Na prática, a iniciativa amplia a resposta rápida ao integrar canais digitais de denúncia, como o Disque 100 via WhatsApp e Telegram, permitindo reportar riscos em tempo real, segundo Itamar Batista. “Quando motoristas de aplicativo, hoteleiros, foliões e o sistema de garantia de direitos entendem seu papel nesse ecossistema, a resposta deixa de ser isolada e torna-se sistêmica. Isso garante que o acolhimento institucional ou o retorno ao ambiente familiar ocorra com agilidade e proteção, assegurando o direito ao lazer saudável e livre de qualquer forma de violência”, finaliza o superintendente da Childhood Brasil.

Menos sermões e mais combinados: o que reforçar com seu filho adolescente?

  • Importante encontrar os amigos antes de chegar ao bloco, evitando circular sozinho pelas ruas;
  • No local do bloco, definir pontos de encontro caso alguém da turma se perca ou o celular fique sem sinal ou sem bateria;
  • Alinhar horários de volta para casa, com alguma flexibilidade para imprevistos;
  • Combinar o compartilhamento temporário de localização pelo celular para aumentar a segurança;
  • Celular carregado sempre e, se possível, com carregador portátil;
  • Cuidado ao mexer no celular; furtos e roubos são muito comuns nesses períodos;
  • Evitar deslocamentos sozinho, especialmente na volta para casa;
  • Menores de 18 anos não podem consumir bebida alcoólica. Vale a pena reforçar e conversar sobre pressão do grupo;
  • Não aceitar bebidas de desconhecidos nem entrar em carro com motorista alcoolizado;
  • Respeitar limites do próprio corpo e do outro, pedindo autorização antes de fotografar ou filmar algo, por exemplo.

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