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Calendário busca “afrobetizar” alunos com marcos da cultura afro

Duas meninas negras, uma de vestido com estampa floral e a outra com vestido vermelho, caminham por uma praia

Desde 2017, o projeto “Afroativos – Solte o cabelo, prenda o preconceito” vem transformando uma escola pública de Porto Alegre (RS) em um espaço de combate ativo à discriminação racial e ao racismo sob a tutela da professora Larisse Moraes ao destacar a potência da cultura afro-brasileira

As crianças têm protagonismo na construção dia a dia de uma educação afroafirmativa e antirracista que possa promover conscientização e representatividade, estimular o pertencimento, mas também garantir empoderamento a partir do desenvolvimento de uma autoestima conectada com a identidade negra. Como define a professora Larisse,

“Somos afroativos porque agimos para que as mudanças aconteçam”

Após uma série de ações desenvolvidas ao longo do ano em torno das relações étnico-raciais, como exposições, palestras, festivais de curtas e cinedebates – todas adaptadas para o formato remoto -, em novembro, no mês da Consciência Negra, o evento Afrobetizando é a culminância dessa trajetória. 

Para a produção do Calendário Afroafirmativo 2021, parte do projeto “Nossa gente, nosso território”, participaram mães e avós da comunidade da Lomba do Pinheiro como protagonistas e porta-vozes das demandas das mulheres negras e de histórias que merecem ser compartilhadas e passadas adiante.

O objetivo é “afrobetizar” sobre marcos históricos da resistência negra, apresentando às crianças, mês a mês, datas festivas, aniversários de nascimento ou morte, biografias, informações sobre locais de referência para a resistência negra e realizações de personalidades negras, leis e conquistas. Assim, pretende-se fortalecer identidades e se apropriar de uma ancestralidade historicamente invisibilizada a partir do resgate do feminino e da força das mulheres.

O material está dividido em três partes:

Janeiro, por exemplo, é o mês de nascimento de Martin Luther King e também quando aconteceu a Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835. Em fevereiro, Nelson Mandela é libertado. As crianças aprendem também quando foi o primeiro carnaval das escolas de samba do Rio de Janeiro e a inclusão de Zumbi dos Palmares como herói nacional, por exemplo.

Após revisão, o calendário foi lançado com a inclusão de novas datas relevantes, como o assassinato de Marielle Franco e a eleição da primeira bancada negra de vereadores na cidade, além de dar espaço para a cultura indígena.

Se você tem sugestões de novas datas e nomes para contribuir, é só mandar um e-mail para afroativos@gmail.com.

O calendário está disponível para download. Já a versão física, feita com recursos próprios, está à venda por R$ 25. O lucro será destinado à publicação do livro “Desabafos poéticos”, uma coletânea de poemas autorais de alunas e alunos antigos e atuais, mães, avós e da professora Larisse que evidenciam as questões da comunidade, com destaque para a temática antirracista e da opressão da mulher. O livro será publicado até o final de dezembro pela Agbara Edições, uma editora preta, do escritor, jornalista e ativista Oscar Henrique Cardoso. 

Na apresentação, a griote Maiza Lemos, de 65 anos, escreve sobre a honra de participar desta edição do calendário que destaca mães e avós junto de seus filhos e netos, e ressalta que são eles que merecem as honrarias “por terem ido à luta por eles, por nós, pelo nosso povo e por todas as gerações que virão”.

Para Maia Oliveira, 17 anos, monitora do projeto Afroativos e neta de Maiza, a confecção do calendário é o momento de “juntar à prática todas as teorias trabalhadas ao longo do ano a partir de projetos e pesquisas”, diz.

Ao evidenciar as diferenças dentro desse território, ressignificando a história do lugar e das pessoas que ali vivem a partir de suas próprias narrativas, Larisse conta que professoras de outras escolas e lideranças comunitárias de outros bairros de periferia também demonstraram interesse em participar, o que deve acontecer no próximo ano.

Para Larisse, esse é um jeito de colocar o antirracismo na prática, para além das hashtags e da comoção com estatísticas, que traduzem em números dores de pessoas reais”, pontua. “O antirracismo também está na reflexão ‘o que eu consigo fazer a partir do meu lugar em prol de uma causa que promove equidade e justiça social?’”. Assim, podemos mudar o curso da história, acredita ela.

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