Você já ouviu falar em “Dumbphones“? A ascensão dos aparelhos básicos no exterior — celulares com teclas, fio e sem conexão com a internet — tem ecoado no Brasil por meio de uma articulação coletiva entre as famílias. Em vez de focar apenas na restrição do tempo de uso, a estratégia prioriza a substituição do dispositivo. O uso do equipamento analógico estabelece uma fronteira física que protege a infância da exposição precoce aos algoritmos e redes sociais.
O resgate do botão e do fio: a barreira analógica contra os algoritmos
Depois de 15 anos sem telefone fixo, a casa da analista de marketing Gabrielle Monice, em Santo André, no ABC, voltou a ter um. A decisão foi tomada em conjunto com as famílias das amigas de sua filha, Fernanda, de 8 anos, que estão aderindo à ideia com o propósito de adiar ao máximo a entrega do primeiro smartphone às crianças.
O aparelho tem feito sucesso na casa. Assim que foi instalado, Fernanda já improvisou uma agenda telefônica escrevendo em uma folha de papel sulfite os contatos dos familiares e dos amigos, que também aderiram ao movimento analógico e já teve a experiência de telefonar para o número errado, por engano. “Ela ficou em pânico”, conta a mãe.
“Ela liga para os avós, para os tios e as amigas também vão ter o telefone fixo para ter esse contato direto sem depender do celular e do WhatsApp dos pais. Ela achou demais a ideia, está super empolgada”, diz Gabrielle.
A analista acredita que a retomada do telefone fixo à casa da família vai suprir a vontade da filha de telefonar para as amigas, permitindo que celular próprio chegue o “mais tarde possível.” “Ela questiona quando vai ter o primeiro celular, mas explico que não há necessidade porque ela não sai sozinha. Gosto muito da comparação de que a internet é como Rua 25 de Março, um lugar lotado de desconhecidos. Não estou preparada para deixar minha filha sozinha na 25”, reforça.
Como funciona na rotina?
A publicitária Carol Napolitano também decidiu não dar um smartphone ao filho de 11 anos e encontrou uma alternativa analógica. Como ela precisava manter contato com ele ao longo do dia por causa das atividades de rotina, no ano passado, comprou um celular antigo, sem acesso à internet, apenas para ligações e SMS.
Carol diz que o filho acha “um mico” ter um telefone desse tipo e embora falte algumas funcionalidades no aparelho, como despertador e calendário, tem atendido a necessidade de comunicação. “É um desafio a gente manter essa postura de não dar um smartphone às crianças. Até porque um celular comum é bem menos atrativo, mas é funcional.”
A publicitária tem como aliados movimentos como o Desconecta, criado em 2024 por um grupo de famílias de uma escola particular de São Paulo que se propõe a adiar coletivamente a entrega do primeiro smartphone para as crianças até os 14 anos e o acesso a redes sociais até os 16. A iniciativa vai na contramão do cenário brasileiro.
Segundo a pesquisa Tic Kids Online Brasil 2024, que coletou informações de mais de duas mil crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, 93% dos entrevistados acessam a internet, sendo que 98% fazem isso por meio do smartphone. A pesquisa mostra, ainda, que 81% desse público já possui o próprio dispositivo.
Critérios para o primeiro aparelho: o papel do analógico
- Autonomia na rotina: a criança começa a cumprir trajetos sozinha ou frequenta atividades extracurriculares sem a presença dos pais;
- Foco na função: a necessidade da família é puramente de comunicação direta (voz e SMS), sem a demanda por entretenimento digital;
- Segurança de conteúdo: o dispositivo de teclas atua como uma barreira física contra algoritmos, internet móvel e redes sociais;
- Responsabilidade gradual: o aparelho serve como um estágio intermediário de cuidado com eletrônicos, sem as distrações das notificações infinitas.
Adultos também precisam aprender educação digital
Para a psicóloga, especialista no atendimento a dependentes digitais, Anna Lucia Spear King, toda estratégia para reduzir o uso de telas é válida, mas é importante que os pais aprendam educação digital para conseguirem orientar seus filhos.
Anna Lucia explica que toda a sociedade contemporânea é dependente da tecnologia, mas há uma dependência patológica chamada nomofobia que é um vício, um medo irracional de ficar sem o celular, que precisa ser tratado.
“Quando a pessoa está usando muito o celular é preciso fazer a avaliação se é uma dependência por lazer ou trabalho ou algo patológico que precisa de tratamento médico e psicológico. Neste caso, pode haver por trás alguma questão de compulsão, depressão ou ansiedade em que se descarrega na tecnologia gerando nervosismo e angústia”, afirma.
A especialista, que coordena o primeiro curso de pós-graduação da América Latina em Dependência Digital, oferecido pela Nonahub em parceria com a Anhanguera, destaca alguns hábitos de educação digital: não usar o celular durante as refeições, evitar acessar o aparelho logo ao acordar ou em encontros presenciais e interromper o uso pelo menos uma hora antes de dormir.
“É preciso usar adequadamente a tecnologia. Quem usa excessivamente o telefone celular pode desenvolver problemas físicos na lombar, cervical, articulações, pulsos, dedos e visão no médio a longo prazo. A pessoa passará a ter aos 20, problemas que teria aos 80 anos. Fora todos os impactos emocionais como ansiedade, angústia e nervosismo”, diz Anna Lucia.
Sinais de que a educação digital deve começar pelos cuidadores
- Uso reativo e automático: checar o aparelho imediatamente ao acordar ou durante as refeições em família;
- Desconfortos físicos: presença de dores frequentes na cervical, nos pulsos ou cansaço visual após o uso prolongado;
- Instabilidade emocional: sentir irritação, angústia ou nervosismo quando o acesso ao sinal de internet ou à bateria é interrompido;
- Privação de sono: dificuldade para desconectar ou manter o celular longe da cama durante o período de repouso.
Leia mais:
