Em 2021, um garoto de 12 anos estava internado na UTI do Hospital Itaci (Instituto de Tratamento do Câncer Infantil), em São Paulo, em razão de uma doença grave. Ele fazia diálise e estava com a mobilidade bastante limitada, mas gostava de desenhar cavalos e dizia admirá-los porque eles “corriam e eram livres.”
Com a ajuda de uma médica residente, a equipe do Itaci levou o menino até a Sociedade Hípica Paulista para realizar o sonho de ver, montar e alimentar um cavalo. Mesmo com todo o aparato médico, ele conseguiu. A experiência teve impacto nos meses seguintes de internação. Mais motivado, ele passou a se dedicar à fisioterapia e fazia pipas para presentear as pessoas no hospital.
O garoto morreu, mas sua história deixou um legado: desde então, os pôneis da hípica vão todos os meses à área externa do Itaci para proporcionar momentos de alegria às crianças em tratamento de câncer.
Tico e Caramelo ficam à disposição para receber carinhos, abraços, ganharem tranças e penteados nas crinas e ainda levarem as crianças para dar uma voltinha. Ester, de 9 anos, já tem intimidade com os bichos e, em meio a um longo tratamento, gosta de se revezar em passeios entre os dois com a segurança e confiança de quem sabe “cavalgar”. “Os pôneis são muito legais e eles me deixam mais feliz.” A menina mora em um sítio em uma cidade no Vale do Ribeira, mas vai para São Paulo para as sessões de quimioterapia. A avó Maria Aparecida conta que os animais fazem parte da vida de Ester.
Na visita dos pôneis na terça-feira (27), quem também se divertiu foi Miguel, de 8 anos. Ele foi para uma consulta no Itaci e se surpreendeu com a visita dos pôneis ao hospital. Quando avisaram que os animais estavam por lá, sua mãe Fernanda não imaginava que eram “pôneis de verdade.” Ela contou que o filho sempre quis andar a cavalo e estava feliz por vê-lo realizar seu desejo.
O fisioterapeuta Rodrigo Arruda, que trabalha com equoterapia há 25 anos atendendo crianças com autismo ou com algum tipo de deficiência, diz que essa ação da Sociedade Hípica Paulista junto aos hospitais – eles também vão ao A.C.Camargo Cancer Center – é a que mais aquece seu coração. “É uma válvula descompressora para todos, traz alegria e esperança. Essa troca com o animal é super especial.”
Alívio para ansiedade
Todos os pacientes do Itaci podem participar da ‘pôneiterapia’, seja os que estão internados ou passam por consulta no hospital, desde que não haja nenhuma restrição médica, como no caso dos que precisam ficar em isolamento. O Itaci atende, mensalmente, cerca de 3 mil crianças e adolescentes com câncer de 0 a 18 anos.
Ao contrário dos cães de terapia, que também participam de outra ação do Itaci e vão até os leitos dentro do hospital, os pôneis ficam na parte externa. Essa necessidade de se deslocar leva a criança para fora do quarto e do ambiente associado a exames e procedimentos desconfortáveis. Para a oncologista pediátrica Alessandra Azambuja, só este movimento já é bastante importante. “A criança passa a ter contato com outras crianças, há uma socialização, mesmo que não seja próxima, que ajuda a diminuir a ansiedade e o estresse da internação”, diz. “Ela está fazendo uma atividade diferente que não tem a ver com o tratamento, e isso é bem importante, há uma função de reabilitação”, complementa.
Além disso, como lembra Alessandra, quando a criança aceita andar nos pôneis ela trabalha a postura, equilíbrio e movimentação corporal, o que estimula o desenvolvimento motor e auxilia na reabilitação fisioterapêutica de forma lúdica. “Às vezes é uma criança que não quer sair do leito ou do colo da mãe, mas quando topa ter contato com os pôneis, a gente observa que muda seus hábitos até depois, quando retorna ao quarto.”
Liliane Moraes, gerente administrativa do Itaci, destaca outro benefício da ‘pôneiterapia’. A interação com os animais, mesmo que por um período curto, traz uma sensação de “normalidade” para toda a família que enfrenta o tratamento junto com as crianças. “É quase como se elas pudessem esquecer que estão em um hospital. Até a nossa equipe acaba sentindo isso.”
Mas Tico e Caramelo também têm seus limites. Embora sejam muito dóceis e gostem de estar com as crianças, há o momento em que precisam encerrar a interação e voltar para a hípica. Na terça, Miguel gostou tanto da experiência inédita que não queria se despedir dos pôneis. A mãe Fernanda prometeu que eles teriam pelo menos mais dois encontros, prazo do tratamento – já que os pôneis estão no Itaci uma vez por mês. A torcida de todos, entretanto, é para que Miguel possa voltar a andar a cavalo fora do ambiente hospitalar.
