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Nem todo mundo viaja: as férias reais dos adolescentes

Menina deitada na mesa ao lado de uma mulher trabalhando. Imagem para ilustrar adolescentes em casa nas férias

Menina deitada na mesa ao lado de uma mulher trabalhando. Imagem para ilustrar adolescentes em casa nas férias

Tem adolescente em casa nas férias? A gente sabe que nas redes sociais, as férias geralmente parecem sempre extraordinárias: praias, viagens, resorts, passeios, festas animadas e muita diversão. Mas, para muitos adolescentes, esse período de pausa acontece de um jeito mais comum: no sofá da sala, ajudando a cuidar do irmão mais novo ou pelas ruas do bairro onde moram. Entre o brilho das telas e a rotina da família, esses jovens vivem entre dois mundos: o que existe para ver e o que existe para viver.

É comum surgir uma mistura de sentimentos nessa época, aponta a hebiatra Jadiânia Pedrosa. Há o alívio da rotina escolar, a expectativa de descansar, mas, pode surgir também o tédio, a frustração e uma sensação de exclusão. Em muitos casos, aparece a tristeza de sentir que “ninguém chama”, “ninguém lembra”, “todo mundo está vivendo algo melhor”.

Mas nada disso é exagero. “Na adolescência, o cérebro passa por uma intensa reorganização e fica mais sensível à aprovação social, às novidades e à sensação de pertencimento”, explica a especialista. “Por isso, em uma realidade onde eles são bombardeados de estímulos rápidos e intensos, desacelerar e se sentir sozinho pode causar dor e sofrimento.”

Seu adolescente não foi viajar?

Mas o que fazer quando não há muitas opções de entretenimento? Ou quando o adolescente passa a maior parte das férias em casa? Para Jadiânia, o verdadeiro objetivo das férias é desacelerar o corpo e a cabeça. O tédio, por exemplo, é algo bom e deve ser valorizado: é um tempo de pausa, que ajuda a desconectar o cérebro de tantos estímulos, descansar e abrir espaço para a criatividade.

É o que acontece com Rafael, de 15 anos. Ele gosta, ao menos no começo, de não fazer nada. “Eu nunca viajo nas férias, porque minha mãe está trabalhando. É bom ficar em casa, dormir até tarde, comer a hora que eu quero, jogar on-line com meus amigos”, conta. Mas, depois de um tempo, ele diz que fica entediado — e a única opção é usar o celular para não se sentir tão sozinho.

A mãe do adolescente, Maraisa Silva, é caseira em um sítio na área rural de Itatiba (SP) e os meses de férias são os que mais trabalha. Ela diz que se incomoda com a solidão do filho, por isso, acha que o celular ajuda a distraí-lo. Porém, diz que “ele se compara demais com pessoas que nem conhece e, por isso, fica mais irritado e querendo comer besteira o dia inteiro”.

Férias: comparação pode não ser legal

Nessas horas, segundo a hebiatra, não adianta negar ou minimizar a frustração dos adolescentes por ficar em casa durante as férias. O caminho passa por acolher o sentimento, ajudá-los a refletir sobre o que é possível dentro da realidade da família e, principalmente, orientá-los sobre um uso mais saudável do celular.

“As redes sociais funcionam como vitrines permanentes de vidas, corpos e experiências aparentemente perfeitas. É uma padronização irreal e inatingível”, afirma a médica. Por isso, a conversa precisa incluir uma reflexão honesta sobre o recorte do que se vê no celular, ajudando o jovem a entender que o que aparece ali é apenas uma parte — muitas vezes editada — da vida dos outros.

Por outro lado, nomear a desigualdade também faz parte desse processo. “Muitos adolescentes sofrem calados por vergonha da condição social da família. É fundamental deixar claro que realidades diferentes não definem o valor de ninguém”, reforça.

Mais da metade dos adolescentes cumpre tarefas domésticas

Em muitos contextos sociais, as férias podem ser vividas com menos tempo de lazer e mais responsabilidades. Dados do IBGE mostram que, em 2024, 54,1% das crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos realizavam afazeres domésticos ou eram responsáveis pelo cuidado de outras pessoas. Isso representa mais de 20 milhões de jovens no Brasil. Entre eles, a maioria dedica até 14 horas semanais a essas tarefas.

Experiências possíveis

Independentemente da realidade e das possibilidades de cada família, “é importante estimular o olhar para dentro: reconhecer conquistas, qualidades pessoais e vínculos afetivos que não aparecem em fotos, mas sustentam a vida real”, sugere Jadiânia. “É papel dos adultos ajudar esses jovens a lidar com o tempo livre e atravessar esse período com mais segurança emocional. Sempre validando o desconforto, sem minimizar seus incômodos.”

Mais do que ocupar cada dia das férias com agendas cheias, viagens e passeios caros, vale repensar o valor do tempo desprogramado — com atividades simples para fazer em família, que favoreçam o encontro, a escuta e a conexão.

Para ajudar os adolescentes a lidar com o sentimento de comparação por passar as férias em casa, atravessar melhor o tempo de pausa e não exagerar nas horas on-line, a especialista indica algumas estratégias:

Dicas para as férias em casa:

1- Planeje experiências possíveis

Invista em momentos significativos, como passeios acessíveis pela cidade, cozinhar juntos, assistir filmes ou rever fotos antigas.

2- Promova encontros com os amigos

Convide para um lanche em casa, um piquenique no parque, uma tarde de jogos de tabuleiro.

3- Incentive momentos de estar consigo mesmo

Sugira ideias de atividades para fazer sozinho em casa: ler, movimentar o corpo, dançar ou praticar algum esporte.

4- Ajude a usar as tecnologias de forma menos passiva

O ambiente digital também pode ser um espaço de pertencimento. Para alguns, é ali que encontram pessoas com interesses semelhantes, o que ajuda a construir vínculos. Além disso, dá para usar a internet para aprender algo novo, como bordado, técnicas de jardinagem e pintura, por exemplo.

5- Converse sobre os perigos das redes sociais

Fale sobre como esse ambiente pode despertar a comparação e emoções negativas. Apoie o jovem a reorganizar seu feed, deixar de seguir conteúdos que fazem mal e buscar perfis que informem, inspirem e acolham.

6- Estimule o “olhar para dentro”

Escute, compreenda suas angústias e ajude-o a listar suas conquistas, qualidades e vínculos afetivos.

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