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Futebol: sua filha não gosta ou aprendeu que não é para meninas?

Foto colorida mostra uma menina negra de costas, com longos cabelos pretos trançados. Ela veste uma camisa de futebol azul e branca com o número 10 e olha para o lado. Ao fundo, um campo gramado e uma pista de atletismo.

O futebol feminino ainda enfrenta estereótipos de gênero, mas cresce o número de meninas em campo.

As gêmeas Maya e Eva mostram que o futebol feminino começa cedo: elas jogam desde os 5 anos e hoje, aos 12, atuam em competições regionais de futsal pelo time Eleven, de Vinhedo, no interior de São Paulo. Mas o caminho não foi simples. Desde o início, elas e os pais ouviram incontáveis comentários como “menina não sabe jogar bola” ou “futebol é coisa para meninos”. Nenhum dos ataques machistas, entretanto, abalou a paixão das irmãs pelo esporte.

No começo elas treinavam em times mistos – com os meninos – porque não havia equipes exclusivamente femininas. E tinham dificuldade de conseguir jogar porque os meninos não passavam a bola. Hoje, tanto em Itu, cidade onde moram, quanto na escola, Maya e Eva já são reconhecidas positivamente como as meninas que jogam futebol. Mas nem todas têm essa determinação, e diante do preconceito e dos estereótipos associados ao esporte, algumas acabam desistindo de praticá-lo. 

As gêmeas Maya e Eva comemoram em quadra pelo time Eleven: a paixão pelo futebol feminino resiste ao preconceito.

“Nada do que outra pessoa possa falar vai mudar o interesse delas pelo futebol porque é o que elas gostam de fazer. Mas vemos nas escolinhas que muitas meninas desistem por não serem respeitadas”, diz Karen Katielli Medeiros Bueno, mãe das jogadoras. “Principalmente nessa faixa etária entre 11 e 14 anos em que a aprovação dos outros é necessária, ouço relato de outras mães dizendo que as filhas querem desistir porque ouviram algum comentário maldoso de alguém”, complementa.

Em casa, além do incentivo da mãe, Maya e Eva têm apoio profissional: o pai Renato Bueno foi jogador de futebol e hoje é treinador de um time feminino sub11. Ele conta que o interesse das filhas pelo futebol foi natural, mas foi o envolvimento delas com o esporte que o mobilizou, despertando seu interesse em treinar meninas.

Respeito às escolhas e mais possibilidades

Ter esse universo acolhedor faz toda a diferença para que Maya e Eva se sintam seguras para praticar o esporte que gostam, mesmo quando há uma espécie de desaprovação externa.

Para Ana Nery, especialista em inclusão e gênero da Plan Internacional Brasil, uma organização que luta para proteger os direitos das meninas, contextos familiares que valorizam aprendizados mais diversos, dialogam e oferecem mais possibilidades para as meninas têm mais propensão a criar ambientes seguros e com menos violência de gênero, fazendo com que elas se aproximem do futebol.

“Quando estimulam a curiosidade, respeitam as escolhas das meninas e oferecem diferentes possibilidades de desenvolvimento, as famílias contribuem para criar ambientes livres de limitações baseadas em gênero, ampliando o acesso ao futebol e a outras práticas esportivas e fortalecendo o direito das meninas de brincar, se desenvolver, participar, ocupar espaços e construir suas próprias trajetórias”, diz Ana Nery.

Para Ana Nery, da Plan International Brasil, famílias que respeitam as escolhas das meninas ampliam seu acesso ao futebol feminino.

Quando se trata de brincadeiras e práticas esportivas, meninos e meninas recebem incentivos diferentes desde a infância. Eles são estimulados a participar de esportes competitivos, para elas ficam as brincadeiras e jogos considerados mais “delicados” e que não tenham cunho “agressivo”.

Paula Alegria, coordenadora de Advocacy e Direitos Sexuais e Reprodutivos da Plan, reforça que para que as meninas reconheçam com quais atividades têm mais afinidade, é preciso que possam ter experiências mais diversas de jogos e brincadeiras e que essas práticas estejam livres de estereótipos prejudiciais de gênero. “Importa ainda que possam ter exemplos positivos na mídia e em seus contextos próximos para que possam vislumbrar uma amplitude maior de possibilidades de interesse.”

Por isso, a representatividade é tão importante. “Jogadoras, treinadoras e comentaristas mostram que é possível ocupar esses espaços e isso tem impactos na vida de todas as meninas, pois passam a se reconhecer ali e a acreditar que aquele lugar também pode ser seu, se assim desejarem”, complementa Paula.

Paula Alegria, da Plan International Brasil, defende que exemplos positivos ajudam meninas a se reconhecerem no futebol feminino.

Treinador vê competição mais respeitosa

Renato observa que a competição no futebol feminino é mais saudável e respeitosa, e sente que os meninos muitas vezes se veem apenas como adversários que precisam ser superados, enquanto as meninas mantêm um olhar de admiração mútua.

“Prezo muito essa amizade entre elas e acho que elas trazem mais leveza para o esporte”, diz o treinador. “Claro que cada uma tem sua personalidade, têm as mais carinhosas, as explosivas e as que precisam de um pouquinho mais de atenção. São personalidades diferentes, como qualquer pessoa”, completa.

A partir de sua experiência como pai e treinador, Renato identifica diversos fatores que ainda afastam meninas do futebol. Entre eles está o ambiente hostil que persiste em muitos campos, estádios e arquibancadas. Ele se lembra de uma partida em que as filhas atuavam por uma equipe mista e jogaram contra um time conhecido pela rivalidade. O jogo terminou com uma confusão generalizada e violenta entre os jogadores adolescentes e os adultos, familiares que acompanhavam a partida. O acontecimento foi tão marcante que, durante anos, as meninas sentiam medo de entrar em campo sempre que ouviam a torcida gritar.

Renato também chama atenção para o preconceito reproduzido pelos próprios adultos, homens e mulheres. “Já vi muitas mães olhando feio: ‘é uma menina jogando futebol?’. É só uma criança querendo se divertir e fazer amigos. É complicado”, relata.

Apesar dos obstáculos, a experiência de Maya e Eva ocorre em um contexto de crescente envolvimento feminino pelo universo esportivo. Segundo o estudo Women and Sports 2026, do IBOPE Repucom, o interesse das mulheres por esportes aumentou 25% entre 2020 e 2025 — mais que o dobro do crescimento observado entre os homens, de 12%.

A pesquisa mostrou ainda, que a Copa do Mundo também nunca atraiu tanto o público feminino – 71% das mulheres brasileiras declararam que estão conectadas ao mundial deste ano, representando uma evolução de 22% em relação a 2014.

Roda de conversa no Nordeste e olhar para os meninos

Iniciativas como a da Plan Internacional Brasil visam aumentar ainda mais a representatividade feminina no esporte. A organização promove atividades socioeducativas com cerca de 2 mil adolescentes entre 12 e 17 anos em escolas das cidades públicas das cidades de São Luís e Codó, no Maranhão, e Teresina, em Piauí, para estimular que meninas pratiquem esportes, fortalecendo a autoestima, autoconfiança e sensação de autonomia sobres seus corpos e escolhas.

As atividades incluem rodas de conversa com meninos e meninas, além de dramatizações, debates, exercícios de empatia, reflexão sobre privilégios que visam desconstruir normas de apoiar a construção de novas formas de ser menino e homem, baseadas no respeito, no diálogo e na empatia.

“Não só as meninas, mas também os meninos sofrem pressões das normas de masculinidade hegemônica, que os impulsionam ao silenciamento emocional, ao uso da violência como forma de afirmação e à reprodução de desigualdades de gênero”, afirma Paula Alegria.

Karen, a mãe das gêmeas, conversa sempre com elas sobre a importância de poder jogar bola, ser respeitada e denunciar quando há problemas, assim como aconteceu recentemente na escola quando um garoto disse que “lugar de mulher é na cozinha” e elas foram procurar a direção. “Eu luto por isso nelas.”

Enquanto isso, depois de se familiarizar com as regras do futebol e se aproximar do universo do esporte, ela acompanha os jogos da arquibancada na expectativa de que os desafios das filhas não precisem ir além de vencer as partidas: “Eu adoro vê-las jogando juntas, uma olha para outra e já entende, sabe o que está pensando. Elas se elogiam, tocam as mãos e na maioria das vezes rende um passe bom, uma jogada bonita ou um gol. É legal demais!”

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