Luiza tem 12 anos e sabe de cor a coreografia de pelo menos três músicas do BTS. Ama as Guerreiras do K-pop. Conhece o nome de cada integrante dos seus grupos favoritos, acompanha as teorias por trás dos clipes e passa boa parte das tardes tentando repetir cada movimento das coreografias que viu no TikTok. Nos intervalos, troca figurinhas com as amigas sobre o NewJeans, o IVE e o que a Sabrina Carpenter postou mais cedo. Para a mãe, Adriana Ferreira, de 37 anos, a cena poderia parecer território desconhecido — e até assustador. Mas em vez de erguer muros, ela escolheu sentar no sofá junto.
Essa escolha, aparentemente simples, diz muito sobre um fenômeno que vai bem além das músicas em coreano ou dos looks impecáveis das divas pop americanas. As meninas da Geração Alpha — nascidas a partir de 2010 — estão crescendo com referências culturais que suas mães nunca tiveram. E essas referências moldam, de formas profundas, a maneira como elas se enxergam, se relacionam e constroem quem são.
O que é esse universo, afinal?
Para quem está de fora, pode parecer só música e coreografia. Mas o K-pop — abreviação de Korean Pop — é um sistema cultural complexo, com uma estética altamente elaborada, uma dedicação técnica extrema e uma capacidade impressionante de criar comunidades globais de fãs, chamados de fandoms.
Grupos como BTS, EXO, Stray Kids, NewJeans, IVE e TWICE acumulam bilhões de visualizações em suas músicas, mas o que os diferencia do pop tradicional é o grau de envolvimento que cultivam com o público: os fãs não apenas ouvem as músicas — eles estudam os clipes, aprendem as coreografias, traduzem as letras e participam ativamente de comunidades online.
Ao lado do K-pop, os doramas — séries coreanas de drama, romance e fantasia — ganharam espaço enorme entre adolescentes brasileiras. E no pop americano, nomes como Sabrina Carpenter, Olivia Rodrigo, Taylor Swift e Billie Eilish completam esse mosaico de referências que chega às meninas pelas telas.
O que a psicologia diz sobre ter ídolos?
Ter ídolos não é novidade. O que muda, segundo a psicóloga infantojuvenil Beatriz S. M. Moraes é a intensidade e a velocidade com que esse conteúdo chega às meninas de hoje.
“A pressão estética e de produtividade é algo que sempre esteve presente na nossa sociedade, em especial nos jovens. Com o avanço tecnológico das últimas décadas e cada vez mais exposição às redes sociais, é provável que o impacto esteja sendo maior”, avalia Beatriz.
O fenômeno de ser fã, explica ela, é natural. O problema não é admirar um ídolo — é quando essa admiração acontece sem mediação crítica. “Os fãs acabam tendo acesso a somente uma pequena parcela da vida desses famosos, que não condiz com a realidade em sua totalidade. Sem essa orientação, podem vir a criar padrões estéticos e de desempenho para si mesmos que são inalcançáveis.”
O K-pop, em particular, carrega uma tensão interna: ao mesmo tempo em que traz novidades de moda, cultura e diversidade, impõe uma “perfeição” de aparência e performance que não condiz com o que é ser humano. Os grupos são coreografados milimetricamente. As peles são lisas. Os corpos seguem padrões rígidos. E mesmo que essa seja uma produção artística, o olhar de uma menina de 12 anos nem sempre faz essa separação com facilidade.
“O consumo da cultura K-pop tem aspectos positivos, que podem trazer benefícios para os jovens, porém apresenta riscos que precisam ser trabalhados com o público infantojuvenil, para que tenham a noção desde cedo de que o ideal de perfeição que nos vendem nas mídias é inatingível.” — Beatriz S. M. Moraes, psicóloga
Pertencer a algo maior: o poder dos fandoms
Há um outro lado dessa história — e ele importa muito. Para a Geração Alpha, os fandoms são comunidades reais de pertencimento, troca e identidade.
“O sentimento de pertencimento é algo importante para o ser humano em todas as fases da vida, mas na adolescência em especial é quando esse fenômeno está no auge”, explica Beatriz Moraes. Fazer parte de um fandom significa ter um grupo de pessoas com quem se identificar, trocar informações e se sentir parte de algo maior. “Esse sentimento de pertencimento traz um propósito, um sentido, podendo muitas vezes trazer um suporte na vida do indivíduo, sendo benéfico à saúde mental.”
Foto de arquivo pessoal
Mas a psicóloga alerta para uma armadilha sutil: dentro dessas comunidades — e nos algoritmos das redes sociais em geral — tende-se a consumir sempre mais do mesmo. O senso crítico pode ficar adormecido quando a vontade de pertencer ao grupo fala mais alto. “Muitas vezes a vontade de pertencer ao grupo é tão grande que deixamos de questionar se tudo o que é dito ou praticado ali de fato condiz com os nossos valores pessoais.”
Uma perspectiva que vem de dentro
Anne Quiangala é doutoranda em literatura, fundadora do site Preta, Nerd & Burning Hell e uma das vozes mais relevantes quando o assunto é identidade, cultura pop e negritude no Brasil. Ela conhece esse universo como alguém que viveu a experiência de ser uma menina negra e nerd num tempo em que essas identidades pareciam não combinar.
Para ela, o boom do K-pop e dos doramas entre as adolescentes brasileiras precisa ser lido com cuidado — e sem julgamento geracional apressado. “É muito fácil olhar pro K-pop, julgar e achar que essas meninas são passivas. Mas a gente pode olhar, pode respeitar e tentar conversar sobre isso”, diz ela.
Ao mesmo tempo, Anne traz uma análise política que vai além da superfície. “A gente tá tendo o mesmo padrão estético, só que vindo de um outro lugar. E a gente vai ser muito mais sensível, porque sabe que são pessoas racializadas.”
Foto: reprodução HUFFPOST BRASIL
A questão da melanina dentro do próprio K-pop é um ponto que ela não deixa passar. Personagens com pele mais clara, traços suavizados e um padrão estético rígido continuam sendo os protagonistas — inclusive nos doramas. “Pessoas com menos melanina sendo as protagonistas e vistas como as mais bonitas. Você vê uma hierarquia de raça ali dentro da trama”, explica a doutoranda.
Meninas racializadas e o K-pop
No Brasil, quando a gente fala de meninas entre 14 e 16 anos no Brasil — o núcleo duro do público consumidor de K-pop —, está se falando, em sua maioria numérica, de meninas pretas e pardas, de classe C. Essa é uma realidade que importa para entender o fenômeno.
Anne Quiangala observa que muitas dessas meninas vivem uma ambivalência: consomem com entusiasmo uma cultura que, ao mesmo tempo, não as coloca no centro. “Eu acho que essas meninas estão vivendo um momento em que o mercado empurra para elas referências com as quais elas se identificam em parte — mas que ainda reproduzem padrões que as excluem.”
Por outro lado, ela reconhece uma mudança geracional real. As meninas de hoje chegam a esse consumo com muito mais ferramentas críticas do que as gerações anteriores. “Essa geração já vem muito habilitada para entender o que é racismo, o que é sexismo, por exemplo. E como professora, eu acho isso incrível — a consciência é radicalmente diferente.”
Uma conversa com as famílias
De volta ao sofá de Adriana e Luiza: a estratégia que essa família encontrou tem muito a ensinar. Quando Adriana percebeu que a filha estava mergulhada de cabeça no universo do K-pop — dedicando horas a tradução de letras e repetição de coreografias —, seu primeiro instinto foi o alerta. Alguns grupos menores traziam letras mais ousadas do que o esperado para uma pré-adolescente.
“Percebi rápido que se eu apenas proibisse ou fizesse piada do que ela gosta, eu ia fechar uma porta que talvez nunca mais se abrisse entre nós”, conta Adriana. Ela começou a pedir para a filha explicar quem era quem nos grupos, assistiu aos clipes junto, aprendeu o nome dos integrantes — e foi, aos poucos, entendendo o que realmente acontecia ali.
A parceria virou rotina. Adriana vê os clipes novos antes, especialmente de grupos menores, e quando algo não é adequado para os 12 anos da filha, explica o porquê. “É um trabalho de curadoria mesmo”, diz ela. “Esse diálogo constante evita que ela sinta que está sendo vigiada por uma censora, mas sim orientada por alguém que entende e respeita o gosto dela.”
Para Luiza, o resultado foi o oposto do que a censura costuma produzir. “Eu sei que tem muita coisa na internet que é estranha, mas como a gente vê as coisas juntas, eu aprendi a identificar o que é legal e o que é meio exagerado. É muito melhor assim do que se ela ficasse só falando mal das músicas que eu gosto.”
5 passos para ter essas conversas
Junto as especialistas ouvidas na reportagem, elencamos 5 passos para começar a curadoria junto aos adolescentes:
- Interesse genuíno vale muito: perguntar o que a criança ou adolescente gosta, quem são os artistas, o que as músicas dizem — isso abre portas. Ridicularizar fecha para sempre;
- Verifique as traduções: muitas letras de K-pop e do pop americano têm conteúdo mais adulto do que parece. Vale checar antes;
- Converse sobre o padrão estético: as imagens de perfeição que circulam nos clipes e nas redes são construídas — iluminação, produção, edição. Ajudar a criança a entender isso desde cedo fortalece a autoestima;
- Preste atenção ao fandom: pertencer a uma comunidade é saudável. Mas fique atento se a criança parece se anular para se encaixar no grupo ou tem medo de discordar;
- A linha entre cuidado e censura é real: restringir o acesso a determinado conteúdo é diferente de proibir o universo inteiro. Explique o motivo. Não faça das músicas um campo de batalha.
Leia mais

Radar Alpha: o que eles estão ouvindo agora
Luiza, 12 anos, fã assumida de K-pop, preparou a lista do que está bombando entre a Geração Alpha:
🎵 K-pop: BTS, EXO, Stray Kids, NewJeans, IVE e TWICE
🎵 Pop internacional: Sabrina Carpenter, Olivia Rodrigo, Taylor Swift e Billie Eilish
🎵 Destaque da geração: grupos com conceitos visuais fortes e desafios de dança no TikTok e Reels