Nas turmas da professora Samira Rennó, na Escola Estadual Edgar Mello Mattos de Castro, em São José dos Campos (SP), apenas os alunos que gostam de dançar e se sentem à vontade para se apresentar em público participam da tradicional quadrilha da festa junina. Nada é obrigatório.
Quem prefere não dançar também faz parte da celebração, contribuindo de outras maneiras, como na customização das bandeiras que vão decorar a escola. Há, ainda, a opção de se apresentar somente na sala, momento que é filmado e exibido depois.
Para Samira é imprescindível respeitar os limites da criança e do adolescente. “Eu, enquanto professora não posso obrigá-los, alguns alunos se sentem receosos de se apresentar para a escola toda, e é preciso entender.”
Foto de arquivo pessoal
Embora a professora perceba que a timidez aumenta à medida que os alunos crescem e que as crianças menores tendem a se apresentar com mais facilidade do que os adolescentes, ela também vê nas turmas dos anos finais do Ensino Fundamental que as decisões são muito particulares e dependem das características da personalidade de cada um. “Tem aluno que ama, quer saber a música, pede para tocar, se anima, outros nem saem da cadeira.”
Samira sente a diferença de perfil na própria casa entre os três filhos – atualmente só o caçula topa dançar. “No dia a dia ensino sobre a importância de se movimentar o corpo, incentivo, mas não posso obrigá-los a fazer algo que não gostam.”
Recusa nem sempre é manha
A psicóloga Lara d’Almeida explica que em geral as apresentações coletivas costumam ser encaradas como experiências positivas na infância. Entretanto, as crianças diferem biologicamente em sensibilidade emocional, busca por exposição social, resposta ao estresse e necessidade de previsibilidade, por isso não dá para generalizar.
“Algumas vão vivenciar esse tipo de situação com entusiasmo e outras crianças vão experimentar intensa vergonha, ansiedade ou desconforto diante da exposição pública”, diz.
Segundo Lara, o sofrimento pode acontecer porque essas apresentações coletivas exigem simultaneamente coordenação motora, atenção compartilhada, adaptação às regras, tolerância a estímulos sensoriais e manejo emocional diante do olhar do público.
Foto: Isabela Daguer
“Um erro frequente é interpretar toda a recusa como manha, falta de limite ou desobediência”, afirma. “Isso não significa retirar todos os desafios do desenvolvimento, mas compreender que exposição forçada nem sempre produz aprendizado emocional saudável”, complementa.
Perceber a diferença entre incentivo e coerção
Assim como fez a professora Sabrina em São José dos Campos, Lara salienta que participação na festa junina pode ir além de fazer com a criança dance para uma plateia, há aqueles que vão se envolver melhor ajudando na decoração, na organização das brincadeiras ou nas barracas. “Pertencimento não depende de exposição homogênea.”
Por isso, é fundamental perceber a diferença entre incentivar a criança com acolhimento de suas inseguranças, preparação e respeito aos limites com coerção, que ocorre com frases como “todo mundo vai”, “você precisa perder essa timidez” ou “não faça isso comigo”. “Dependendo da criança, isso não produz desenvolvimento emocional, e sim uma associação entre a exposição social e ameaça”, diz Lara.
Professora usa colete para dançar com aluno com paralisia
Se, por um lado, deve ser respeitada a vontade da criança de não participar da quadrilha, por outro, também é preciso garantir o direito daquela que deseja fazer parte da atividade. Quando se trata de crianças com deficiência a adaptação precisa atender as necessidades de cada um.
A inclusão não significa ausência de desafios. “Mas construção de experiências em que a criança possa participar com segurança emocional, dignidade e a sensação genuína de pertencimento. Para que ela realmente consiga ter boas lembranças desse momento”, reforça Lara.
Criatividade e inclusão para que nenhuma criança fique de fora
Um bom exemplo veio de uma iniciativa da professora Ellen Matos, no ano passado, na cidade de São José do Rio Preto (SP). Com criatividade e sensibilidade, ela garantiu que que seu aluno, Arthur Ortega, com então 4 anos, que tem paralisia cerebral, não ficasse de fora da quadrilha da escola. Ellen usou um colete adaptado ao próprio corpo que permitiu que os dois dançassem juntos. As imagens viralizaram nas redes sociais.
A mãe de Arthur, Cintia Valéria Ortega, contou que a iniciativa foi totalmente da professora que teve a ideia e junto com a fisioterapeuta do filho e encontrou o colete usado no dia da festa. “Fiquei extremamente feliz pela professora ter pensado com tanto carinho em uma forma dele participar”, diz. “Foi emocionante ver como ele se sentiu igual aos amiguinhos e sabia cantar toda a letra da música”, complementa Cintia.
Arthur tem a mobilidade reduzida, se desloca com ajuda de um andador para pequenas distâncias e cadeira de rodas para longas. “Para a dança a professora queria que ele ficasse com as mãos livres. Com o andador não daria certo porque ele usa as mãos para segurar”, explica a mãe.
Para Cintia, ainda existe um longo caminho para que a inclusão do filho ocorra plenamente, mas cada pequeno gesto é comemorado: “Sinto que estamos mais próximos de incluí-lo em todas as atividades do jeitinho dele.”
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Quais são os sinais de alerta para um sofrimento intenso?
Ansiedade em alerta: a criança começa a demonstrar sofrimento e preocupação com a situação muitos dias antes do evento;
Alterações fisiológicas: mudanças perceptíveis no padrão de sono ou o surgimento de sintomas físicos, como dores ou mal-estar;
Desregulação emocional: presença de crises de choro, irritabilidade intensa ou episódios de raiva desproporcionais;
Resistência ao apoio: o nível de desconforto permanece elevado mesmo após a escola ou os pais oferecerem acolhimento, preparação gradual ou adaptações no ambiente.