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Repente, um patrimônio que atrai crianças para a arte da rima

Uma menina negra de camisa azul abraça sua viola

“Minha infância foi assim
Aprendi a jogar bola
Eu me levantava cedo para estudar na escola
E troquei a minha pipa por dez cordas de viola”

A troca da pipa pelas cordas de viola foi a escolha do pequeno Thúlio, 12, que compôs o repente exclusivo para o Lunetas. O garoto mantém olhos e ouvidos bem abertos: passou uma fresta de luz pela porta, o par de ximbra amendoado acompanha; o vento soprou as folhas que caíram das árvores e ele segue o caminho. Talvez sejam esses os principais atributos de um repentista: observar tudo à sua volta e estar preparado para improvisar sobre qualquer tema que aparecer.

Em Sumé, no agreste da Paraíba onde Thúlio mora com os pais e dois irmãos, inspiração não falta. E nem precisa cruzar a porteira, está tudo no sítio em que vive desde que nasceu. Thúlio é neto de José Wilson Freitas Santa Cruz, um amante da cultura popular, e é filho de Francisco Fontinelle, um dos maiores entusiastas da área no município.

Desde que ganhou sua primeira viola profissional ano passado, a voz de Thúlio segue entoando e perpetuando a arte do repente e a cultura nordestina por onde passa. Nas horas livres, o sumeense gosta de estudar métrica, rima e oração, os fundamentos do repente, que foi reconhecido Patrimônio Cultural do Brasil por unanimidade, em novembro de 2021.

Thúlio, com pouco mais de dois anos, brincando com sua primeira viola

“Sempre andei com Thúlio nos recitais e saraus poéticos, assim como meu pai fazia comigo. Também escutava rádio e os programas de cantoria, o que influenciou muito para que eu pudesse transmitir a paixão pela cantoria de viola para meu filho numa segunda geração. Eu comprava dvds e cds de cantoria e, quando chegava em casa, estava ele lá assistindo atento ao material”, recorda Fontinelle.

Simpático, afiado na oratória e eloquente – não poderia ser diferente; afinal, a força do repentista é a palavra, Thúlio conta que a inspiração vem “da natureza, do meu cotidiano, de uma ação que eu esteja vendo naquele momento, tudo isso me ajuda a fazer os meus versos. Meu primeiro baião foi cedinho e a poesia sempre esteve presente na minha vida. A poeticidade é um dom que vem de berço”.

Na sua trajetória na poesia oral musicalizada, ele acumula algumas apresentações na Paraíba e em Pernambuco – locais que hoje representam os maiores celeiros de repentistas no Brasil, produzindo grandes nomes como João Paraibano, Valdir Teles e Geraldo Amâncio. Apesar da pouca idade, o menino não se intimida em dividir as rodas de viola com medalhões da arte.

Uma dessas referências é Sebastião Dias, autor de mais de 150 poemas, que tem letras gravadas por cantores como Zé Ramalho, Raimundo Fagner e Santana, e que trabalhou por mais de 30 anos com o mestre João Paraibano. Logo na primeira vez que viu Thúlio na roda, o repentista potiguar percebeu que o menino tinha algo a mais. “Ele é muito criativo, carismático, uma criança polida e educada. Ele é o nosso futuro. Quando Thúlio sentou do meu lado em um evento, era como se eu tivesse vendo um substituto meu. Já é meu ídolo”, conta.

Para o veterano do repente, a presença de crianças na área significa renovação. “Na minha época, não tive incentivo dos meus pais, diferente de Thúlio. Ele me disse que queria ser médico veterinário, mas que não ia deixar a viola. Eu expliquei que a faculdade irá ajudá-lo a enobrecer o vocabulário e ampliar o conhecimento, mas a viola dá outros tipos de ensinamento. Ele pode ser o que quiser”, argumenta.

E se o repente fosse ensinado em sala de aula?

Uma vez ao mês, Francisco Fontinelle promove um encontro cultural em Sumé, com apresentações dos novos e antigos artistas da terra. Para ele, a cultura de raiz deveria ser ensinada em sala de aula. Assim, talentos – como o filho – podem surgir para renovar a tradição.

“É importante para que a criança possa conhecer e defender a riqueza cultural tão autêntica que a gente tem. Para que tenha orgulho da nossa identidade em vez de ter vergonha. Que o Brasil conheça o que tem de melhor. É uma alegria ver Thúlio despontando como uma grande promessa para a cantoria nordestina e – por que não? – do país”, projeta o pai.

Thúlio reconhece que o dom o ajuda na escola, principalmente nas aulas de literatura e língua portuguesa. Em eventos e feiras culturais do colégio, o garoto vira atração e desperta admiração de quem, de fora, só observa sua aptidão.

Em São José do Egito, agreste pernambucano, o desejo de Francisco já é realidade. Por lá, a disciplina poesia popular é oficialmente ensinada nas escolas públicas, integrando a grade curricular desde 2016.

Não poderia ser diferente, a cada dez nascidos, poeta viram seis.
A lenda é que há muito tempo uma viola foi enterrada no leito do Rio Pajeú.
Quem bebe dessa água, então, da poesia vira guru.

Pela impossibilidade de ficarem nas capitais e zonas litorâneas, os povos árabes desceram as regiões da caatinga, pouquíssimo exploradas até então, já que aparentemente eram terras pouco férteis. Ao se firmarem em comunidades próximas aos rios, a sua cultura vai se misturando com as heranças indígenas e demais especificidades coloniais. Toda cidade que o Rio Pajeú corta tem muitos poetas e cantadores, assim também acontece com rios em sertões de outros estados do Nordeste. – Jefferson Souza, jornalista, amante da cultura popular e cineasta; autor dos documentários “Poetas analfabetos do sertão do Pajeú de Pernambuco”, “Leonardo Bastião, o poeta analfabeto” e “Pedro Tenório de Lima e a enxada de um poeta iletrado”.

“Os alunos e os professores tiveram uma boa aceitação, visto que a poesia é algo muito presente em nossas vidas. A gente fica entusiasmado com essa valorização da cultura local. Como cidadãos da terra da poesia e do berço imortal de vários repentistas, não podemos deixar essa cultura esmorecer”, explica a Diretora Geral de Ensino da Secretaria de Educação do Município, Selma Leite.

Selma explica que um orientador faz um estudo mensal com os professores, que são selecionados pela afinidade com a poesia, e usam um conteúdo didático próprio do município e se apoiam em outros materiais de poetas da região. De acordo com o professor Anderson Rocha, que coordena a disciplina de Poesia Popular, o trabalho é feito em diálogo com as demais disciplinas – matemática, história, geografia – para que os alunos percebam a poesia que há por aí. “Ver poesia em sala de aula facilita muitas vezes a compreensão do aluno e o processo de ensino e aprendizagem”, relata. “A gente ensina a valorização e o respeito pela poesia, além da essência do texto poético, a verificação, a rima e a métrica. Nesse ensino, muitas vezes, a gente descobre talentos”, completa a diretora.

Alany Vitória, 12, que estuda na Escola Municipal Baraúnas, é um desses talentos revelados. Vencedora do IV Concurso de Poesia Popular de São José do Egito, ela comemora este reconhecimento da cidade. “É uma honra para todos nós que aqui vivemos. Gosto muito da cultura. As festas de Reis e a Universitária sempre enfatizam a poesia como principal atração”, diz.

“São José, minha cidade
Que é berço da poesia
E acolhe o cantoria
Também o declamador
Rimando com alegria
Tem poetas imortais
Um dom que contagia
Viva São João do Egito
A terra da poesia!”
Uma das poesias vencedoras feitas por Alany Vitória

Como admiradora, Alany acompanha alguns repentistas da cidade, como Sebastião Dias, Pedro de Alcântara, Dedé Monteiro e Lázaro Pessoa. “Além disso, escuto as cantorias de viola nas rádios e vejo os poetas apresentando seus repentes com violas na comunidade”, ressalta a estudante.

Alany Vitória na cerimônia de premiação do concurso da cidade

A infância faz parte da nova imagem do repente

Quando se fala na arte do repente, é comum associar a imagem do repentista a um homem com uma viola na mão. Mas repentistas da nova geração mostram que não é bem assim. Iasmin, 13, filha do também cantador Sales Neto, é a prova disso.

Para o antropólogo Darllan Rocha, doutorando do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as crianças que nascem e crescem tendo contato com arte e cultura aprendem naturalmente os saberes e os ciclos sobre suas relações com o mundo. Elas se tornam, muitas vezes, de acordo com o estudioso, a própria manifestação.

“É comum vermos filhos, netos de mestres e artistas envolvidos em manifestações culturais, como o repente. Elas acabam representando quem são e é esse sentimento que, de alguma forma, dá sentido a suas vidas. Não tem como separar a pessoa da manifestação”, argumenta.

Darllan comenta que “a tradição é referenciada no passado, vivida no presente e sempre projetando o futuro. É dinâmica”. Para ele, é nesse sentido que as sabedorias, as práticas, os costumes, as habilidades das manifestações artísticas formam também culturalmente as crianças como pequenos cidadãos e pequenas cidadãs”.

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