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Artes cênicas na infância: o impacto da arte e o abismo no acesso

Enzo Nunes da Silva tinha seis anos quando pisou num set de filmagem pela primeira vez. Não sabia o texto, não tinha experiência, não vinha de uma família ligada ao meio artístico. O que aconteceu a seguir surpreendeu a equipe inteira: ele improvisou.

Fez cenas fortes, arrancou risos nos bastidores, se comunicou com adultos como se aquele espaço já fosse dele. Pouco depois, foi escalado para o filme O Agente Secreto, ao lado de Wagner Moura, numa produção que chegou ao Oscar. “Ele realmente se identificou com a atuação. Onde ele chega, ele se solta, se comunica bem e consegue se expressar com muita facilidade”, conta Kelly Grace Nunes dos Santos, mãe do garoto.

Enzo Nunes em cena com Wagner Moura no filme ‘O Agente Secreto’. Crédito: divulgação.

A história de Enzo é extraordinária — mas o que ela revela sobre o impacto da arte na vida das crianças não é. Pesquisadores que estudam a relação entre infância e artes cênicas no Brasil são enfáticos: as sensações e os ganhos de desenvolvimento que o menino viveu no cinema, milhões de crianças brasileiras poderiam experimentar no teatro, na escola, no centro comunitário do bairro. Se tivessem acesso.

Um país de palcos vazios

Segundo o IBGE, teatros estão presentes em apenas 23,3% dos municípios brasileiros. Cinemas, em 9%. Isso significa que cerca de 42,5% da população vive em cidades onde não existe uma única sala de exibição. Na Região Norte, o cenário é ainda mais severo: em 80,4% dos municípios, os moradores precisariam se deslocar por pelo menos uma hora para chegar ao cinema mais próximo. No Sul, esse índice cai para 14,9%.

Já a pesquisa do Sistema de Informações e Indicadores Culturais, revela que 72% dos brasileiros declararam jamais ter assistido a um espetáculo de artes cênicas. Entre crianças e adolescentes até 14 anos, a situação é proporcionalmente pior: 34,3% vivem em municípios sem museus, e a ausência de equipamentos culturais nas periferias e em regiões rurais faz com que o encontro com a arte seja, para muitas famílias, uma impossibilidade geográfica e financeira.

Enquanto isso, entre 2010 e 2020, o orçamento federal dedicado à cultura foi reduzido quase pela metade. No estado de São Paulo, a carga horária de artes no ensino médio caiu de quatro para duas aulas semanais.

O que muda quando a arte chega?

É nesse vazio que o trabalho de educadores e coletivos de teatro ganha um significado que ultrapassa o artístico. Adriano Rodrigues é professor e coordena o Projeto Gari, que leva oficinas de teatro a comunidades ribeirinhas no Amazonas. Para ele, a arte nesses territórios tem um papel ainda mais amplo. “O que está em jogo é a possibilidade de cada integrante ser reconhecido como sujeito de imaginação, dignidade, pertencimento e futuro”, afirma.

Rodrigues descreve transformações que observa de perto: crianças que tinham dificuldade de falar em público passam a se comunicar melhor; outras, antes retraídas, começam a sustentar a própria opinião e a conviver com mais respeito dentro do grupo.

Membros do Projeto Gari em entrega de livros. Reprodução: Instagram @projetogari

“A arte amplia o repertório interno e faz com que o integrante passe a olhar para a própria realidade não apenas como limite, mas também como matéria de criação. Aprende a simbolizar o que vive, a transformar medo em expressão, timidez em presença, silêncio em palavra e memória em cena.”
Adriano Rodrigues, professor de teatro.

Artur Ítalo da Silva, pai de Enzo, reconhece esse tipo de transformação na própria casa. “Ele ganhou muito conhecimento e se divertindo! Ele consegue se comunicar melhor com outras crianças, inclusive acima da idade dele, de uma forma muito mais natural”, diz. “Meu filho também consegue falar de emoções e colocar o que sente de maneira clara para quem está ao redor. Toda essa desenvoltura ele foi adquirindo por meio da arte.”

Especialistas ressaltam que o teatro não desenvolve apenas aptidões artísticas. Ele trabalha a linguagem, a escuta, a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro — habilidades que reverberam na escola, na convivência familiar e na vida social da criança.

A criança como sujeito, não como espectadora

Suzana Schmidt Viganó, professora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de São Paulo e integrante do Núcleo Quanta, de ação artística para a primeira infância, propõe uma mudança de perspectiva que vai além do acesso ao equipamento cultural. Para ela, a questão central é como enxergamos a criança no processo.

“O modo de existência das crianças, especialmente na primeira infância, é primordialmente lúdico e estético. O processo de desenvolvimento, inclusive neurolinguístico, passa necessariamente pelo corpo, pelo que é percebido e vivenciado pelo corpo”, explica.

Ilustração realizada para o site do Núcleo Quanta.
Reprodução site

Viganó defende que, quando os adultos se aproximam desses modos de ser, abrem-se também para um convívio mais afetuoso e criativo. “Nesse sentido, as crianças são as mestras que nos aproximam da fruição estética.”

A pesquisadora também é direta ao criticar uma lógica que, segundo ela, limita o potencial das artes na educação: a de justificar o teatro apenas pelos seus efeitos colaterais — melhora da autoestima, da fala e da disciplina. “Ao submetermos a arte sempre a serviço de uma finalidade outra, perdemos justamente aquilo que ela tem de melhor a oferecer, que é o desenvolvimento de experiências corporais, imaginativas, de criação de linguagem e de discurso, de abertura para outros olhares e invenções sobre si e sobre o mundo.”

Cultura como direito

Luvel Garcia Leyva, professor do Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da USP, vai além e propõe um questionamento mais incômodo: de que tipo de infância estamos falando quando discutimos acesso à cultura?

Para o pesquisador, cubano radicado no Brasil, a ausência do teatro na vida de crianças em situação de vulnerabilidade é parte de uma estrutura. “A ausência quase permanente de propostas artísticas na vida de muitas crianças que vivem nessas condições faz parte exatamente do que nos impede de imaginar outros mundos possíveis”, afirma.

Ele destaca a demolição de espaços emblemáticos, como o Teatro Ventoforte — um dos marcos do teatro para crianças no Brasil e na América Latina — e o Teatro de Contêiner Munguzá, em São Paulo, como sintomas de um país que não trata cultura infantil como prioridade.

Garcia Leyva recusa a ideia de que o acesso ao teatro deva ser associado à noção de “oportunidade”.

“Essa é uma visão trágica do que o capitalismo tem feito com a noção de cultura e com as populações empobrecidas dos nossos países. Quando reduzimos a cultura a um privilégio eventual, reforçamos uma lógica assistencialista que naturaliza desigualdades históricas e transforma o direito em exceção.”

Na avaliação do professor, são os coletivos teatrais — muitos deles com sedes em regiões periféricas, desenvolvendo trabalhos em parceria com escolas e centros comunitários — e os professores de arte nas escolas que possibilitam às crianças os primeiros contatos com o teatro.

O que falta para mudar?

O Plano Municipal para a Primeira Infância, promulgado pela Prefeitura de São Paulo em 2019, traz um dado que deveria orientar o debate público: a perda de rendimento na idade adulta para quem não teve condição de alcançar pleno desenvolvimento na infância é de aproximadamente 24%. A arte, como mostram pesquisadores e educadores ouvidos nesta reportagem, é parte fundamental desse desenvolvimento — e não um complemento decorativo.

Kelly, mãe do Enzo, é direta quando fala sobre o que falta. “Muitas famílias não têm condições de pagar por atividades como teatro, dança ou outras expressões artísticas. E isso faz muita falta. São essas ferramentas tiram um pouco dessa rotina tão focada em tecnologia — celular, videogame — que hoje é muito presente.”

Artur, pai do menino, também recorre à memória. “Na minha infância, quando eu estudava em escola pública, havia grupos de teatro e de música. A gente tocava flauta, participava de atividades artísticas, tinha aulas voltadas para desenho e pintura. Hoje, é muito mais difícil ver esse tipo de investimento.”

Suzana Viganó relembra um provérbio africano para sintetizar o desafio: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança.” E arrisca uma projeção: se o direito das crianças à cultura fosse levado a sério, veríamos diferentes sentidos de comunidade se criando, uma maior sensibilidade e respeito ao outro e, talvez, uma ousadia potencializada na reivindicação de mudanças.

Uma cena que ainda precisa de palco

Enquanto o Brasil ostenta o recorde de 3.510 salas de cinema — a maioria dentro de shoppings, com ingressos que ultrapassam os 30 reais —, comunidades ribeirinhas do Amazonas esperam a próxima oficina de teatro do Projeto Garia. Na periferia de São Paulo, coletivos como o Pombas Urbanas mantêm viva uma tradição de teatro comunitário que o poder público raramente ampara com a mesma disposição com que derruba seus espaços.

Nas escolas, professores de artes equilibram programas cada vez mais enxutos com a convicção de que o que ensinam importa.

Para as crianças que conseguem cruzar esse caminho — seja no set de um filme, numa oficina à beira do rio ou numa sala de aula com um professor que insiste na brincadeira —, a experiência costuma deixar marcas que não cabem em boletim. “O teatro torna-se uma espécie de delírio que desestrutura o mundo cartesiano em que a criança vive”, resume o professor Luvel Garcia Leyva. “Ele permite que a criança veja o invisível, ouça o inaudível, diga o indizível, pense o impensável e faça o impossível.”

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