Na Copa deste ano, as crianças que apareciam no telão levantavam as duas mãos e balançavam uma para cima e outra para baixo, como se pesassem um objeto invisível. O mesmo gesto atravessa calçadas, corredores de escola e o intervalo entre as aulas em países que não dividem idioma nem fuso horário. Crianças que nunca se viram sabem exatamente o que aquele movimento responde e quando ele entra. Os adultos em volta, na maioria das vezes, não fazem a menor ideia.
Um brinquedo sonoro que não pede tradução
A expressão nasceu na música “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla, lançada no fim de 2024. Ganhou corpo quando o jogador de basquete Taylen Kinney improvisou o gesto num vídeo da liga Overtime Elite, e depois grudou em compilações do armador LaMelo Ball, que tem exatamente seis pés e sete polegadas de altura. Daí em diante, o TikTok fez o resto do trabalho, numa geração em que 98% das crianças e adolescentes brasileiros acessam a internet pelo celular, segundo a TIC Kids Online Brasil 2024. O Dictionary.com elegeu “6-7” a palavra do ano de 2025, o que produz uma cena curiosa: um dicionário premiando uma expressão que não define nada.
A senha que abre a roda
Edilma Costa, antropóloga e mãe de uma criança de 11 anos, desconfia da pressa de procurar um sentido oculto ali. “O que está em jogo não é a palavra em si, mas a ponte que ela cria entre quem a pronuncia e quem a responde”, afirma. Dizer “six seven” na fila da cantina e receber de volta o mesmo riso e o mesmo gesto produz cumplicidade imediata. Quem devolve a senha avisa aos colegas que consome os mesmos conteúdos e domina o mesmo vocabulário. Para a antropóloga, essa é uma das operações mais antigas da infância: demarcar um território simbólico que não dependa da aprovação constante dos mais velhos.
Toda geração inventou o seu próprio meme sem sentido
Gerações inteiras cresceram gritando “uni-duni-tê” e outras parlendas sem pé nem cabeça nos pátios escolares, sem que ninguém soubesse explicar a origem daquelas sílabas. Os millennials escreveram em miguxês no Orkut e no MSN, com uma ortografia deliberadamente ilegível para quem estivesse de fora. Uma cantiga percorria vilas inteiras em poucas semanas pela boca das crianças, muito antes de qualquer plataforma existir. “O folclore infantil sempre foi viral”, resume Edilma. As telas ampliaram o alcance, e o motor continua sendo a vontade de brincar junto.
A pressa de encontrar utilidade em tudo
A irritação adulta diante da repetição tem endereço. “Uma frase repetida sem propósito prático incomoda porque suspende a lógica da utilidade”, observa a antropóloga, lembrando que o adulto médio aprendeu a medir o tempo pelo que ele rende. Some-se a isso um desconforto mais silencioso, que é a perda da hegemonia da interpretação. Se as crianças riem de algo que os mais velhos não alcançam, abre-se uma fenda de autoridade, e a reação costuma ser enquadrar a brincadeira numa chave moralista ou patologizante. Edilma resiste também à leitura oposta, a de que meninos e meninas apenas absorvem o que o algoritmo entrega. “Elas pegam um fragmento digital e trazem para o corpo, para o olhar trocado no recreio.”
Curiosidade rende mais do que deboche
Quando um adulto ridiculariza o meme, a criança entende o recado na hora. “O que está sendo desqualificado não é apenas uma frase boba, mas o seu grupo de amigos e o seu jeito de rir”, diz Edilma. A saída que ela propõe custa pouco e vale muito: perguntar de onde veio, por que tem graça, como os colegas reagem. Escutar sem julgamento prévio constrói a confiança que faz falta depois, quando as conversas realmente difíceis sobre uso de tecnologia baterem à porta. “O papel da mediação adulta não é esterilizar a infância de suas bobagens divertidas”, afirma a antropóloga. “É garantir um espaço seguro onde rir do absurdo continue sendo uma experiência protegida.”
