A escola pública atende 80% dos alunos brasileiros e representa muito mais do que um espaço de alfabetização ou cálculos. Para crianças em situação de vulnerabilidade, este ambiente funciona como uma rede de sentinelas, onde educadores percebem rapidamente quando algo está errado.
Recentemente, um caso de estupro de vulnerável no Triângulo Mineiro ilustrou essa importância. Em fevereiro, a polícia descobriu que um homem de 35 anos mantinha um relacionamento com uma menina de 12 anos. A denúncia surgiu apenas porque a equipe escolar notou a ausência da aluna e decidiu procurá-la imediatamente.
Nesse contexto, mulheres que ocupam papéis de professoras, diretoras e coordenadoras pedagógicas costumam identificar os primeiros sinais de violência, negligência ou abandono. Por isso, essas mulheres assumem responsabilidades que extrapolam a sala de aula. Elas dialogam com as famílias, acionam o Conselho Tutelar, buscam apoio na rede de saúde e garantem a permanência dos alunos nos estudos.
Para marcar a semana do Dia Internacional das Mulheres, apresentamos as histórias de Jane, Ângela e Luciene. Estas educadoras atuam em regiões marcadas pela desigualdade e reafirmam, no cotidiano, o papel essencial da escola como território de proteção à infância.
“Os pesos que as crianças carregam”
Na Maré, Jane Trajano identifica diariamente os “pesos que as crianças carregam”. Professora do 4º ano e orientadora da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Ciep Ministro Gustavo Capanema, Jane trabalha na mesma comunidade onde nasceu e cresceu, no Rio de Janeiro. Em sua visão, a escola representa, muitas vezes, o único suporte emocional para alunos que vivem em áreas vulneráveis.
Ao longo de 32 anos trabalhando na mesma escola, ela presenciou diversos tiroteios pela região, chegou a viver a situação de ter um estudante baleado dentro da própria escola e de um outro que conheceu ainda criança, reencontrou enquanto aluno na EJA já cumprindo medida socioeducativa, mas foi morto anos depois.
Ao mesmo tempo, também acompanhou histórias que mostram a força transformadora da educação, como a de uma ex-aluna que se tornou sua colega de trabalho e hoje também é professora na mesma escola em que ela trabalha.
Para a professora, é fundamental entender de onde seu aluno vem e quais “pesos eles carregam” para que haja aprendizagem integral. “Tem crianças que carregam um fardo muito grande, que são responsáveis pelos irmãos menores. Se a escola não enxerga isso, não vai entender por que ela dorme na sala, por que é muito agitada ou por que tem alguma dificuldade cognitiva.”
Esse olhar atento para as crianças e os adolescentes não se limita à sala de aula. Para Jane, o processo educativo é coletivo e acontece no “miudinho” da escola: quando a merendeira pergunta se a criança quer repetir a refeição ou por meio do funcionário que abre os portões e recebe cada estudante com um sorriso de boas-vindas para mais um dia de aula.
As dificuldades do cotidiano
“Tivemos uma megaoperação na Maré e vários de nós, na escola, estávamos ligando para as famílias dos alunos para ter notícias e saber se todos estavam bem. Esse movimento fortalece as relações afetivas e contribui para o ensino-aprendizagem. A gente vive hoje uma sociedade adoecida, que não se escuta, que não se sensibiliza com a dor do outro, mas acho que a escola ainda é um espaço que tem esse olhar humano”, afirma Jane.
O professor que não tem essa visão pode ser afetado por uma frustração de não conseguir realizar seu trabalho plenamente. “Podemos até ter um discurso que culpabiliza o sistema, a família ou a comunidade que também é real e há situações que a gente não vai dar conta, que estão além da nossa capacidade profissional e enquanto sujeito. Mas aquilo que eu posso alcançar, vai me dar força para seguir.”
Para Jane, é importante que a nova geração de educadores tenha essa consciência porque ao contribuir com a formação de seres humanos muda-se a sociedade. “Quantos mais tivermos professores bem preparados, com consciência de classe acho que a gente vai caminhar para uma sociedade menos injusta.”
“Eu me envolvo”: A trajetória de Angela na defesa dos direitos das crianças em São Paulo
O envolvimento da vice-diretora Angela de Fatima Zamengo com os alunos da Escola Estadual Padre Pasquale Filippelli vai além do papel pedagógico porque sua história está profundamente ligada ao bairro Guacuri, na zona sul de São Paulo, onde vive e está localizada a unidade. Por isso, não consegue ignorar as dificuldades enfrentadas pelos alunos. “Eu faço parte daqui. Não tem como fechar os olhos para o que acontece”, afirma.
Ao longo da trajetória como educadora, ela já encaminhou casos de violência e negligência para o conselho tutelar, registrou ocorrências e vira e mexe é chamada pela Justiça para participar de audiências, e nunca se nega ou se omite, mesmo que às vezes, se exponha.
“Eu vejo uma criança em perigo e me envolvo porque muitas vezes ela não tem voz para se defender e a escola ainda é o lugar que eles encontram para buscar ajuda, para serem ouvidos. A gente tem uma proximidade, minha sala está sempre com a porta aberta e eles têm confiança de me contar situações que podem ajudar a evitar problemas maiores”, conta Angela.
Um dos exemplos foi quando os colegas relataram o caso de uma garota da turma que estava vivendo uma situação de negligência e violência doméstica. A situação foi investigada e passou a ser acompanhada pelo conselho tutelar. Tempos depois, a menina mudou de escola, mas antes de sair, deixou um bilhete na mesa de Angela: “Obrigada por me ouvir. Obrigada por estar ao meu lado.”
“A gente não salva todo mundo, não conseguimos atingir todos, mas aqueles que conseguimos, abraçamos de verdade e vamos até o fim, até onde as mãos e os braços alcançam.” Angela acredita que um espaço coletivo harmônico é o maior legado que ela pode deixar enquanto educadora e cidadã. “A educação é o único caminho que transforma e para construirmos uma sociedade melhor, já que vivemos de forma coletiva, precisamos uns dos outros. Só que com uma sociedade doente como está hoje, precisamos ter ações de impacto. Logo mais não estarei mais na escola, e essa é minha forma de contribuir com quem vai ficar.”
Arquivo pessoal
Em Jaguariúna, Luciene faz da escola espaço de acolhimento
No interior de São Paulo, na cidade de Jaguariúna, a professora Luciene Lima lembra-se de uma diversidade de casos de alunos que exigiram seu olhar cuidadoso e toda uma rede de assistência e proteção.
Ela acredita que se um educador cisma que pode haver um problema maior na vida de uma criança, não há como ignorá-lo. “Se não verificarmos, não procurarmos ajudar de alguma forma, o que estamos fazendo ali? Muitas vezes é preciso entender o que está acontecendo na vida daquele ser. A escola precisa ser espaço de acolhimento para que a criança possa brincar, onde a lição não seja só xingo, lousa e giz. Isso faz muita diferença na vida das crianças.”
Entre muitas histórias, Luciene conta a de um aluno cuja mãe era usuária de drogas e não conseguia cumprir os horários de entrada da escola do filho, mas aceitou receber ajuda e foi encaminhada para receber apoio assistencial e tratamento de saúde. “O conselho tutelar acompanhou e tudo foi mudando, até a relação dela com a escola. Como eu moro no bairro, quando eu passava na frente da casa deles para ir trabalhar, buzinava para que ela acordasse e levasse o menino para escola.
”Quando a família precisou mudar de cidade e a criança teve de ser transferida de escola, a mãe pediu que Luciene entrasse em contato com a nova gestão. “Ela me disse: você não pode explicar tudo o que aconteceu na vida do meu filho para que a nova escola consiga me ajudar como você fez? Liguei lá e disse que era uma mãe que precisava de atenção.”
Mais políticas públicas de apoio aos docentes
Embora as educadoras defendam a necessidade de um olhar integral para os alunos e não se eximem das responsabilidades enquanto rede protetora da infância, lembram-se das dificuldades que assolam a categoria docente. Uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas revela que cerca de 450 mil professores atuam em duas ou mais instituições de ensino, o que impacta a qualidade do trabalho. A multiplicidade de vínculos exige deslocamentos constantes e maior desgaste físico e emocional, além de sobrecarga de trabalho, fatores que desencadeiam adoecimento mental.
Segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) 2024, divulgada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 16% dos professores brasileiros dizem que a docência impacta negativamente na saúde mental – a média dos países da OCDE é de 10%. A profissão também traz consequências para a saúde física para 12% dos docentes do Brasil, enquanto o dado na OCDE é de 8%. “Todos nós também temos famílias e problemas para lidar. Acho que faltam políticas públicas de valorização e apoio aos profissionais docentes, principalmente na área de saúde mental. Isso nos ajudaria muito”, finaliza Luciene Lima.
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