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‘Crianças com TDAH não são doentes, são caricaturas dos adultos’

TDAH: Menino em frente ao notebook olha concentrado a tela e utiliza um headfone roxo nos ouvidos.

Feche os olhos e reflita: quantas vezes você ouviu, nos últimos tempos, alguém dizer “meu filho é hiperativo”? Ou “Meu filho tem TDAH”?

O rótulo é colocado nas crianças de forma cada vez mais leviana e naturalizada na sociedade. De onde vem isso? O chamado “transtorno de déficit de atenção”, conhecido como TDAH, é um termo que vem da Psiquiatria moderna para definir algo que muitos afirmam: as crianças estão cada vez mais desatentas e ansiosas.

Porém, o que parece um diagnóstico seguro, não passa de uma definição redundante para algo que precisa ser olhado mais de perto. Ou seja: por que as crianças estão tão desatentas? Por que os adultos estão? Por que todos estamos?

Essas e outras provocações estão na primeira parte do livro “Hiperativos – Abaixo à cultura do déficit de atenção” (editora Paz&Terra, grupo Record, 2017), última tradução no Brasil do renomado professor de filosofia alemão Christoph Türcke. Nele, o professor aponta os principais perigos do excesso de informações ao qual as crianças são submetidas, e indica soluções possíveis para minimizar os danos de tanta tecnologia, estímulos sonoros e visuais. 

O livro mais famoso de Christoph Türcke é “A sociedade excitada”, lançado no Brasil em 2010. É onde o professor faz uma primeira crítica à cultura do excesso: para ele, tudo é muito, do sabor do sorvete ao barulho nas ruas. Tudo é excessivamente doce, barulhento, salgado, e por aí vai. A teoria de Türcke é que tudo isso nos anestesiou e nos deixou inertes. Para lutar contra isso, só a resistência e disposição para criar tempo, exercitar a escuta, e redirecionar o olhar.

A escola tem um papel fundamental

Christoph propõe o retorno à “cultura do ritual”, no qual a escola é responsável por oferecer um ambiente de tranquilidade para as crianças, de modo que elas possam ali fortalecer sua energia vital para lidar com as questões que o mundo impõe.

Mais do que isso, a ‘cultural do ritual’ entende a escola não como um lugar impositivo, que propõe tarefas de modo calculado, verticalizado e, por vezes, até tirano, mas sim como um ambiente de ampliação de ideias. Como afirma a educadora argentina Silvia Bleichmar, a escola deve ser um “lugar de recuperação de sonhos”.

O autor fala também sobre o perigo do papel central que os tablets, games, computadores e celulares têm ocupado na vida das pessoas, e acusa aí a maior fonte de desatenção.

“Aparelhos eletrônicos modificam drasticamente nossa forma de aprender, esquecer e reagir aos estímulos”

O que as crianças têm a ver com isso?

Apesar de entendermos uma criança como um indivíduo pleno e integral, sabemos que ainda assim elas são seres com pouco ou nenhum poder de escolha, uma vez que são os pais que decidem o que vão comer, usar e vestir. Nesse cenário de poucas escolhas e muitos estímulos, cada vez mais as crianças copiam o comportamento dos pais: como se relacionam, o que gostam de fazer, quais valores praticam no dia a dia.

“Crianças são as vítimas mais vulneráveis do comportamento adulto”

Crianças diagnosticadas com transtorno de déficit de atenção (TDAH) e hiperatividade não são uma exceção – doentes que contrastam com um ambiente saudável e tranquilo – mas sim as vítimas mais vulneráveis que apresentam, em seu comportamento, uma caricatura do mundo adulto”, explica o pesquisador.

“A agitação de uma criança só pode ser razoavelmente julgada em relação ao comportamento geral de uma criança e de seu ambiente social”

Confira o bate-papo 

Lunetas – O que é “cultura do ritual”? E como a Educação Infantil se encaixa nela?
Christoph Türcke – Rituais são repetições habitualizadas. Repetições sensatas podem estabelecer aquele apoio contínuo, que é indispensável para crianças ganharem segurança e desenvolverem confiança em relação ao seu ambiente. Sem continuidade e repetição, não há firmeza. Muitas vezes, o que posso reiterar e reproduzir é aquilo que me proporciona familiaridade e estabilidade. Crianças que não viveram isso antes de lidarem com máquinas são entregues às forças distrativas delas e têm dificuldade em consolidar estruturas firmes de percepção e de linguagem.

Você acredita no potencial da Filosofia e das Ciências Humanas como um caminho possível para a desaceleração das crianças? O que o contato com essas formas de linguagem pode fazer pelas crianças?
CT – Crianças não precisam saber nada de filosofia. Precisam, sim, de um espaço desacelerado, sossegado, onde tudo que vivem é sedimentado. Tal espaço forma o solo alimentício para qualquer pensamento profundo, desdobramento artístico e juízo refletido. Uma cultura do ritual cultiva também este solo. É preciso providenciá-lo já a partir da primeira infância.

Como os pais podem lutar contra um mundo todo de hiperestímulos e informações? Como criar em casa o ambiente de tranquilidade que as crianças precisam?
CT – O essencial é a dosagem do uso das máquinas eletrônicas, para impedir que a crianças se tornem viciadas. Algumas maneiras de fazer isso é brincar com os filhos diariamente; contemplar, juntos deles, imagens, livros, coisas cotidianas; ouvir músicas com eles; dedicar-se a uma só coisa e a um tempo juntos com eles.

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