Começar o ano letivo em uma escola ou turma nova pode ser desafiador para os adolescentes, especialmente os mais tímidos, que têm dificuldade de se enturmar. Acessar grupos já formados ou “panelinhas” nem sempre é tarefa fácil. Na fase em que o pertencimento é essencial, é natural que sentimentos como ansiedade, insegurança, medo, solidão e saudade dos amigos antigos se misturem.
Rachel Sette, professora de psicologia do UniArnaldo Centro Universitário, de Belo Horizonte, explica que o cérebro adolescente está em “hiperalerta, tentando decodificar novas hierarquias sociais e normas implícitas.” “Sentir-se um ‘estrangeiro’, ter medo de não encontrar sua ‘turma’ ou até sentir uma leve nostalgia da escola antiga faz parte do luto pelo que era familiar e da adaptação ao novo”, afirma.
Na Escola Estadual Major Arcy, localizada na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, os alunos novatos tendem a fazer essa transição de forma mais gentil com apoio dos “jovens acolhedores”, formado por grupo de veteranos que têm, entre outras funções, receber os novos estudantes e apresentar espaços e a dinâmica escolar. O projeto funciona em todas as escolas de tempo integral do Estado de São Paulo.
Os jovens acolhedores
Como a Major Arcy oferece atualmente apenas turmas do Ensino Fundamental 2 (do 6º ao 9º ano), é comum que os alunos ingressem na escola logo após concluírem a primeira etapa do Fundamental, para começar o 6º ano. Este é um período delicado da jornada escolar porque além da mudança de ambiente, os alunos deixam de ter um professor polivalente e passam a conviver com vários docentes, cada um responsável por uma disciplina.
Por serem mais novos, os estudantes que chegam nessa fase recebem atenção especial dos “jovens acolhedores”, que costumam demonstrar cuidado e proximidade no processo de adaptação. Apesar dos alunos do 6º e 9º anos terem idades aproximadas, entre 11 e 14 anos, do ponto de vista de desenvolvimento físico e emocional pode haver muita distância. Até por isso, os mais velhos têm mais empatia com os menores.
A recepção na Major Arcy envolve dinâmicas em que as crianças podem se apresentar e escrever suas expectativas para o ano letivo no “Varal dos Sonhos”. “A gente faz esse acolhimento mais para o pessoal do 5º ano porque para eles é uma experiência completamente nova e a maioria dos alunos é mais velha que eles. É uma mudança grande de rotina, de matérias que vão ter”, afirma Ana Beatriz Oliveira dos Santos, presidente do Grêmio Estudantil da Major Arcy.
Sem vergonha para perguntar
A principal dica dos adolescentes para que seus pares se enturmem mais rapidamente é a de não ter vergonha de tirar dúvidas e fazer perguntas. “Não existe dúvida boba, e quando fazemos o acolhimento, falamos sobre onde ficam os banheiros, os nomes dos professores e disciplinas novas como o projeto de vida, que eles não tinham antes”, conta Angelina Mazieri de Lima, uma das “jovens acolhedoras.”
As turmas e “panelinhas” já formadas nas salas podem intimidar os novatos à primeira vista, mas a recomendação dos veteranos é para que eles tentem identificar com quais delas possuem alguma afinidade. Do lado de quem já está na escola – nesta, pelo menos – sempre haverá esforço para que todos se integrem ao novo ambiente, mas de forma natural.
“Eu particularmente me enturmo muito fácil, principalmente com gente mais nova que eu, porque eu tenho síndrome de mãe, sabe? Acolho todos no meu coração, mas tem aquela pessoa que sempre é tímida, não se esforça para fazer amizade, a gente vai tentar conversar, mas sem forçar também”, diz Ana Beatriz, de 14 anos.
A professora de psicologia Rachel Sette, sugere que em vez de adolescente tentar ser “engraçado ou descolado”, mesmo sem ter jeito de ser, o ideal é observar na turma os colegas com interesses comuns. “A dica é ouro é encontrar um ‘parceiro de nicho’, alguém que goste do mesmo jogo, livro ou estilo musical. A aproximação gradual, ou seja um comentário sobre a aula, uma pergunta sobre o material, é mais sustentável do que tentar forçar uma extroversão que não lhe pertence”, salienta.
“Mudar de escola é uma experiência intensa. É comum surgirem sentimentos como medo de não ser aceito ou de não conseguir se adaptar, sensação de estar “de fora” enquanto os colegas já têm grupos formados ou saudade da rotina conhecida. Essas emoções fazem parte do processo de adaptação e não indicam necessariamente um problema. Elas refletem a necessidade de reorganizar a identidade social em um ambiente novo”, afirma Rejane Ricciardi, orientadora educacional do Ensino Fundamental 2 no Colégio Arbos, da rede particular de ensino em Santo André, no ABC.
Esportes como catalisadores
Uma forma de facilitar essa socialização é por meio das atividades coletivas como as esportivas, do grêmio estudantil e de projetos ou clubes juvenis. “Elas já fazem parte da nossa rotina escolar e funcionam como espaços seguros de convivência em pequenos grupos, facilitando a comunicação, a troca de experiências e o fortalecimento das relações”, diz Rejane.
Ao participarem dessas atividades, os alunos se aproximam por afinidades, interesses em comum e objetivos compartilhados, o que favorece conexões mais naturais e significativas.
Para a professora Rachel Sette, essas atividades são “catalisadores de intimidade”. “Elas oferecem um objetivo comum, o que tira o foco do ‘eu’ e coloca no ‘fazer’. Quando o adolescente está focado em um projeto de robótica ou em um jogo de vôlei, as barreiras sociais baixam naturalmente e o vínculo se constrói através da cooperação, sem a pressão de uma conversa face a face ininterrupta.”

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