A menstruação não precisa ser transformada em um grande acontecimento. O importante é tratar o tema com naturalidade e garantir que a criança tenha abertura para pedir ajuda sempre que precisar e possa tirar dúvidas, inclusive os meninos. “Se esse não é um assunto conversado, a criança aprende que não se pode falar sobre isso”, diz Claudia Pacheco.
Claudia identificou uma grande oportunidade de explicar o ciclo menstrual de forma mais lúdica e acolhedora quando seu filho Joaquim, com pouco mais de 2 anos na época, a viu menstruada no banheiro. “Mãe, o que é isso, sangue? Você fez um machucado?”“Não, filho, a mamãe sangra”, ela respondeu.
Esclarecer que o sangue da menstruação é diferente daquele provocado por cortes ou machucados é a recomendação da ginecologista e sexóloga Joyce Martins. “Importante dizer que este é um processo normal, que está tudo bem, que há um momento em que o corpo da mamãe precisa sangrar, assim como a criança precisa fazer xixi e cocô todo dia.” Ou seja, o foco deve estar na naturalidade e na objetividade. Isso significa tratar o tema como um processo fisiológico comum do corpo humano. A curiosidade natural durante a primeira infância pode ser aproveitada para reforçar a ideia de que o corpo passa por mudanças e que a menstruação faz parte da saúde e da normalidade da vida adulta.
Apesar de reforçar que a menstruação não está necessariamente relacionada à dor, Joyce sugere não omitir que o período menstrual pode causar cólicas, dores e desconfortos. “ Dá para explicar que, às vezes, a menstruação pode causar uma dor de barriga e que, nesses momentos, é preciso descansar e ficar mais quietinha.”
A conversa com meninas
Quando o assunto envolve meninas que estão se aproximando da puberdade, a conversa sobre menstruação ganha uma camada mais específica. Isso porque, entre os oito e os 13 anos, muitas já começam a perceber mudanças no corpo, como o crescimento das mamas, o aparecimento de pelos e, mais adiante, a chegada da primeira menstruação.
Por isso, especialistas recomendam que o tema seja abordado antes da menarca — nome dado à primeira menstruação — para que esse momento não seja vivido com medo, vergonha ou susto.Além das transformações físicas, a conversa também pode incluir questões emocionais e práticas do dia a dia, como cólicas, oscilações de humor, uso de absorventes e autocuidado.
Conteúdos como filmes e livros também podem ajudar
A relações-públicas Claudia Pacheco aproveitou a curiosidade do filho — hoje com 9 anos — ao ver o sangue em seu absorvente para escrever o livro “A mamãe sangra”.
“Minha ideia era fazer com que as crianças tivessem mais acesso sobre o que é a menstruação de verdade para que não seja um tabu.”
Inspirada na experiência da filha que, aos 9 anos, começou a apresentar os primeiros sinais da puberdade, a fisioterapeuta pélvica Berenice Shakti escreveu “Diário de Adelaine”. O livro conta a história de uma menina que descobre a natureza do feminino e o gerenciamento de seus ciclos.
“Meu desejo era que a minha filha não fosse uma paciente futura de uma outra profissional com disfunção pélvica, sem uma boa relação com o próprio corpo”, diz. “Por isso a ideia de ter uma história lúdica.”
Berenice promove contação de histórias seguidas de rodas de conversa com meninos e meninas em escolas públicas. Nessas experiências, ela notou que é preciso começar cedo a abordar o tema para que “a vergonha não se instale antes e impeça de realmente receber a informação”. Elaobserva que, enquanto crianças menores são curiosas e abertas, adolescentes que já passaram pela menarca sem orientação muitas vezes carregam uma vergonha que dificulta o diálogo.
As perguntas mais frequentes
A partir das entrevistas com a ginecologista e sexóloga Joyce Martins e com as escritoras Claudia Pacheco e Berenice Shakti, o Lunetas elencou algumas dúvidas que podem surgir sobre menstruação e sugestões de como respondê-las de forma simples, acolhedora e sem constrangimento:
Mamãe, por que você está sangrando? Você se machucou?
Como o sangue costuma ser associado a ferimentos, dor ou doença, a criança pode se assustar ao ver o sangue menstrual. Por isso, explique de forma clara que não se trata de um machucado e que não é dolorido.
Para tirar a “fantasia do machucado”, Joyce acha válido, no caso das mulheres, utilizar um espelho para mostrar a genitália à criança para que ela veja que não há ferimentos. “Também pode ser uma oportunidade de falar sobre limites do corpo e consentimento, já que é um período em que eles começam a ter mais autonomia para se limpar ou tomar banho.”
De onde sai esse sangue?
A curiosidade anatômica é natural. A criança quer entender por onde o sangue está saindo. Este é um momento para nomear corretamente as partes do corpo, como útero e vulva, explicando que o sangue sai pela vagina. A recomendação é evitar nomes inventados ou metáforas, reconhecendo as partes do corpo como componentes naturais da anatomia.
Isso é sujo ou “nojento”?
A criança pode começar a reproduzir falas que ouve de colegas ou outros adultos de que a menstruação é algo “nojento” e que cheira mal. Aproveite a conversa para reforçar que o sangue menstrual é um sinal de saúde e vida, e que não está ligado à “falta de limpeza.”
Por que você está usando uma “fraldinha”?
Ao verem absorventes, as crianças pequenas frequentemente os associam a fraldas. A recomendação é evitar termos como “fraldinha”, pois infantiliza a mulher. O ideal é mostrar o absorvente e explicar que se trata de um item de higiene que serve para coletar o sangue que sai da vagina quando ele quer, já que, ao contrário do xixi, a mulher não consegue segurar o fluxo.
Esta também pode ser uma oportunidade de falar sobre outros recursos como os absorventes de pano, calcinhas menstruais e até os coletores.
Só vai acontecer com as meninas? Por que com os meninos não?
A resposta é que todas as meninas passarão por isso, pois a menstruação é uma parte natural do crescimento e um sinal de que o corpo está saudável. Já os meninos não menstruam porque há uma diferença biológica entre os corpos e eles não têm útero.
Enquanto o corpo das meninas tem órgãos como o útero e os ovários responsáveis pelo ciclo menstrual, o corpo dos meninos funciona de outra maneira, sem a necessidade de dispensar sangue mensalmente.
Aqui é importante frisar que o útero é parte do corpo humano, independentemente de uma futura maternidade. Para Joyce, associar o útero e a menstruação exclusivamente à gestação pode reforçar uma visão limitada do corpo feminino, especialmente na infância. “O ciclo menstrual não existe apenas para a reprodução.”
Meus seios começaram a crescer. Isso significa que vou menstruar logo?
O surgimento do broto mamário é um dos primeiros sinais físicos da puberdade e indica que o corpo está iniciando as mudanças que levarão à menarca, mas isso não significa que ela acontecerá imediatamente. Segundo Joyce, quando esse sinal aparece, a tendência é que a menstruação ocorra em até dois anos. Durante esse período de espera, outras mudanças corporais também podem ser notadas, como: o aparecimento de pelos, alteração no cheiro do suor, o surgimento de um corrimento ou secreção na calcinha.
Algumas amigas já menstruaram e eu não. Meu corpo está “atrasado” ou com problema?
Cada corpo tem seu próprio ritmo de desenvolvimento. Não existe “certo” ou “errado” em relação ao tempo das amigas, pois cada organismo é único.
